segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Um problema de silicone

- "Nem sempre conta o destino. Também é importante a viagem que fazemos para lá chegar. Por que outra razão alguém percorre quilómetros no Transiberiano ou neste caso nós poderemos fazer um cruzeiro? Não há maior descoberta interior do que aquela que se faz a viajar. A viagem traz paz. E vais descansar uns dias do trabalho."

Dito isto, Ana cruzou os dedos grossos e carregados de anéis dourados, pousando os olhos no marido. Esperava uma resposta, mas nem fazia ideia de que o seu pensamento estava longe. João não tinha ouvido nenhum dos argumentos que a mulher usara para o convencer a uma longa viagem de barco nas férias de Verão.


Depois de onze infelizes anos de casamento já não a suportava. Gostaria de se divorciar, mas não tinha coragem. Trabalhava na empresa do pai dela, tinha um carro que lhe foi dado pelos sogros, a casa foi prenda de casamento também deles para a filha. Nada estava em nome dele. Ele próprio não tinha família e tinha sido adoptado em criança por uns vizinhos pobres dos sogros que entretanto já tinham morrido. E João já conhecia bem a mulher e a família dela a ponto de saber que ficaria sem nada se se quisesse separar dela. O pior de tudo é que iriam fazer tudo para o afastar do seu bem mais precioso: o filho de sete anos.

Por isso, João resignava-se e procurava afastar aqueles pensamentos sobre o divórcio que às vezes lhe ocorriam. E naquelas alturas em que, como agora, ela usava de todo o seu poder para o obrigar a fazer coisas de que ele não gostava - usando argumentos que ele não compreendia ou aos quais não dava valor - João só se via a amordaçar a mulher, ou a pôr-lhe uma fita cola na boca, ou ainda a usar um spray que a deixasse muda para sempre. Que bom seria não ter que ouvir aquela vozinha irritante e petulante. Eram pensamentos que o divertiam secretamente, embora em consciência os tentasse afastar e concentrar-se no que ela dizia.


Um dia, um amigo dele disse-lhe que não compreendia como é que ele não era feliz com uma mulher tão bonita e tão rica. João bem tentou explicar ao amigo que a beleza exterior e o dinheiro não são tudo. Confessou ao amigo que se sentia uma prostituta sempre que era obrigado a fazer o que não queria só porque não se conseguia impôr a uma mulher que fazia questão de lhe lembrar sempre de onde ele tinha vindo - um orfanato. Mas o amigo não compreendia, e o único conselho que lhe ocorreu para acalmar João foi que passasse a frequentar umas casas de alterne que conhecia.


João não conhecera na vida outra mulher para além de Ana e até achou que talvez fosse esse o problema. Inventou um falso jantar de negócios como argumento para se esquivar de casa à noite. O problema é que as coisas não correram como o esperado. 


Assim que uma rapariga de peitos bem avantajados se pôs ao colo dele quase como veio ao mundo, João teve um ataque de ansiedade e julgou que ia morrer ali. Bastava olhar para ela para sentir que o peito dela o ia sufocar. Sentiu suores e calafrios, começou a tremer e a dizer coisas sem nexo. Só pensava que a qualquer momento as duas bolas descomunais de silicone poderiam rebentar-lhe na cara.

A rapariga percebeu que ele não estava bem e foi a correr buscar um copo de água. Lá bebeu, mas sempre que ela lhe fazia festas na cabeça ele sentia falta de ar. Muito atrapalhado, João saiu daquela casa de alterne jurando nunca mais voltar àquelas aventuras. O amigo riu-se, encolheu os ombros e respondeu simplesmente que cada um é para o que nasce.

- "João, tu estás a ouvir o que eu te estou a dizer? Estou aqui há tempos a falar do cruzeiro e tu estás para aí calado como uma múmia!"


- "Cruzeiro? Sim, Ana. Estou a ouvir tudo. Estou só preocupado com uns problemas da fábrica, mas ouvi-te. E concordo com tudo. Agora preciso é de dormir."


O que Ana ignorava é que, enquanto ela falava, João lembrou-se do episódio do bar de alterne na altura em que olhava para a camisa de noite decotada da mulher. Passou pela primeira vez pela cabeça de João que o problema tinha sido o tamanho frontal exagerado da prostituta. E foi um determinado raciocínio que levou João a concordar com a ideia do cruzeiro sem se sentir martirizado.


Talvez lá no tal barco enorme eu encontre uma mulher rica, velha -  e pouco avantajada frontalmente - que me queira e me leve daqui. Quanto ao meu puto, quando a velha morrer dentro de pouco tempo, eu fico um viúvo rico volto cá e luto pelo meu filho. Que bom vai ser não ter mais de aturar esta gente sovina e mesquinha. 

Revendo o seu plano mentalmente, e vendo-se já a abordar uma estrangeira enrugada mas com uma carteira recheada, João acabou por fechar os olhos e adormecer num sono tão descansado como não tinha há muitos anos.

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