- "Nem sempre conta o destino. Também é importante a viagem que fazemos
para lá chegar. Por que outra razão alguém percorre quilómetros no
Transiberiano ou neste caso nós poderemos fazer um cruzeiro? Não há maior descoberta interior do
que aquela que se faz a viajar. A viagem traz paz. E vais descansar uns dias do trabalho."
Dito isto, Ana cruzou os dedos grossos e carregados de anéis dourados, pousando
os olhos no marido. Esperava uma resposta, mas nem fazia ideia de que o
seu pensamento estava longe. João não tinha ouvido nenhum dos argumentos que a mulher usara para o
convencer a uma longa viagem de barco nas férias de Verão.
Depois de
onze infelizes anos de casamento já não a suportava. Gostaria de se
divorciar, mas não tinha coragem. Trabalhava na empresa do pai dela,
tinha um carro que lhe foi dado pelos sogros, a casa foi prenda de
casamento também deles para a filha. Nada estava em nome dele. Ele próprio não tinha família e tinha sido adoptado em criança por uns vizinhos pobres dos sogros que entretanto já tinham morrido. E João já
conhecia bem a mulher e a família dela a ponto de saber que ficaria sem nada
se se quisesse separar dela. O pior de tudo é que iriam fazer tudo para
o afastar do seu bem mais precioso: o filho de sete anos.
Por isso, João resignava-se e procurava afastar aqueles pensamentos
sobre o divórcio que às vezes lhe ocorriam. E naquelas alturas em que,
como agora, ela usava de todo o seu poder para o obrigar a fazer coisas
de que ele não gostava - usando argumentos que ele não compreendia ou
aos quais não dava valor - João só se via a amordaçar a mulher, ou a
pôr-lhe uma fita cola na boca, ou ainda a usar um spray que a deixasse
muda para sempre. Que bom seria não ter que ouvir aquela vozinha irritante e petulante. Eram pensamentos que o divertiam secretamente, embora
em consciência os tentasse afastar e concentrar-se no que ela dizia.
Um dia, um amigo dele disse-lhe que não compreendia como é que ele não
era feliz com uma mulher tão bonita e tão rica. João bem tentou explicar
ao amigo que a beleza exterior e o dinheiro não são tudo. Confessou ao
amigo que se sentia uma prostituta sempre que era obrigado a fazer o que
não queria só porque não se conseguia impôr a uma mulher que fazia
questão de lhe lembrar sempre de onde ele tinha vindo - um orfanato.
Mas o amigo não compreendia, e o único conselho que lhe ocorreu para
acalmar João foi que passasse a frequentar umas casas de alterne que conhecia.
João não conhecera na vida outra mulher para além de Ana e até achou que talvez
fosse esse o problema. Inventou um falso jantar de negócios como
argumento para se esquivar de casa à noite. O problema é que as coisas
não correram como o esperado.
Assim que uma rapariga de peitos bem
avantajados se pôs ao colo dele quase como veio ao mundo, João teve um
ataque de ansiedade e julgou que ia morrer ali. Bastava olhar para ela
para sentir que o peito dela o ia sufocar. Sentiu suores e calafrios,
começou a tremer e a dizer coisas sem nexo. Só pensava que a qualquer momento as duas bolas descomunais de silicone poderiam rebentar-lhe na cara.
A rapariga percebeu que ele
não estava bem e foi a correr buscar um copo de água. Lá bebeu, mas sempre que ela lhe fazia festas na cabeça ele sentia falta de ar. Muito atrapalhado,
João saiu daquela casa de alterne jurando nunca mais voltar àquelas
aventuras. O amigo riu-se, encolheu os ombros e respondeu simplesmente
que cada um é para o que nasce.
- "João, tu estás a ouvir o que eu te estou a dizer? Estou aqui há
tempos a falar do cruzeiro e tu estás para aí calado como uma múmia!"
- "Cruzeiro? Sim, Ana. Estou a ouvir tudo. Estou só preocupado com uns
problemas da fábrica, mas ouvi-te. E concordo com tudo. Agora preciso é
de dormir."
O que Ana ignorava é que, enquanto ela falava, João lembrou-se do episódio do bar de alterne
na altura em que olhava para a camisa de noite decotada da mulher. Passou pela
primeira vez pela cabeça de João que o problema tinha sido o tamanho
frontal exagerado da prostituta. E foi um determinado raciocínio que levou João a
concordar com a ideia do cruzeiro sem se sentir martirizado.
Talvez lá
no tal barco enorme eu encontre uma mulher rica, velha - e pouco
avantajada frontalmente - que me queira e me leve daqui. Quanto ao meu
puto, quando a velha morrer dentro de pouco tempo, eu fico um viúvo rico volto cá e luto
pelo meu filho. Que bom vai ser não ter mais de aturar esta gente sovina
e mesquinha.
Revendo o seu plano mentalmente, e vendo-se já a abordar uma estrangeira enrugada mas com uma carteira recheada, João acabou por fechar os
olhos e adormecer num sono tão descansado como não tinha há muitos
anos.
Sem comentários:
Enviar um comentário