As minhas mãos estão cobertas de ligaduras. Não vejo a pele que cobre os
meus dedos. Não vejo as minhas unhas. O meu corpo arde de dores.
Adormeço e quando acordo já não sinto nada. A médica que me operou
manda-me para casa. Anestesiada. Mas nunca mandaram olhar-me ao espelho.
Uma operação plástica não é fácil minha querida, disse uma enfermeira com ar
condescendente. Quando o meu marido me veio buscar fez um ar de
compaixão. Agora que vamos no elevador e vejo a minha figura percebo
porquê.
Pareço uma múmia. Só não tenho medo que ele me deixe agora porque sei
que ele está focado no resultado final. Mas a minha cabeça só me
pergunta por que raio fui eu concordar em fazer esta operação!
Este é o
meu quarto marido. É o mais bonito de todos e mais inteligente do que os
outros que morreram. É tão jovem como os meus netos. E tenho medo que
ele me deixe a envelhecer na minha solidão.
Eu tinha que voltar a ser
jovem e a ter uma pele bonita para o poder segurar e competir com essas
escanzeladas que andam por aí a passear os corpos desnudos. Eu passo
cinco horas por dia no ginásio e todas as refeições que as minhas
empregadas preparam têm apenas as calorias suficientes para eu viver.
Mas agora que me submeti a estas dores e ao choque de me ver
transformada numa múmia - e isto ainda agora começou porque a
recuperação é longa - penso que a minha vida está toda errada.
Será que
eu não seria mais feliz com um velho como eu - porque é isso que eu sou
por mais que não queira aceitar -, será que um homem barrigudo e peludo
não traria mais paz à minha vida?
Acabava-se a contagem de calorias,
acabava-se o ginásio, acabavam-se as operações plásticas, acabavam-se os
ciúmes que me consomem de cada vez que ele olha para o rabo da
empregada de nariz empinado que um dia destes ainda hei-de despedir
quando os encontrar juntos na cama.
Quem quero eu enganar com esta vida
de aparências? Já sei, engano-me a mim, primeiro do que tudo. Vou tomar
um comprimido para dormir. Ou melhor, a caixa toda.
...
Abro os olhos e vejo tudo branco. Estou de novo no hospital. Sinto-me
anestesiada. Não sei por que estou aqui. A porta do quarto entreabre-se
para aparecer uma enfermeira com ar de travesti a dar-me um sermão.
Já percebi. Ia morrendo, mas não morri, pois não? Era o que me apetecia gritar, mas fico em silêncio. Enfermeira bruta, já te calavas e
deixavas-me em paz. Enganei-me nos comprimidos, foi só isso.
Ah, dizes que já posso tirar as ligaduras da
plástica até. Está bem, mas não quero ver o espelho. E também não quero que
avisem a minha família que acordei. Está tudo bem. Quero ir para casa e vou sozinha.
Umas horas depois apanho toda a gente distraída no hospital e vou-me embora.
Entro no elevador do hospital e esqueço-me de que tem um espelho. Dou um
salto. Quase desmaio a olhar para o meu rosto. Quem é esta? Não sou eu,
não me reconheço.
Nem quando tinha 18 anos era assim. Esta não é a
minha cara. Quero as minhas rugas de volta. Entro em desespero. Não há pior abismo interior do que olhar para o espelho e ver devolvida a imagem de alguém que não conhecemos. É como se ficássemos sem chão e todas as certezas se tivessem desvanecido.
Começo a gritar em
desespero, rasgo a roupa, as lágrimas escorrem até ao peito e queimam o
meu coração. Chego ao rés-do-chão, saio do elevador a correr e atravesso
a estrada. Só tenho pena de estragar a vida àquele condutor que me vai
atropelar mas tem que ser. Neste momento não vejo outra saída para o labirinto em que estou.
Adeus mundo que me fizeste assim.
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