segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Cérebro de plástica

As minhas mãos estão cobertas de ligaduras. Não vejo a pele que cobre os meus dedos. Não vejo as minhas unhas. O meu corpo arde de dores.

Adormeço e quando acordo já não sinto nada. A médica que me operou manda-me para casa. Anestesiada. Mas nunca mandaram olhar-me ao espelho.


Uma operação plástica não é fácil minha querida, disse uma enfermeira com ar condescendente. Quando o meu marido me veio buscar fez um ar de compaixão. Agora que vamos no elevador e vejo a minha figura percebo porquê.

Pareço uma múmia. Só não tenho medo que ele me deixe agora porque sei que ele está focado no resultado final. Mas a minha cabeça só me pergunta por que raio fui eu concordar em fazer esta operação! 


Este é o meu quarto marido. É o mais bonito de todos e mais inteligente do que os outros que morreram. É tão jovem como os meus netos. E tenho medo que ele me deixe a envelhecer na minha solidão.

Eu tinha que voltar a ser jovem e a ter uma pele bonita para o poder segurar e competir com essas escanzeladas que andam por aí a passear os corpos desnudos. Eu passo cinco horas por dia no ginásio e todas as refeições que as minhas empregadas preparam têm apenas as calorias suficientes para eu viver.

Mas agora que me submeti a estas dores e ao choque de me ver transformada numa múmia - e isto ainda agora começou porque a recuperação é longa - penso que a minha vida está toda errada. 


Será que eu não seria mais feliz com um velho como eu - porque é isso que eu sou por mais que não queira aceitar -, será que um homem barrigudo e peludo não traria mais paz à minha vida? 

Acabava-se a contagem de calorias, acabava-se o ginásio, acabavam-se as operações plásticas, acabavam-se os ciúmes que me consomem de cada vez que ele olha para o rabo da empregada de nariz empinado que um dia destes ainda hei-de despedir quando os encontrar juntos na cama.

Quem quero eu enganar com esta vida de aparências? Já sei, engano-me a mim, primeiro do que tudo. Vou tomar um comprimido para dormir. Ou melhor, a caixa toda.

...


Abro os olhos e vejo tudo branco. Estou de novo no hospital. Sinto-me anestesiada. Não sei por que estou aqui. A porta do quarto entreabre-se para aparecer uma enfermeira com ar de travesti a dar-me um sermão.


Já percebi. Ia morrendo, mas não morri, pois não? Era o que me apetecia gritar, mas fico em silêncio. Enfermeira bruta, já te calavas e deixavas-me em paz.
Enganei-me nos comprimidos, foi só isso.

Ah, dizes que já posso tirar as ligaduras da plástica até. Está bem, mas não quero ver o espelho. E também não quero que avisem a minha família que acordei. Está tudo bem. Quero ir para casa e vou sozinha.

Umas horas depois apanho toda a gente distraída no hospital e vou-me embora.
Entro no elevador do hospital e esqueço-me de que tem um espelho. Dou um salto. Quase desmaio a olhar para o meu rosto. Quem é esta? Não sou eu, não me reconheço.


Nem quando tinha 18 anos era assim. Esta não é a minha cara. Quero as minhas rugas de volta. Entro em desespero. Não há pior abismo interior do que olhar para o espelho e ver devolvida a imagem de alguém que não conhecemos. É como se ficássemos sem chão e todas as certezas se tivessem desvanecido.

Começo a gritar em desespero, rasgo a roupa, as lágrimas escorrem até ao peito e queimam o meu coração. Chego ao rés-do-chão, saio do elevador a correr e atravesso a estrada. Só tenho pena de estragar a vida àquele condutor que me vai atropelar mas tem que ser. Neste momento não vejo outra saída para o labirinto em que estou. 

Adeus mundo que me fizeste assim.

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