Olho ao espelho e não sei de quem são estes olhos que me olham. Olho
para o homem que está ao meu lado e diz ser meu marido mas não o
conheço.
Não sei por que razão estou nesta cama de hospital. Socorro! Estarei a
ter um pesadelo? Os rostos que me sorriem das mulheres de bata branca
são de compaixão. Os olhos do homem que me segura a mão são de tristeza.
Não compreendo o que se passa à minha volta. E pior do que tudo - não
sei quem sou.
Toda a gente sai da sala à excepção do homem que não larga a minha mão. É
alto, bem parecido, pele escura, olhos pretos, cabelo curto e grisalho. Pelas
olheiras parece que não dorme há dias. Tem um ar abatido e pálido. Um
arranhão sulca a cara do lado esquerdo e mais acima a cabeça tem um
grande e quadrado penso branco. Os dedos também estão arranhados.
Coitado, o que será que lhe aconteceu? Ele olha-me em silêncio. Parece
emocionado. Eu rompo o silêncio e pergunto o que aconteceu, o que se
passa.
Depois de uma hesitação, uma voz meiga e rouca que me trata com carinho
diz-me que tivemos um acidente. Íamos a passear na Serra da Arrábida
quando um camião fora de mão lançou a nossa carrinha para um penhasco.
Eu pergunto se ia mais alguém no carro para além de nós. Ia o nosso
velho cão Togo e os nossos filhos. O animal morreu. As crianças estão
bem.
Sem eu perceber, já uma lágrima rolava pela minha face. A histeria
apodera-se de mim. Mas como é que eu sou mãe e não me lembro? Como? Eu
não sei como se chamam os meus filhos, a sua cor do cabelo e dos olhos, se
estão bem ou se estão assustados. Eu não sei nada. Como é possível? Mas
como saberia se nem de mim própria sei? Se nem sei quem sou? E nem sei
se tudo isto que este homem está a dizer é verdade!
Ele tenta acalmar-me e abraçar-me, só que a minha revolta não o
permite. Abro as palmas das mãos e bato-lhe no peito, fecho os punhos e
bato na cama. O choro toma conta de mim de forma convulsiva. Tapo o
rosto com as mãos como uma criança envergonhada com uma garotice que fez. A minha cabeça está confusa. Não sei o que pensar.
Finalmente deixo abraçar-me. Os dedos fortes dele afagam os meus cabelos
desgrenhados e enxugam-me as lágrimas. Deixo-me abraçar de novo e assim
ficamos algum tempo até que tenho uma primeira recordação ao cheirar o
pescoço dele. Reconheço este cheiro. O meu coração parece saltar do
peito. O meu estômago parece estar cheio de borboletas. Só pode mesmo
ser o meu amor. Agora sei que este homem está mesmo a dizer a verdade.
Ainda por cima a minha intuição diz-me o mesmo. Por
mais difícil que seja de aceitar o que acabei de ouvir, tudo é verdade.
Acabo por lhe pedir desculpa pelo meu ataque de fúria. Compreensivo,
diz-me que é normal. Parece que fui eu quem mais sofreu com o acidente.
Estou internada há semanas e fiquei amnésica. Os médicos dizem que a
memória voltará em breve. É preciso paciência. É preciso dar tempo ao
tempo.
Esta ideia deixa-me preocupada, porque não sei como estão os meus
filhos, nem quem cuida deles. Quero vê-los. Mais uma vez ele acalma-me
com um tom doce e enternecido. Os miúdos podem visitar-me amanhã e se
tudo correr bem até posso voltar para casa nos próximos dias. Assim espero.
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