segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Amnésia

Olho ao espelho e não sei de quem são estes olhos que me olham. Olho para o homem que está ao meu lado e diz ser meu marido mas não o conheço.

Não sei por que razão estou nesta cama de hospital. Socorro! Estarei a ter um pesadelo? Os rostos que me sorriem das mulheres de bata branca são de compaixão. Os olhos do homem que me segura a mão são de tristeza. Não compreendo o que se passa à minha volta. E pior do que tudo - não sei quem sou.


Toda a gente sai da sala à excepção do homem que não larga a minha mão. É alto, bem parecido, pele escura, olhos pretos, cabelo curto e grisalho. Pelas olheiras parece que não dorme há dias. Tem um ar abatido e pálido. Um arranhão sulca a cara do lado esquerdo e mais acima a cabeça tem um grande e quadrado penso branco. Os dedos também estão arranhados. Coitado, o que será que lhe aconteceu? Ele olha-me em silêncio. Parece emocionado. Eu rompo o silêncio e pergunto o que aconteceu, o que se passa.


Depois de uma hesitação, uma voz meiga e rouca que me trata com carinho diz-me que tivemos um acidente. Íamos a passear na Serra da Arrábida quando um camião fora de mão lançou a nossa carrinha para um penhasco. Eu pergunto se ia mais alguém no carro para além de nós. Ia o nosso velho cão Togo e os nossos filhos. O animal morreu. As crianças estão bem.


Sem eu perceber, já uma lágrima rolava pela minha face. A histeria apodera-se de mim. Mas como é que eu sou mãe e não me lembro? Como? Eu não sei como se chamam os meus filhos, a sua cor do cabelo e dos olhos, se estão bem ou se estão assustados. Eu não sei nada. Como é possível? Mas como saberia se nem de mim própria sei? Se nem sei quem sou? E nem sei se tudo isto que este homem está a dizer é verdade!


Ele tenta acalmar-me e abraçar-me, só que a minha revolta não o permite.  Abro as palmas das mãos e bato-lhe no peito, fecho os punhos e bato na cama. O choro toma conta de mim de forma convulsiva. Tapo o rosto com as mãos como uma criança envergonhada com uma garotice que fez. A minha cabeça está confusa. Não sei o que pensar.


Finalmente deixo abraçar-me. Os dedos fortes dele afagam os meus cabelos desgrenhados e enxugam-me as lágrimas. Deixo-me abraçar de novo e assim ficamos algum tempo até que tenho uma primeira recordação ao cheirar o pescoço dele. Reconheço este cheiro. O meu coração parece saltar do peito. O meu estômago parece estar cheio de borboletas. Só pode mesmo ser o meu amor. Agora sei que este homem está mesmo a dizer a verdade. Ainda por cima a minha intuição diz-me o mesmo. Por mais difícil que seja de aceitar o que acabei de ouvir, tudo é verdade.


Acabo por lhe pedir desculpa pelo meu ataque de fúria. Compreensivo, diz-me que é normal. Parece que fui eu quem mais sofreu com o acidente. Estou internada há semanas e fiquei amnésica. Os médicos dizem que a memória voltará em breve. É preciso paciência. É preciso dar tempo ao tempo. 


Esta ideia deixa-me preocupada, porque não sei como estão os meus filhos, nem quem cuida deles. Quero vê-los. Mais uma vez ele acalma-me com um tom doce e enternecido. Os miúdos podem visitar-me amanhã e se tudo correr bem até posso voltar para casa nos próximos dias. Assim espero.

Sem comentários:

Enviar um comentário