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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Solidão


Um quarto de hotel é sempre o expoente máximo da solidão para mim. Estou sozinho entre quatro paredes. E a minha vida é feita de solidão. Dizem que um casamento consiste numa solidão que ampara outra solidão. Neste caso eu não consigo amparar a solidão da minha mulher.

Eu estou sempre longe de casa. O trabalho leva-me todas as semanas a cidades diferentes, a escritórios diferentes e a quartos de hotel diferentes. Mas para mim é tudo igual. O avião é a minha segunda casa. É onde me sinto mais amparado e mais feliz quando estou longe da minha verdadeira casa.

Pergunta-me o espelho se sou feliz. Não sei o que responder. Enquanto trabalho e viajo pareço estar feliz, sinto-me realizado. O problema é mesmo quando chego ao quarto de hotel e fico a sós com a minha solidão.

A solidão mata e corrói-nos por dentro aos poucos. Leva-nos a tranquilidade, a harmonia, a esperança, leva-nos até a fala. Em troca traz-nos o medo, a insegurança, a intranquilidade. Ficamos ensimesmados, indiferentes aos outros, tornamo-nos bichos-do-mato. E já não estranhamos quando nos sentimos sozinhos no meio de uma multidão.

O meu melhor amigo diz que ninguém nos pode tirar a nossa solidão. Cabe-nos a nós próprios lutar para sair dela, reinventarmo-nos, deixarmos os caminhos antigos, ir ao encontro dos outros e reaprender a sorrir com a alegria de quem vê uma coisa linda pela primeira vez. Viver cada momento como se fosse o último, porque amanhã pode ser tarde.

Só que eu não consigo ser tão optimista. Ou pelo menos não tenho forças para lutar contra as minhas fraquezas. Esse amigo aconselha-me muitas vezes a matar a solidão com mulheres. Já experimentei. Mas sinto-me sozinho na mesma e ainda por cima sinto-me sujo. Quando olho para a minha mulher sinto-me um lixo, um cobarde, que para além de não a ajudar a criar os nossos filhos ainda anda a viajar e a traí-la. Eu não posso fazer mais isso. Eu não quero.

A solução é aprender a viver com a minha solidão. Ainda que demore tempo. Ou então, como me segreda a minha mãe de cada vez que a vejo, o melhor é mudar de trabalho. Posso ganhar muito menos dinheiro mas pelo menos tenho a felicidade de adormecer e acordar todos os dias ao lado da mulher que eu amo. De fazer torradas pela manhã enquanto ela me agarra pela cintura. De parar uma batalha de cereais entre os miúdos. De ver os sorrisos deles sempre que os levo à escola. De lhes dar banho à noite. Há coisas que não têm preço. A minha mãe tem razão. Está decidido. Amanhã vou falar com o meu chefe e vou à procura da minha felicidade. Adeus solidão.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

25 de Abril e solidão

Os meus vizinhos não têm rosto, não têm voz, não têm nome. São entidades abstractas que habitam nos cubículos à minha volta, aos quais convencionaram chamar de apartamentos. E eu não os conheço. Se os vir na rua não os conheço.

Eu praticamente só vejo o que está dentro destas quatro paredes. Há dois anos que não saio de casa, só vou à rua uma vez por dia para comprar pão. A que mais pode aspirar uma mulher sozinha de 93 anos? É viver para afugentar a morte.

Muita gente diz que eu não devia morar sozinha. Mas enganam-se. Eu não vivo sozinha, vivo com a minha solidão. E ninguém me pode tirar dela. A solidão mata e corrói-nos por dentro aos poucos. Leva-nos a tranquilidade, a harmonia, a esperança, leva-nos até a fala. Em troca traz-nos o medo, a insegurança, a intranquilidade. Ficamos ensimesmados, indiferentes aos outros, tornamo-nos bichos do mato. E já não estranhamos quando nós sentimos sozinhos no meio de uma multidão.

Ninguém nos pode tirar a nossa solidão. Cabe-nos a nós próprios lutar para sair dela, reinventarmo-nos, deixarmos os caminhos antigos, ir ao encontro dos outros e reaprender a sorrir com a alegria de quem vê uma coisa linda pela primeira vez. Viver cada momento como se fosse o último, porque amanhã pode ser tarde.

Mas como fazê-lo se o meu corpo não deixa? A esta pergunta e à pergunta de a que mais pode aspirar uma mulher sozinha de 93 anos eu respondo que não me conformo. A partir de agora não me conformo.

Se não tenho dinheiro para fisioterapia vou falar com o meu médico, porque o Serviço Nacional de Saúde tem que me dar resposta. Não é por ser velha e pobre que tenho que viver isolada com a minha parca reforma. Não foi para isso que os meus filhos ajudaram a fazer Abril. Não foi para isso que eu lutei na clandestinidade e fui presa pela PIDE. Todas as torturas, todo o sofrimento, toda a clausura não pode ter sido em vão.

Agora que é Abril de novo, agora que passam 40 anos recordo todas as alegrias a seguir à revolução. O primeiro 1.º de Maio, o PREC, o Verão Quente, o 25 de Novembro, as primeiras eleições em que votei e a sensação indescritível da liberdade.

Depois veio a CEE, os fundos europeus, a loucura em que o meu marido se meteu ao investir numa grande empresa, o dinheiro que ganhou para depois tudo perder na loucura dos casinos. Perdemos até a casa. E ele matou-se. Os filhos emigraram.

Eu a tudo resisti. Agora vivo numa magra casa, quase de favor, sozinha, sem grandes esperanças de futuro. De novo ergo-me e vou lutar. Sair da solidão. Uma coisa é certa meu querido Abril: tu nunca morrerás dentro de mim. 25 de Abril sempre; sozinha nunca mais!