Os meus vizinhos não têm rosto, não têm voz, não têm nome. São entidades
abstractas que habitam nos cubículos à minha volta, aos quais
convencionaram chamar de apartamentos. E eu não os conheço. Se os vir na
rua não os conheço.
Eu praticamente só vejo o que está dentro destas quatro
paredes. Há dois anos que não saio de casa, só vou à rua uma vez por dia
para comprar pão. A que mais pode aspirar uma mulher sozinha de 93
anos? É viver para afugentar a morte.
Muita gente diz que eu não devia morar sozinha. Mas enganam-se. Eu não
vivo sozinha, vivo com a minha solidão. E ninguém me pode tirar dela. A
solidão mata e corrói-nos por dentro aos poucos. Leva-nos a
tranquilidade, a harmonia, a esperança, leva-nos até a fala. Em troca
traz-nos o medo, a insegurança, a intranquilidade. Ficamos ensimesmados,
indiferentes aos outros, tornamo-nos bichos do mato. E já não
estranhamos quando nós sentimos sozinhos no meio de uma multidão.
Ninguém nos pode tirar a nossa solidão. Cabe-nos a nós próprios lutar
para sair dela, reinventarmo-nos, deixarmos os caminhos antigos, ir ao
encontro dos outros e reaprender a sorrir com a alegria de quem vê uma
coisa linda pela primeira vez. Viver cada momento como se fosse o
último, porque amanhã pode ser tarde.
Mas como fazê-lo se o meu corpo não deixa? A esta pergunta e à pergunta
de a que mais pode aspirar uma mulher sozinha de 93 anos eu respondo que
não me conformo. A partir de agora não me conformo.
Se não tenho
dinheiro para fisioterapia vou falar com o meu médico, porque o Serviço
Nacional de Saúde tem que me dar resposta. Não é por ser velha e pobre
que tenho que viver isolada com a minha parca reforma. Não foi para isso
que os meus filhos ajudaram a fazer Abril. Não foi para isso que eu
lutei na clandestinidade e fui presa pela PIDE. Todas as torturas, todo o
sofrimento, toda a clausura não pode ter sido em vão.
Agora que é Abril de novo, agora que passam 40 anos recordo todas as
alegrias a seguir à revolução. O primeiro 1.º de Maio, o PREC, o Verão Quente, o 25 de
Novembro, as primeiras eleições em que votei e a sensação indescritível
da liberdade.
Depois veio a CEE, os fundos europeus, a loucura em que o
meu marido se meteu ao investir numa grande empresa, o dinheiro que
ganhou para depois tudo perder na loucura dos casinos. Perdemos até a
casa. E ele matou-se. Os filhos emigraram.
Eu a tudo resisti. Agora vivo
numa magra casa, quase de favor, sozinha, sem grandes esperanças de futuro. De novo ergo-me e vou lutar. Sair da solidão. Uma coisa
é certa meu querido Abril: tu nunca morrerás dentro de mim. 25 de Abril
sempre; sozinha nunca mais!
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