Há dois dias que o meu primo Timóteo não consegue dormir. O problema
começou no dia em que a minha tia Ivana lhe pediu para ir a um novo
supermercado gourmet comprar uma pasta de fígado repugnante, de maneira
que foi obrigado a uma longa viagem de transportes públicos desde Almada
até à zona do Saldanha, em Lisboa. Apanhou autocarro, barco, metro e
com tanta viagem acabou por ficar zonzo. E a lamentar não ter levado um
livro para ler.
No metro do Saldanha esteve sentado num banco um bom bocado para
descansar do peso dos sacos das compras e fixaram-se-lhe na memória as
frases que leu nas paredes:
"Entrei numa livraria e pus-me a contar os
livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam. Não duro
nem para metade da livraria. Deve certamente haver outras maneiras de
se salvar uma pessoa, senão estou perdido."
O rapaz ficou a matutar
naquilo e ficou ainda mais chateado por não ter levado um livro para
esta penosa viagem.
Esta manhã, estava eu no meu palácio de algodão - a minha cama - a
dormir que nem um rei quando começo a ouvir Tony Carreira - sim, sou um
rapaz de gostos musicais variados. Era o parvo do Timóteo - o meu primo -
que lá por não dormir acha que toda a gente no mundo tem insónias. Eu
felizmente só tenho uma Sónia, que basta uma mulher para me moer o
juízo. Como estava a dizer, telefonou-me a altas horas da madrugada
porque queria saber quem era o autor das frases que viu no metro.
- Achas que tenho cara de Google ou o quê?
Depois do meu protesto ele lá se desculpou que nunca se entendeu com
computadores e que não tinha dinheiro para pagar a conta da internet.
- 'Tá bem abelha, respondi. Mas não me digas que nesses livros todos que
tens para aí nunca leste essas frases do Almada Negreiros? E depois tu é
que és o culto da família... E para a próxima liga para casa das
pessoas a horas mais decentes que são oito da manhã!!!!
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