Com uma passada incerta e um olhar errático, ele calcorreava a rua de
uma ponta à outra. A barba longa e os olhos raiados de sangue, a roupa
envelhecida e desgastada, os sapatos rotos e largos, tudo indiciava que era
um sem-abrigo.
Dei por mim nestes pensamentos enquanto estendia uma e outra peça de
roupa. Estava a anoitecer. A alegria das molas de roupa coloridas
contrastavam com as cores do crepúsculo. A alegria da correria das
minhas crianças entre a sala e o quarto contrastavam com o ar desolado
daquele homem que vagueava pela rua.
Parece triste. Mas que direito tenho eu de invadir os seus pensamentos?
Decerto não sabe onde dormir esta noite ou o que comer. Coloco-me no
lugar dele e penso como será viver assim, mas a verdade é que não
consigo. Ainda por cima começa a chover...
O melhor mesmo é aproveitar as coisas boas da vida, mesmo que pareçam
banais.
Acabo de estender a roupa e apanho um dos meus índios que correm
pela casa. Num abraço contínuo com um sorriso enorme apanho o outro
índio. E até ao jantar que está no forno estar pronto não paramos de correr de uma ponta à
outra do corredor, enquanto fazemos a dança da chuva, ou melhor, da
simples alegria de viver.
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