sábado, 5 de abril de 2014

Dança da chuva

Com uma passada incerta e um olhar errático, ele calcorreava a rua de uma ponta à outra. A barba longa e os olhos raiados de sangue, a roupa envelhecida e desgastada, os sapatos rotos e largos, tudo indiciava que era um sem-abrigo.

Dei por mim nestes pensamentos enquanto estendia uma e outra peça de roupa. Estava a anoitecer. A alegria das molas de roupa coloridas contrastavam com as cores do crepúsculo. A alegria da correria das minhas crianças entre a sala e o quarto contrastavam com o ar desolado daquele homem que vagueava pela rua.


Parece triste. Mas que direito tenho eu de invadir os seus pensamentos? Decerto não sabe onde dormir esta noite ou o que comer. Coloco-me no lugar dele e penso como será viver assim, mas a verdade é que não consigo. Ainda por cima começa a chover...

O melhor mesmo é aproveitar as coisas boas da vida, mesmo que pareçam banais. 


Acabo de estender a roupa e apanho um dos meus índios que correm pela casa. Num abraço contínuo com um sorriso enorme apanho o outro índio. E até ao jantar que está no forno estar pronto não paramos de correr de uma ponta à outra do corredor, enquanto fazemos a dança da chuva, ou melhor, da simples alegria de viver.

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