Pessoas impertinentes. É isso que ela mais detesta, e é isso que acaba de
responder no questionário que encontrou na revista cor-de-rosa que
comprou na estação para se entreter na viagem de comboio.
Primeiro,
entreteve-se a olhar para as silhuetas e formas do exterior que iam
aparecendo recortadas nas janelas, consoante a velocidade que o
maquinista ia imprimindo.
Depois, foi abrindo e semicerrando os olhos
várias vezes de seguida para brincar com a luz de fim de tarde de fim de inverno que entrava pela janela. E quando pensava que detestava viajar de
comboio, apesar de o fazer raramente, Carla lembrou-se de imaginar quem
eram as outras pessoas que iam na mesma carruagem. De onde vinham, para
onde iam, que idade, nome, profissão, aspirações, medos e frustrações.
Quando achou que nada mais lhe restava imaginar pegou na revista.
Rabiscou o questionário, desdenhou dos resultados idiotas e acabou por
adormecer.
Só acordou com a mão do revisor a abanar-lhe o braço direito. Tinha
finalmente chegado ao Porto. Mas não tinha ninguém à espera. Tinha saído
de casa zangada com o namorado/marido e quis fugir para onde ele nunca se
lembrasse de a procurar. Desaparecer por uma semana ou duas. Ser quem a
rotina e o medo nunca a deixaram ser. Aquela impertinência com que a
tinha tratado foi a gota de água.
Para começar foi comer um bom prato de tripas numa tasca que encontrou
perto da estação. A seguir apanhou um táxi e foi ao Via Catarina
entupir-se de compras. "Quando o anormal do Zé se der conta de que lhe
gastei o dinheiro todo do cartão aqui no Porto já eu estou a milhas", foi o que
pensou Carla. Madrid, Paris, Berlim, Viena, São Petersburgo (se o dinheiro ainda chegasse) estavam nos planos.
Num hotel de quatro estrelas tomou um bom banho e partiu para a noite
decidida a gastar-se com o homem mais atraente que lhe desse conversa no
bar da moda que lhe recomendaram na recepção.
Só não contava encontrar lá o seu primeiro namorado, que a tinha deixado
anos antes por ela ter recusado um emprego na cidade para poder
continuar a viver na serra com as ovelhas e cabras do negócio de família.
Sem comentários:
Enviar um comentário