terça-feira, 8 de abril de 2014

Impertinência

Pessoas impertinentes. É isso que ela mais detesta, e é isso que acaba de responder no questionário que encontrou na revista cor-de-rosa que comprou na estação para se entreter na viagem de comboio. 

Primeiro, entreteve-se a olhar para as silhuetas e formas do exterior que iam aparecendo recortadas nas janelas, consoante a velocidade que o maquinista ia imprimindo. 

Depois, foi abrindo e semicerrando os olhos várias vezes de seguida para brincar com a luz de fim de tarde de fim de inverno que entrava pela janela. E quando pensava que detestava viajar de comboio, apesar de o fazer raramente, Carla lembrou-se de imaginar quem eram as outras pessoas que iam na mesma carruagem. De onde vinham, para onde iam, que idade, nome, profissão, aspirações, medos e frustrações. Quando achou que nada mais lhe restava imaginar pegou na revista. Rabiscou o questionário, desdenhou dos resultados idiotas e acabou por adormecer.

Só acordou com a mão do revisor a abanar-lhe o braço direito. Tinha finalmente chegado ao Porto. Mas não tinha ninguém à espera. Tinha saído de casa zangada com o namorado/marido e quis fugir para onde ele nunca se lembrasse de a procurar. Desaparecer por uma semana ou duas. Ser quem a rotina e o medo nunca a deixaram ser. Aquela impertinência com que a tinha tratado foi a gota de água.


Para começar foi comer um bom prato de tripas numa tasca que encontrou perto da estação. A seguir apanhou um táxi e foi ao Via Catarina entupir-se de compras. "Quando o anormal do Zé se der conta de que lhe gastei o dinheiro todo do cartão aqui no Porto já eu estou a milhas", foi o que pensou Carla. Madrid, Paris, Berlim, Viena, São Petersburgo (se o dinheiro ainda chegasse) estavam nos planos.


Num hotel de quatro estrelas tomou um bom banho e partiu para a noite decidida a gastar-se com o homem mais atraente que lhe desse conversa no bar da moda que lhe recomendaram na recepção.


Só não contava encontrar lá o seu primeiro namorado, que a tinha deixado anos antes por ela ter recusado um emprego na cidade para poder continuar a viver na serra com as ovelhas e cabras do negócio de família.

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