- Vera, hoje é o dia preferido da minha irmã Isabelinha! - disse, apontando para o calendário.
- Hoje? Mas porquê? - estranhou a amiga da irmã da Isabelinha, que mal a conhecia.
De facto, a irmã tinha razão. Não era o dia de aniversário, não era o
dia de Natal, o Domingo de Páscoa, nem mesmo o Carnaval que deixavam a
Isabelinha feliz, mas sim o dia das mentiras. A 1 de Abril a Isabelinha
podia inventar as histórias que quisesse sem qualquer problema - pelo
menos era nisso que acreditava.
Os pais sempre deram às filhas uma educação rígida e ambas aprenderam
desde cedo que uma mentira tinha consequências. Depois de muitas nódoas
negras feitas pelo cinto do pai e pela colher de pau da mãe, aos oito
anos Isabelinha acabou por abandonar o hábito de dizer mentiras, embora
no seu íntimo tivesse prometido a si mesma tornar-se escritora de ficção
quando fosse crescida só para poder inventar as histórias que
quisesse.
Porém, Isabelinha acabou por tornar-se professora de equitação.
Apaixonada por cavalos desde pequena, era esta a única profissão para a
qual tinha aptidão. Aos 15 anos, admitiu perante o espelho - enquanto se
maquilhava às escondidas dos pais - que não tinha grande talento para as
letras e seria melhor esquecer a ideia de tornar-se escritora. Foi
nessa altura que teve uma ideia que a distraiu, deixando escorregar o
estojo de maquilhagem da mãe e entornando o pó colorido das sombras por
todo o lavatório. O dia seguinte seria especial a partir desse ano. No
dia 1 de Abril poderia inventar as histórias que quisesse e dar largas à
sua imaginação. Teriam era que ser verosímeis para que caíssem na
esparrela.
Nessa noite mal dormiu a pensar em mentiras e partidas que pudesse gizar
para o dia seguinte. Ao pequeno-almoço começou por atirar que tinha
ouvido dizer que a vizinha da frente tinha a casa hipotecada por ter
muitas dívidas. Ainda por cima tinha andado a fugir ao fisco e o marido
andava metido no tráfico de droga. Ao ouvir isto, o pai da Isabelinha
deixou escorregar a chávena de café com leite e inundou o chão com o
líquido acastanhado. Não podia crer que o melhor amigo fosse um bandido,
e começou a gritar que não queria que a filha repetisse aquela conversa
em mais lado nenhum. Aflita, a Isabelinha viu-se obrigada a dizer que
era apenas uma mentira que tinha inventado por ser dia 1 de Abril. E
pensou com os seus botões que tinha de pensar noutro tipo de mentiras.
No ano a seguir, telefonou para a mãe à hora de almoço a dizer que tinha
encontrado a irmã a comer um bolo cheio de creme na escola,
contrariando a dieta prescrita pelo nutricionista. Só à hora do jantar,
enquanto a mãe se preparava para o ralhete à filha obesa ao mesmo tempo que esta olhava
desconsoladamente para o prato de ervilhas com uma posta de pescada
cozida, a Isabelinha encheu-se de compaixão e resolveu contar a verdade. Afinal, o almoço da irmã na escola tinha sido a mesma comida que agora estava à
sua frente.
À medida que os anos iam passando, as mentiras de 1 de Abril eram cada
vez mais refinadas. A família já sabia com o que contava naquele dia do
ano, por isso desconfiava de tudo o que a Isabelinha dizia naquelas 24
horas, embora fingisse sempre que acreditava. Até ao dia 1 de Abril de 2014.
A Isabelinha tinha acordado várias vezes durante a noite com o choro do
filho bebé e mal tinha pregado olho, mas preparava o pequeno-almoço
com a alegria que lhe era característica no dia que mais gostava em todo
o ano. Já tinha pensado na mentira que inventaria para o marido ao
jantar. Só não tinha ainda decidido como surpreender os pais e a irmã.
Mal sabia o que a esperava.
Ao sair de casa para ir levar o filho ao infantário, notou que o pneu
dianteiro esquerdo do carro se tinha furado. Telefonou para o marido
para que ele voltasse para trás e lhe mudasse rapidamente o pneu. O
problema é que ele pensou que fosse mais uma das invenções dela de 1 de
Abril e despachou-a, frisando que desta vez não cairia nas mentiras
dela.
Uma hora depois era ver a pobre da Isabelinha com o fato branco
cheio de óleo e lama, ainda com o macaco na mão, o filho a chorar na
cadeirinha, e o telemóvel dela a tocar insistentemente. Era o chefe
dela, a lembrar que a reunião com os novos sócios do hipódromo ia
começar daí a dez minutos. Isabelinha desculpou-se e contou o motivo do
atraso, só que o chefe pensou ser uma mentira de 1 de Abril que usava
para fugir àquela secante reunião. Reagiu secamente a avisar que estava
despedida e desligou-lhe o telefone na cara. Desfeita em lágrimas, ligou
num pranto à mãe. Lembrando-se do dia que o calendário assinalava, a
mãe respondeu que já estava farta das mentiras dela e desligou o
telemóvel sem apelo nem agravo.
O bebé chorava cada vez mais ao ver a mãe em desespero, e a pobre
Isabelinha decidiu recorrer ao avô da criança. Não teve sorte. O pai
dela ripostou que não era hora para mentiras e que já estava atrasado para o
encontro com os investidores chineses do visto dourado. Fula da vida, Isabelinha atirou
com o iPhone pela calçada fora e deixou-se cair no chão a chorar desalmadamente.
Ao contrário do resto da família, a irmã ex-obesa (que agora era modelo fotográfico) adorava o entusiasmo
da Isabelinha naqueles dias e arrastou a amiga Vera para irem a casa da
irmã, não sabendo que naquele dia ela tinha de entrar mais cedo no hipódromo
por causa da reunião com os sócios ricaços. Foi o que valeu. Ao chegar a
dois quarteirões de casa da irmã encontrou-a prostrada no chão, o
sobrinho roxo de tanto chorar, e o carro ainda com o pneu por mudar.
Naquele dia Isabelinha prometeu a si mesma nunca mais inventar mentiras,
nem mesmo a 1 de Abril - e também ensinar ao filho a história do Pedro e
do Lobo.
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