Há vários anos, desde que me mudei para ali, que o via todos os dias de
manhã cedo. Quando eu ia para o trabalho, ainda antes do sol nascer, ele
passava por mim altivo, de cabeça no ar, como quem se acha o melhor do
mundo, com o seu fatinho vermelho.
Usava-o durante o inverno. Fora do tempo
frio só o usava se estivesse a chover. Deve ser impermeável, pensei eu
da primeira vez que passou por mim com o fato vermelho num dia quente em
que chovia a potes.
Havia dias em que o via ao fim da tarde também, a passear junto ao
mercado que fica perto da minha casa. Nessas ocasiões encontrava-se com
um amigo que também tinha um fato vermelho. Olhavam-se longamente quando
se encontravam, mas nunca abriam a boca. Era como se se compreendessem
apenas pelo olhar. E eu que passava ficava a invejar aquela amizade
simples e franca entre duas criaturas iguais, que só diferiam no
tamanho.
Tanto de manhã cedo, como à tarde, ele ia sempre acompanhado por uma
mulher. Ela não devia ter mais de 55 anos, mas algumas rugas vincadas no
rosto amarelado, o ar atarefado, o cabelo grisalho à Beatriz Costa meio
desalinhado e os dentes cansados faziam-na parecer muito mais velha. O
que me intrigava nela - e ainda hoje me intriga - é o facto de ela andar
sempre de chinelos e de bata. Quer fosse inverno ou verão, manhã cedo
ou de tarde, ela usava sempre essa indumentária. No início pensei que
fosse empregada doméstica e fosse sempre passear o cão dos patrões antes
e depois do trabalho de casa, mas um dia em que os vi à noite a passear
fez com que a minha tese fosse por água abaixo.
Nunca falei com ela para desfazer a minha curiosidade. Como não gosto de
falar da minha vida com os vizinhos também não lhes pergunto nada para
não dar aso a que me façam perguntas sobre a minha vida.
Só por uma vez a ouvi dizer ao cão do fato vermelho: "Franjinhas, não
cheires esse pacote que isso é lixo". E ele, de orelhas pretas frisadas,
lá passou adiante do pacote de leite com chocolate que jazia na calçada
em frente ao mercado.
Andei cinco anos a ver o cão do fato vermelho e a mulher a passear sem
nunca descobrir onde moravam. Até que um dia ao final da tarde de outono
ia a contornar o meu prédio e olhei para a janela de sacada aberta no
rés-do-chão da esquina. Com o focinho de fora lá estava ele, sentado, a
apanhar o frio do sol posto com o seu fatinho vermelho. Do outro lado da
rua vinha a mulher com a sua bata e chinelos, trazendo na mão um saco
de supermercado. Afinal sempre viveram no meu prédio, por baixo de mim, e
eu nunca tinha percebido. A vida nas cidades é assim, para o bem e para
o mal.
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