-
Já pensaste em como é a vida quando chegarmos lá acima? – perguntou ela
enquanto bebericava chá de limão de uma grande chávena de porcelana
comprada
na loja dos chineses.
-
Lá acima? Quando chegarmos lá acima aonde? – respondeu ele distraidamente ao estalar
entre os dentes batatas fritas de pacote, sem descolar os olhos da
televisão.
- Ó ‘mor. Deixa lá essa série do Jogo dos Tronos que estou a falar a sério! – e, ato contínuo, agarrou o comando e desligou-a.
- Ok, já percebi. Eu depois ando para trás e vejo a série. Que conversa séria é essa então Lila?
-
Nunca imaginaste o que acontece depois de morrermos? Eu penso nisso
muitas vezes, especialmente depois de a minha mãe ter morrido. Sempre
achei que lá
em cima podia haver um paraíso, onde estás sempre descansado, onde não
há stresse, onde não precisas de necessidades básicas (comer, dormir, ir
à casa de banho) para te manteres vivo porque simplesmente já não estás
vivo. Só que desde que acordei hoje tenho
uma ideia do que se passa lá em cima que vai mais além. Não sei se foi alguma
coisa com que sonhei esta noite ou alguma coisa que já li algures, mas
não tenho conseguido afastar esta ideia do meu pensamento durante todo o
dia.
- Sim, estou a ouvir-te. Não ponhas esse ar, que eu sou capaz de comer batatas fritas ao mesmo tempo que te ouço!
- Ok, ok. Bem, como ia a dizer, desde esta manhã tenho a impressão de que quando morremos, simplesmente a vida
lá em cima é uma réplica desta, uma espécie de espelho, mas com algumas
diferenças.
Não faças essa cara, que eu explico-te melhor o que estou a dizer.
A
cena é: morres e quando morres passas um portão enorme que é aberto
automaticamente. Do outro lado está um nevoeiro assustador, mas és
empurrado lá para dentro porque atrás de ti abriu-se
um abismo. Lá em baixo podes ver a Terra, pequenina e azul, como
naquelas imagens de satélite que costumamos ver. Ao lado, a Lua, branca,
redonda e de um brilho baço. Então compreendes que tens que ir em
frente.
O portão fecha-se atrás de ti com um estrondo.
E à tua frente o nevoeiro dissipa-se e encontras simplesmente uma
espécie de réplica da Terra, onde há árvores, pássaros, sol, montanhas, e
tudo o que encontras no campo. É como se voltasses a viver de novo. É
um mundo igual a este, mas como era no início,
sem construções feitas pelo Homem, sem guerra, nem ódio, nem pobreza,
nem fome. Porque não precisas de comer, não precisas de trabalhar, não
precisas de te cansar, não há competição entre as pessoas, não há
rivalidades, nem invejas, nem qualquer coisa que
seja má. É um paraíso, um mundo de bondade, onde todos são iguais e
onde podes circular livremente – mas sempre a pé – e escolher se queres
passar o tempo na praia ou na neve, por exemplo. Há de tudo o que há cá em baixo de maravilhas naturais.
-
Que ideias mais estranhas! Mas espera aí Lila, como é que as pessoas
se vestem? E têm casas? E têm filhos? E não há batatas fritas lá?!
-
Não sejas parvo, se não comes, não precisas para nada de batatas
fritas, nem te lembras delas, porque não há prazeres desses. Nem sequer
há família, nem sexo, nem
atracção física. As pessoas fazem amigos com quem passam o
tempo ou então estão sempre a conhecer pessoas novas. Quanto ao vestuário, há uns géneros de quiosques onde podes ir
buscar roupa, tudo de graça, mas limitado a um máximo de dez peças de
roupa por pessoa, até porque guardas sempre tudo numa mochila que usas nas tuas viagens. Mas não precisas de casacos
para andar na neve, porque não tens frio. Já morreste, não tens desse
tipo de situações. Tenho a impressão de que se usa roupa mais para 'enfeitar'.
- E casas?
- Casas, casas não há. São uns pequenos edifícios
simples, onde podes ver a televisão com mais de mil canais cá de baixo em várias
línguas – e consegues compreendê-las todas, o que te
permite falar com quem quer que te cruzes lá em cima. E ainda podes ir à
net terrestre ríres-te com aquilo que os vivos vão pondo por lá, sem imaginarem
como é aquilo lá em cima.
-
Lá em cima, lá em cima. Mas, ó Lila, o lá em cima não tem nome?
Chama-se paraíso ou não? E toda a gente vai para o paraíso, mesmo os
maus? Pfff...
-
És mesmo estúpido às vezes. Estás para aí a gozar com coisas sérias.
Vou contar-te a verdade. Foi a minha mãe que me disse isto antes de
morrer, na
altura em que acordou do coma. Só que deixaram-na voltar para trás,
porque precisava de fazer umas coisas cá em baixo antes de ir lá para cima em
definitivo. E como esteve lá pouco tempo, houve coisas que não me
conseguiu explicar.
-
Isso é outra coisa que nunca percebi. E que me dá ainda mais vontade de comer batatas fritas. Por que raio há pessoas que dizem
que morreram e viram isto e aquilo, mas depois voltaram para cá e ainda
viveram, quando a maioria simplesmente morre. Ó Lila, sinceramente, ainda gozas com o Jogo
dos Tronos, mas tu é que tens andado a ver séries a mais. Tu acreditas
nisso que a tua mãe te disse quando acordou do coma? Não me leves a mal querida, mas ela ainda estava meio variada. Não
me digas que acreditas mesmo nisso que me acabaste de dizer?
- Não sei ‘mor. Pelo menos quero acreditar que um dia ainda vou encontrar um mundo perfeito. Cá em baixo ou lá em cima.
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