Já anoiteceu há muito e o frio gela-me os ossos cada vez mais. Mas as pessoas que passam por mim parecem não sentir o inverno.
Vejo bandos de adolescentes, inconscientes imberbes, que procuram umas horas de alegria e prazer entre uns charros e umas cervejas. Vejo casais de velhos de mão dada a partilhar um saco de supermercado e um bilhete de autocarro. Vejo famílias encasacadas a olhar pasmadas para as montras da avenida. E vejo muita gente sentada no quiosque a comer bolo de chocolate.
Só eu é que não como há horas. Só eu é que não tenho casaco quente para me agasalhar. Só eu é que não tenho uma família ou sequer uma velha para partilhar a minha desgraça.
Sou velho, pobre, esfarrapado e desconsolado. Sentado entre os meus cartões no passeio desta avenida chique pareço destoar de tudo. Nada tenho para oferecer à vida e ela nada tem para me dar. Já fui jovem, já fui rico, já tive família. Hoje nada tenho.
Há vinte anos um acidente tirou-me a mulher e os filhos. Fiquei inconsolável, porque senti-me culpado pela morte de quem mais amava na vida. Caí no desânimo e no álcool, comecei a deixar de trabalhar, e a minha empresa acabou por ir à falência. Tiraram-me a casa e o carro. Gastei o dinheiro que me restava para sobreviver durante uns tempos.
Acabei por vir parar à rua. E hoje gosto mesmo da Avenida da Liberdade. Ela é a minha companheira. O meu abrigo gratuito. Aqui nunca há medo e solidão. Aqui há sempre festa e companhia. Há dias em que não me apetece viver assim anestesiado como estou agora, mas não vejo alternativas.
É já meia-noite. Diz o meu velho relógio de pulso que me deu a caridade alheia. Embriagado nos meus pensamentos, nem dei pelo tempo a passar neste serão. O quiosque já fechou. Já não se vêem famílias a passear. É tempo de eu dormir. Amanhã há mais gente a passar por mim para que eu passe pelo tempo mais rapidamente.
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
sábado, 5 de abril de 2014
Dança da chuva
Com uma passada incerta e um olhar errático, ele calcorreava a rua de
uma ponta à outra. A barba longa e os olhos raiados de sangue, a roupa
envelhecida e desgastada, os sapatos rotos e largos, tudo indiciava que era
um sem-abrigo.
Dei por mim nestes pensamentos enquanto estendia uma e outra peça de roupa. Estava a anoitecer. A alegria das molas de roupa coloridas contrastavam com as cores do crepúsculo. A alegria da correria das minhas crianças entre a sala e o quarto contrastavam com o ar desolado daquele homem que vagueava pela rua.
Parece triste. Mas que direito tenho eu de invadir os seus pensamentos? Decerto não sabe onde dormir esta noite ou o que comer. Coloco-me no lugar dele e penso como será viver assim, mas a verdade é que não consigo. Ainda por cima começa a chover...
O melhor mesmo é aproveitar as coisas boas da vida, mesmo que pareçam banais.
Acabo de estender a roupa e apanho um dos meus índios que correm pela casa. Num abraço contínuo com um sorriso enorme apanho o outro índio. E até ao jantar que está no forno estar pronto não paramos de correr de uma ponta à outra do corredor, enquanto fazemos a dança da chuva, ou melhor, da simples alegria de viver.
Dei por mim nestes pensamentos enquanto estendia uma e outra peça de roupa. Estava a anoitecer. A alegria das molas de roupa coloridas contrastavam com as cores do crepúsculo. A alegria da correria das minhas crianças entre a sala e o quarto contrastavam com o ar desolado daquele homem que vagueava pela rua.
Parece triste. Mas que direito tenho eu de invadir os seus pensamentos? Decerto não sabe onde dormir esta noite ou o que comer. Coloco-me no lugar dele e penso como será viver assim, mas a verdade é que não consigo. Ainda por cima começa a chover...
O melhor mesmo é aproveitar as coisas boas da vida, mesmo que pareçam banais.
Acabo de estender a roupa e apanho um dos meus índios que correm pela casa. Num abraço contínuo com um sorriso enorme apanho o outro índio. E até ao jantar que está no forno estar pronto não paramos de correr de uma ponta à outra do corredor, enquanto fazemos a dança da chuva, ou melhor, da simples alegria de viver.
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