Desprendo as mangas que me atam os braços. Dispo as calças que me cobrem
as pernas. Atiro com os pedaços de couro que me tapam os pés. Ficam a rebolar pela duna abaixo.
Corro pela areia molhada e fecho os olhos ao sentir o vento a bater-me
no rosto e nos cabelos. Rodopio pela praia que esta manhã é só minha. A
maresia fresca enche-me o peito. É como se voltasse a ser jovem. Não
preciso de mais nada para me sentir bem. Melhor só: mergulhar nas ondas
frias que me deixam a pele eriçada.
Abro os olhos ao vir à tona e logo regressa o pensamento da minha filha.
Vim aqui para me distrair, mas é difícil. Não há dor maior neste mundo
do que perder uma filha. Ela tinha 40 anos. Deixou um menino de 12 anos.
Deixou uma vida por concretizar, planos por realizar, caminhos por
percorrer, deixou tudo por viver.
Não devia ser permitido que um filho morresse antes dos pais. Não é
natural, não é justo. Um AVC não é nome que se dê a uma morte. A falta
de idas ao médico e o excesso de trabalho são culpados, mas não deviam
ser razões suficientes para morrer.
A minha revolta salta-me do peito
de cada vez que me lembro do seu sorriso puro, que me remete para aquele
tempo em que era uma menina de sete anos com um vestido aos lacinhos
amarelos e um chapéu de palha a pedir-me para lhe descascar uma maçã
enquanto apontava para uma macieira na quinta do meu pai em Felgueiras.
Não posso aceitar que a morte a tenha roubado à minha vida.
As lágrimas que me escorrem pelo pescoço misturam-se com a água salgada
que boia à minha volta. Quem me dera ser como esta espuma branca e não
sentir nada. Não ter que sentir o coração dilacerado de cada vez que
olho para o rosto amargurado do meu marido.
Sentado na sua cadeira de
rodas, agarrado ao andarilho, ou virado de lado na cama, os seus olhos
têm sempre a mesma mensagem. É um pai que não sabe mais onde há-de meter
tanta dor. E eu queria ajudá-lo mas não sei como. É também com
dificuldade que lido com a minha cruz, com este peso que me puxa para o chão de cada vez que dou um passo.
Saio da praia, pego no carro e volto para casa. Ao fundo do prédio as
vizinhas olham-me com compaixão enquanto se acotovelam a mirar-me ao
caminhar naquela direcção. De nada me serve a pena delas.
Uma decide
continuar a conversa e dizer que a receita que a outra lhe sugeria era
muito complicada. "É complicado", apontava com a sua voz fininha e impertinente. Só me apetecia dizer-lhe: "Minha
senhora, nada é complicado nesta vida. Tudo se faz, tudo tem solução.
Complicado é mesmo o que não tem remédio. Complicado é morrer aos 40 anos."
Engulo a minha vontade em seco. Atiro um bom dia às três e rodo a chave
na porta do prédio. De repente, penso que a minha filha não gostaria de me ver assim
vergada ao peso da dor. Endireito as costas, levanto a cabeça e subo as
escadas. Acabo de decidir mudar após estes penosos meses de luto. Hoje vou levar o meu marido a almoçar fora. Enquanto cá
estamos a vida é para ser vivida, já dizia o meu pai.
segunda-feira, 2 de março de 2015
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Segunda-feira
Onde vão os rostos abatidos que me rodeiam nesta lata de sardinhas a que
chamam de metro? Uns irão para a escola e para a faculdade, outros para
o trabalho. Vai tudo ensonado e bem-cheiroso. Há uma nota de tristeza
no ar. Parece que não gostam das segundas-feiras.
Para mim não há melhor dia na semana. Tudo começa à segunda-feira e todos os projectos e planos têm a esperança de serem concretizados. Tudo é possível à segunda-feira.
Gosto deste dia sobretudo porque gosto do que faço. Ser guia turística é como estar sempre de férias. A conhecer pessoas novas, a mostar-lhes a minha cidade, a passear.
Alguém um dia disse que devíamos escolher um emprego de que gostássemos e assim não teríamos que trabalhar um único dia. Acho que é isto mesmo que resume a minha vida.
Este trabalho faz-me sentir viva, com o sangue a correr nas veias. E o coração bate tão forte que quase salta do peito quando um estrangeiro meagradece pelo roteiro e elogia o meu trabalho no tempo que passámos juntos.
Por tudo isto é penoso olhar para a tristeza estampada nestes rostos que me rodeiam nesta carruagem que rola pelo escuro túnel debaixo do chão.
Não sabem o que é a felicidade de fazer o que gostamos, de nos sentirmos realizados profissionalmente. Só pode ser esse o motivo para ver tantas caras fechadas à segunda-feira e tantos rostos alegres à sexta-feira.
Eles odeiam as segundas-feiras e desejariam que a vida fosse composta apenas de fins-de-semana para os preencherem com romarias aos centros comerciais e às depressivas lojas de móveis onde almoçam almôndegas sonhando que foram viajar para a Escandinávia.
Para mim não há melhor dia na semana. Tudo começa à segunda-feira e todos os projectos e planos têm a esperança de serem concretizados. Tudo é possível à segunda-feira.
Gosto deste dia sobretudo porque gosto do que faço. Ser guia turística é como estar sempre de férias. A conhecer pessoas novas, a mostar-lhes a minha cidade, a passear.
Alguém um dia disse que devíamos escolher um emprego de que gostássemos e assim não teríamos que trabalhar um único dia. Acho que é isto mesmo que resume a minha vida.
Este trabalho faz-me sentir viva, com o sangue a correr nas veias. E o coração bate tão forte que quase salta do peito quando um estrangeiro meagradece pelo roteiro e elogia o meu trabalho no tempo que passámos juntos.
Por tudo isto é penoso olhar para a tristeza estampada nestes rostos que me rodeiam nesta carruagem que rola pelo escuro túnel debaixo do chão.
Não sabem o que é a felicidade de fazer o que gostamos, de nos sentirmos realizados profissionalmente. Só pode ser esse o motivo para ver tantas caras fechadas à segunda-feira e tantos rostos alegres à sexta-feira.
Eles odeiam as segundas-feiras e desejariam que a vida fosse composta apenas de fins-de-semana para os preencherem com romarias aos centros comerciais e às depressivas lojas de móveis onde almoçam almôndegas sonhando que foram viajar para a Escandinávia.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
A estação
Uma mulher enxuga as lágrimas com as costas da mão enrugada. Um velho
acena com a bengala na direcção de uma janela que não se abre. Uma
criança ao colo de um pai esperneia e berra, chamando pela mãe, e
apontando para o comboio que se vai afastando pelos carris fora.
Não há lugar no mundo que assista a tantas partidas e chegadas como uma estação ferroviária. Há centenas de composições a partir e a chegar por dia. Há milhares de pessoas a embarcar e a deixar outras para trás. Algumas vão embora temporariamente, outras para sempre. Há quem não volte mais àquele local.
Sou segurança desta estação há anos. No início não gostava. Fazia-me confusão tanto frenesim, tanto barulho, tanto choro, e tanta tristeza. Mas depois reparei que aqui há também alegria, há vida, há esperança num dia melhor, há a expectativa do desconhecido, há a partilha do reencontro. Nenhum sítio é tão poético e belo como este.
Foi assim que me tornei poeta. Comecei a escrever nas horas livres, inspirado pelo barulho maquinal dos carris e pelas possibilidades de viagem que na estação se abrem. Se há uns anos me dissessem eu não acreditaria que hoje venderia tantos livros. Eu que nem era assim tão bom aluno a português na escola, eu que me tornei segurança por não ter vocação para os estudos - muito menos para as letras.
Hoje sou uma pessoa nova. Se pudesse, passava toda a minha vida ali, algures entre um vagão e um terminal. Já disse à minha mulher e aos miúdos que quando morrer quero que as minhas cinzas sejam lançadas para os carris. E assim poderei para sempre assistir às emoções das partidas e chegadas, que nos dão a certeza de que o mundo continua a girar e a avançar.
Não há lugar no mundo que assista a tantas partidas e chegadas como uma estação ferroviária. Há centenas de composições a partir e a chegar por dia. Há milhares de pessoas a embarcar e a deixar outras para trás. Algumas vão embora temporariamente, outras para sempre. Há quem não volte mais àquele local.
Sou segurança desta estação há anos. No início não gostava. Fazia-me confusão tanto frenesim, tanto barulho, tanto choro, e tanta tristeza. Mas depois reparei que aqui há também alegria, há vida, há esperança num dia melhor, há a expectativa do desconhecido, há a partilha do reencontro. Nenhum sítio é tão poético e belo como este.
Foi assim que me tornei poeta. Comecei a escrever nas horas livres, inspirado pelo barulho maquinal dos carris e pelas possibilidades de viagem que na estação se abrem. Se há uns anos me dissessem eu não acreditaria que hoje venderia tantos livros. Eu que nem era assim tão bom aluno a português na escola, eu que me tornei segurança por não ter vocação para os estudos - muito menos para as letras.
Hoje sou uma pessoa nova. Se pudesse, passava toda a minha vida ali, algures entre um vagão e um terminal. Já disse à minha mulher e aos miúdos que quando morrer quero que as minhas cinzas sejam lançadas para os carris. E assim poderei para sempre assistir às emoções das partidas e chegadas, que nos dão a certeza de que o mundo continua a girar e a avançar.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
Correr por mim
O frio quer enregelar-me os ossos, mas eu não deixo.
O vento quer cortar-me a pele, mas eu não permito. São seis da manhã e eu corro
pela avenida como se não estivessem dois graus centígrados, como se não fosse
de noite. Eu é que comando a minha vida, pelo menos neste momento.
Não consegui comandar tudo. O meu marido morreu
naquele estúpido acidente de trabalho. Quem me mandou casar-me com um homem que
limpa janelas de arranha-céus? E depois ter três filhos com ele?
Metida em mim nestes pensamentos deprimentes, nem
dava pelos rostos das pessoas que passam por mim. Vão apressadas para o
autocarro e para o metro, a caminho do trabalho provavelmente. Olham-me como se
de uma extraterrestre se tratasse. Devem estar a pensar que sou doida por
correr a esta hora da manhã.
Mal sabem que é a única hora do dia que é minha e só
minha. Os miúdos estão a dormir ainda. A esta altura não tenho que ser mãe, não
tenho que ser dona de casa, não tenho que ser empregada de mesa de restaurante.
Só tenho que ser eu e usar o tempo da maneira que quero.
Comecei a correr a esta hora numa madrugada em que não
consegui dormir. Foi quando fazia dez anos de casada. O primeiro aniversário
sem o meu marido. Depois de vinte anos de vida partilhada, metade de mim morreu
e deixou-me três pequenos pedaços dela para eu criar. Senti-me abandonada, mas
tinha que continuar a viver por eles. E por ele. Pelo meu amor. Mas também por
mim.
Depois dessa noite em claro, senti que tinha que viver
por mim. Que procurar atividades que eu gostasse de fazer. E recordei-me como
gostava de correr. Da minha infância e juventude passadas a fazer atletismo,
uma paixão que abandonei para começar a trabalhar e a ter a minha independência
financeira.
Levantei-me então da cama, vesti-me, vi que os meus anjinhos
estavam a dormir, e saí de casa para correr. Eram cinco e meia da manhã.
A partir dessa madrugada passei a correr sempre por
volta da mesma hora. É a minha liberdade e a minha libertação. É quando só
penso em mim e ninguém me consegue roubar os meus pensamentos. O tempo é só
meu. Sou só a Mafalda. Eu, eu, eu. A mulher que pensa, quer, tem desejos e
sonhos, mesmo que pareçam distantes.
Quando dou por mim estou com um sorriso de orelha a
orelha. E os rostos que me olham a caminho dos transportes públicos têm estampada
a estranheza de quem não compreende como se pode correr a esta hora da manhã e
ainda por cima sorrir.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Falar
Às vezes penso que gostava de poder falar com as pessoas. Acho que seria muito mais útil e sentia-me mais realizada. Quem sabe até poder tocar nas pessoas, tagarelar e rir-me com elas.
Por exemplo, neste momento há duas mulheres de cerca de 70 anos a olharem especadas para mim. Entreolham-se e discutem sobre a minha utilidade.
Uma diz que eu sou uma cabine para as pessoas se sentarem a verem-se ao espelho ou a maquilharem-se. A outra refuta a tese. Aponta para as imagens estampadas nas minhas paredes coloridas e argumenta que eu sou uma máquina de tirar fotografias. Quem me dera poder dizer-lhe que ela tem razão e agarrá-la no braço, mostrando-lhe como funciono.
Uma apercebe-se que há instruções do lado de dentro, mas pelos vistos nenhuma das duas sabe ler. Decidem interpelar uma rapariga que está a subir as escadas rolantes do metro e perguntam-lhe que máquina é esta.
Do alto do seu metro e oitenta, dos saltos agulha e da saia lápis, ela olha para as velhotas vestidas de viúva e agarradas às malas com ar cossaco e triste.
A rapariga solta uma gargalhada que deixa as duas com um ar indignado. Ainda assim, põe um ar sério de seguida e explica-lhes que eu sou uma máquina de tirar fotografias e mostra-lhes como funciono.
Acabam por tirar várias fotografias. Uma de cada vez, duas a duas e até as três juntas. Tiram fotos até se fartar.
Saem daqui entre risadas a apontar para as fotos e a decidir a quem as vão oferecer. Vão as três beber um chá à pastelaria da esquina. E eu aqui continuo presa na minha solidão, sem poder falar nem beber chá alguma vez na minha vida. Vida de máquina.
Por exemplo, neste momento há duas mulheres de cerca de 70 anos a olharem especadas para mim. Entreolham-se e discutem sobre a minha utilidade.
Uma diz que eu sou uma cabine para as pessoas se sentarem a verem-se ao espelho ou a maquilharem-se. A outra refuta a tese. Aponta para as imagens estampadas nas minhas paredes coloridas e argumenta que eu sou uma máquina de tirar fotografias. Quem me dera poder dizer-lhe que ela tem razão e agarrá-la no braço, mostrando-lhe como funciono.
Uma apercebe-se que há instruções do lado de dentro, mas pelos vistos nenhuma das duas sabe ler. Decidem interpelar uma rapariga que está a subir as escadas rolantes do metro e perguntam-lhe que máquina é esta.
Do alto do seu metro e oitenta, dos saltos agulha e da saia lápis, ela olha para as velhotas vestidas de viúva e agarradas às malas com ar cossaco e triste.
A rapariga solta uma gargalhada que deixa as duas com um ar indignado. Ainda assim, põe um ar sério de seguida e explica-lhes que eu sou uma máquina de tirar fotografias e mostra-lhes como funciono.
Acabam por tirar várias fotografias. Uma de cada vez, duas a duas e até as três juntas. Tiram fotos até se fartar.
Saem daqui entre risadas a apontar para as fotos e a decidir a quem as vão oferecer. Vão as três beber um chá à pastelaria da esquina. E eu aqui continuo presa na minha solidão, sem poder falar nem beber chá alguma vez na minha vida. Vida de máquina.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Avenida da Liberdade
Já anoiteceu há muito e o frio gela-me os ossos cada vez mais. Mas as pessoas que passam por mim parecem não sentir o inverno.
Vejo bandos de adolescentes, inconscientes imberbes, que procuram umas horas de alegria e prazer entre uns charros e umas cervejas. Vejo casais de velhos de mão dada a partilhar um saco de supermercado e um bilhete de autocarro. Vejo famílias encasacadas a olhar pasmadas para as montras da avenida. E vejo muita gente sentada no quiosque a comer bolo de chocolate.
Só eu é que não como há horas. Só eu é que não tenho casaco quente para me agasalhar. Só eu é que não tenho uma família ou sequer uma velha para partilhar a minha desgraça.
Sou velho, pobre, esfarrapado e desconsolado. Sentado entre os meus cartões no passeio desta avenida chique pareço destoar de tudo. Nada tenho para oferecer à vida e ela nada tem para me dar. Já fui jovem, já fui rico, já tive família. Hoje nada tenho.
Há vinte anos um acidente tirou-me a mulher e os filhos. Fiquei inconsolável, porque senti-me culpado pela morte de quem mais amava na vida. Caí no desânimo e no álcool, comecei a deixar de trabalhar, e a minha empresa acabou por ir à falência. Tiraram-me a casa e o carro. Gastei o dinheiro que me restava para sobreviver durante uns tempos.
Acabei por vir parar à rua. E hoje gosto mesmo da Avenida da Liberdade. Ela é a minha companheira. O meu abrigo gratuito. Aqui nunca há medo e solidão. Aqui há sempre festa e companhia. Há dias em que não me apetece viver assim anestesiado como estou agora, mas não vejo alternativas.
É já meia-noite. Diz o meu velho relógio de pulso que me deu a caridade alheia. Embriagado nos meus pensamentos, nem dei pelo tempo a passar neste serão. O quiosque já fechou. Já não se vêem famílias a passear. É tempo de eu dormir. Amanhã há mais gente a passar por mim para que eu passe pelo tempo mais rapidamente.
Vejo bandos de adolescentes, inconscientes imberbes, que procuram umas horas de alegria e prazer entre uns charros e umas cervejas. Vejo casais de velhos de mão dada a partilhar um saco de supermercado e um bilhete de autocarro. Vejo famílias encasacadas a olhar pasmadas para as montras da avenida. E vejo muita gente sentada no quiosque a comer bolo de chocolate.
Só eu é que não como há horas. Só eu é que não tenho casaco quente para me agasalhar. Só eu é que não tenho uma família ou sequer uma velha para partilhar a minha desgraça.
Sou velho, pobre, esfarrapado e desconsolado. Sentado entre os meus cartões no passeio desta avenida chique pareço destoar de tudo. Nada tenho para oferecer à vida e ela nada tem para me dar. Já fui jovem, já fui rico, já tive família. Hoje nada tenho.
Há vinte anos um acidente tirou-me a mulher e os filhos. Fiquei inconsolável, porque senti-me culpado pela morte de quem mais amava na vida. Caí no desânimo e no álcool, comecei a deixar de trabalhar, e a minha empresa acabou por ir à falência. Tiraram-me a casa e o carro. Gastei o dinheiro que me restava para sobreviver durante uns tempos.
Acabei por vir parar à rua. E hoje gosto mesmo da Avenida da Liberdade. Ela é a minha companheira. O meu abrigo gratuito. Aqui nunca há medo e solidão. Aqui há sempre festa e companhia. Há dias em que não me apetece viver assim anestesiado como estou agora, mas não vejo alternativas.
É já meia-noite. Diz o meu velho relógio de pulso que me deu a caridade alheia. Embriagado nos meus pensamentos, nem dei pelo tempo a passar neste serão. O quiosque já fechou. Já não se vêem famílias a passear. É tempo de eu dormir. Amanhã há mais gente a passar por mim para que eu passe pelo tempo mais rapidamente.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Cérebro de plástica
As minhas mãos estão cobertas de ligaduras. Não vejo a pele que cobre os
meus dedos. Não vejo as minhas unhas. O meu corpo arde de dores.
Adormeço e quando acordo já não sinto nada. A médica que me operou manda-me para casa. Anestesiada. Mas nunca mandaram olhar-me ao espelho.
Uma operação plástica não é fácil minha querida, disse uma enfermeira com ar condescendente. Quando o meu marido me veio buscar fez um ar de compaixão. Agora que vamos no elevador e vejo a minha figura percebo porquê.
Pareço uma múmia. Só não tenho medo que ele me deixe agora porque sei que ele está focado no resultado final. Mas a minha cabeça só me pergunta por que raio fui eu concordar em fazer esta operação!
Este é o meu quarto marido. É o mais bonito de todos e mais inteligente do que os outros que morreram. É tão jovem como os meus netos. E tenho medo que ele me deixe a envelhecer na minha solidão.
Eu tinha que voltar a ser jovem e a ter uma pele bonita para o poder segurar e competir com essas escanzeladas que andam por aí a passear os corpos desnudos. Eu passo cinco horas por dia no ginásio e todas as refeições que as minhas empregadas preparam têm apenas as calorias suficientes para eu viver.
Mas agora que me submeti a estas dores e ao choque de me ver transformada numa múmia - e isto ainda agora começou porque a recuperação é longa - penso que a minha vida está toda errada.
Será que eu não seria mais feliz com um velho como eu - porque é isso que eu sou por mais que não queira aceitar -, será que um homem barrigudo e peludo não traria mais paz à minha vida?
Acabava-se a contagem de calorias, acabava-se o ginásio, acabavam-se as operações plásticas, acabavam-se os ciúmes que me consomem de cada vez que ele olha para o rabo da empregada de nariz empinado que um dia destes ainda hei-de despedir quando os encontrar juntos na cama.
Quem quero eu enganar com esta vida de aparências? Já sei, engano-me a mim, primeiro do que tudo. Vou tomar um comprimido para dormir. Ou melhor, a caixa toda.
...
Abro os olhos e vejo tudo branco. Estou de novo no hospital. Sinto-me anestesiada. Não sei por que estou aqui. A porta do quarto entreabre-se para aparecer uma enfermeira com ar de travesti a dar-me um sermão.
Já percebi. Ia morrendo, mas não morri, pois não? Era o que me apetecia gritar, mas fico em silêncio. Enfermeira bruta, já te calavas e deixavas-me em paz. Enganei-me nos comprimidos, foi só isso.
Ah, dizes que já posso tirar as ligaduras da plástica até. Está bem, mas não quero ver o espelho. E também não quero que avisem a minha família que acordei. Está tudo bem. Quero ir para casa e vou sozinha.
Umas horas depois apanho toda a gente distraída no hospital e vou-me embora.
Entro no elevador do hospital e esqueço-me de que tem um espelho. Dou um salto. Quase desmaio a olhar para o meu rosto. Quem é esta? Não sou eu, não me reconheço.
Nem quando tinha 18 anos era assim. Esta não é a minha cara. Quero as minhas rugas de volta. Entro em desespero. Não há pior abismo interior do que olhar para o espelho e ver devolvida a imagem de alguém que não conhecemos. É como se ficássemos sem chão e todas as certezas se tivessem desvanecido.
Começo a gritar em desespero, rasgo a roupa, as lágrimas escorrem até ao peito e queimam o meu coração. Chego ao rés-do-chão, saio do elevador a correr e atravesso a estrada. Só tenho pena de estragar a vida àquele condutor que me vai atropelar mas tem que ser. Neste momento não vejo outra saída para o labirinto em que estou.
Adeus mundo que me fizeste assim.
Adormeço e quando acordo já não sinto nada. A médica que me operou manda-me para casa. Anestesiada. Mas nunca mandaram olhar-me ao espelho.
Uma operação plástica não é fácil minha querida, disse uma enfermeira com ar condescendente. Quando o meu marido me veio buscar fez um ar de compaixão. Agora que vamos no elevador e vejo a minha figura percebo porquê.
Pareço uma múmia. Só não tenho medo que ele me deixe agora porque sei que ele está focado no resultado final. Mas a minha cabeça só me pergunta por que raio fui eu concordar em fazer esta operação!
Este é o meu quarto marido. É o mais bonito de todos e mais inteligente do que os outros que morreram. É tão jovem como os meus netos. E tenho medo que ele me deixe a envelhecer na minha solidão.
Eu tinha que voltar a ser jovem e a ter uma pele bonita para o poder segurar e competir com essas escanzeladas que andam por aí a passear os corpos desnudos. Eu passo cinco horas por dia no ginásio e todas as refeições que as minhas empregadas preparam têm apenas as calorias suficientes para eu viver.
Mas agora que me submeti a estas dores e ao choque de me ver transformada numa múmia - e isto ainda agora começou porque a recuperação é longa - penso que a minha vida está toda errada.
Será que eu não seria mais feliz com um velho como eu - porque é isso que eu sou por mais que não queira aceitar -, será que um homem barrigudo e peludo não traria mais paz à minha vida?
Acabava-se a contagem de calorias, acabava-se o ginásio, acabavam-se as operações plásticas, acabavam-se os ciúmes que me consomem de cada vez que ele olha para o rabo da empregada de nariz empinado que um dia destes ainda hei-de despedir quando os encontrar juntos na cama.
Quem quero eu enganar com esta vida de aparências? Já sei, engano-me a mim, primeiro do que tudo. Vou tomar um comprimido para dormir. Ou melhor, a caixa toda.
...
Abro os olhos e vejo tudo branco. Estou de novo no hospital. Sinto-me anestesiada. Não sei por que estou aqui. A porta do quarto entreabre-se para aparecer uma enfermeira com ar de travesti a dar-me um sermão.
Já percebi. Ia morrendo, mas não morri, pois não? Era o que me apetecia gritar, mas fico em silêncio. Enfermeira bruta, já te calavas e deixavas-me em paz. Enganei-me nos comprimidos, foi só isso.
Ah, dizes que já posso tirar as ligaduras da plástica até. Está bem, mas não quero ver o espelho. E também não quero que avisem a minha família que acordei. Está tudo bem. Quero ir para casa e vou sozinha.
Umas horas depois apanho toda a gente distraída no hospital e vou-me embora.
Entro no elevador do hospital e esqueço-me de que tem um espelho. Dou um salto. Quase desmaio a olhar para o meu rosto. Quem é esta? Não sou eu, não me reconheço.
Nem quando tinha 18 anos era assim. Esta não é a minha cara. Quero as minhas rugas de volta. Entro em desespero. Não há pior abismo interior do que olhar para o espelho e ver devolvida a imagem de alguém que não conhecemos. É como se ficássemos sem chão e todas as certezas se tivessem desvanecido.
Começo a gritar em desespero, rasgo a roupa, as lágrimas escorrem até ao peito e queimam o meu coração. Chego ao rés-do-chão, saio do elevador a correr e atravesso a estrada. Só tenho pena de estragar a vida àquele condutor que me vai atropelar mas tem que ser. Neste momento não vejo outra saída para o labirinto em que estou.
Adeus mundo que me fizeste assim.
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