segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Correr por mim



O frio quer enregelar-me os ossos, mas eu não deixo. O vento quer cortar-me a pele, mas eu não permito. São seis da manhã e eu corro pela avenida como se não estivessem dois graus centígrados, como se não fosse de noite. Eu é que comando a minha vida, pelo menos neste momento.


Não consegui comandar tudo. O meu marido morreu naquele estúpido acidente de trabalho. Quem me mandou casar-me com um homem que limpa janelas de arranha-céus? E depois ter três filhos com ele?


Metida em mim nestes pensamentos deprimentes, nem dava pelos rostos das pessoas que passam por mim. Vão apressadas para o autocarro e para o metro, a caminho do trabalho provavelmente. Olham-me como se de uma extraterrestre se tratasse. Devem estar a pensar que sou doida por correr a esta hora da manhã.


Mal sabem que é a única hora do dia que é minha e só minha. Os miúdos estão a dormir ainda. A esta altura não tenho que ser mãe, não tenho que ser dona de casa, não tenho que ser empregada de mesa de restaurante. Só tenho que ser eu e usar o tempo da maneira que quero.


Comecei a correr a esta hora numa madrugada em que não consegui dormir. Foi quando fazia dez anos de casada. O primeiro aniversário sem o meu marido. Depois de vinte anos de vida partilhada, metade de mim morreu e deixou-me três pequenos pedaços dela para eu criar. Senti-me abandonada, mas tinha que continuar a viver por eles. E por ele. Pelo meu amor. Mas também por mim.


Depois dessa noite em claro, senti que tinha que viver por mim. Que procurar atividades que eu gostasse de fazer. E recordei-me como gostava de correr. Da minha infância e juventude passadas a fazer atletismo, uma paixão que abandonei para começar a trabalhar e a ter a minha independência financeira. 

Levantei-me então da cama, vesti-me, vi que os meus anjinhos estavam a dormir, e saí de casa para correr. Eram cinco e meia da manhã. 


A partir dessa madrugada passei a correr sempre por volta da mesma hora. É a minha liberdade e a minha libertação. É quando só penso em mim e ninguém me consegue roubar os meus pensamentos. O tempo é só meu. Sou só a Mafalda. Eu, eu, eu. A mulher que pensa, quer, tem desejos e sonhos, mesmo que pareçam distantes. 


Quando dou por mim estou com um sorriso de orelha a orelha. E os rostos que me olham a caminho dos transportes públicos têm estampada a estranheza de quem não compreende como se pode correr a esta hora da manhã e ainda por cima sorrir.

Sem comentários:

Enviar um comentário