O frio quer enregelar-me os ossos, mas eu não deixo.
O vento quer cortar-me a pele, mas eu não permito. São seis da manhã e eu corro
pela avenida como se não estivessem dois graus centígrados, como se não fosse
de noite. Eu é que comando a minha vida, pelo menos neste momento.
Não consegui comandar tudo. O meu marido morreu
naquele estúpido acidente de trabalho. Quem me mandou casar-me com um homem que
limpa janelas de arranha-céus? E depois ter três filhos com ele?
Metida em mim nestes pensamentos deprimentes, nem
dava pelos rostos das pessoas que passam por mim. Vão apressadas para o
autocarro e para o metro, a caminho do trabalho provavelmente. Olham-me como se
de uma extraterrestre se tratasse. Devem estar a pensar que sou doida por
correr a esta hora da manhã.
Mal sabem que é a única hora do dia que é minha e só
minha. Os miúdos estão a dormir ainda. A esta altura não tenho que ser mãe, não
tenho que ser dona de casa, não tenho que ser empregada de mesa de restaurante.
Só tenho que ser eu e usar o tempo da maneira que quero.
Comecei a correr a esta hora numa madrugada em que não
consegui dormir. Foi quando fazia dez anos de casada. O primeiro aniversário
sem o meu marido. Depois de vinte anos de vida partilhada, metade de mim morreu
e deixou-me três pequenos pedaços dela para eu criar. Senti-me abandonada, mas
tinha que continuar a viver por eles. E por ele. Pelo meu amor. Mas também por
mim.
Depois dessa noite em claro, senti que tinha que viver
por mim. Que procurar atividades que eu gostasse de fazer. E recordei-me como
gostava de correr. Da minha infância e juventude passadas a fazer atletismo,
uma paixão que abandonei para começar a trabalhar e a ter a minha independência
financeira.
Levantei-me então da cama, vesti-me, vi que os meus anjinhos
estavam a dormir, e saí de casa para correr. Eram cinco e meia da manhã.
A partir dessa madrugada passei a correr sempre por
volta da mesma hora. É a minha liberdade e a minha libertação. É quando só
penso em mim e ninguém me consegue roubar os meus pensamentos. O tempo é só
meu. Sou só a Mafalda. Eu, eu, eu. A mulher que pensa, quer, tem desejos e
sonhos, mesmo que pareçam distantes.
Quando dou por mim estou com um sorriso de orelha a
orelha. E os rostos que me olham a caminho dos transportes públicos têm estampada
a estranheza de quem não compreende como se pode correr a esta hora da manhã e
ainda por cima sorrir.
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