Às vezes penso que gostava de poder falar com as pessoas. Acho que seria muito mais útil e sentia-me mais realizada. Quem sabe até poder tocar nas pessoas, tagarelar e rir-me com elas.
Por exemplo, neste momento há duas mulheres de cerca de 70 anos a
olharem especadas para mim. Entreolham-se e discutem sobre a minha
utilidade.
Uma diz que eu sou uma cabine para as pessoas se sentarem a
verem-se ao espelho ou a maquilharem-se. A outra refuta a tese. Aponta
para as imagens estampadas nas minhas paredes coloridas e argumenta que
eu sou uma máquina de tirar fotografias. Quem me dera poder dizer-lhe
que ela tem razão e agarrá-la no braço, mostrando-lhe como funciono.
Uma apercebe-se que há instruções do lado de dentro, mas pelos vistos
nenhuma das duas sabe ler. Decidem interpelar uma rapariga que está a
subir as escadas rolantes do metro e perguntam-lhe que máquina é esta.
Do alto do seu metro e oitenta, dos saltos agulha e da saia lápis, ela olha para as velhotas vestidas de viúva e agarradas às malas com ar cossaco e triste.
A rapariga solta uma gargalhada que deixa as duas com um ar indignado. Ainda
assim, põe um ar sério de seguida e explica-lhes que eu sou uma máquina de tirar
fotografias e mostra-lhes como funciono.
Acabam por tirar várias
fotografias. Uma de cada vez, duas a duas e até as três juntas. Tiram
fotos até se fartar.
Saem daqui entre risadas a apontar para as fotos e a
decidir a quem as vão oferecer. Vão as três beber um chá à pastelaria
da esquina. E eu aqui continuo presa na minha solidão, sem poder falar
nem beber chá alguma vez na minha vida. Vida de máquina.
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