segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Falar

Às vezes penso que gostava de poder falar com as pessoas. Acho que seria muito mais útil e sentia-me mais realizada. Quem sabe até poder tocar nas pessoas, tagarelar e rir-me com elas.

Por exemplo, neste momento há duas mulheres de cerca de 70 anos a olharem especadas para mim. Entreolham-se e discutem sobre a minha utilidade. 


Uma diz que eu sou uma cabine para as pessoas se sentarem a verem-se ao espelho ou a maquilharem-se. A outra refuta a tese. Aponta para as imagens estampadas nas minhas paredes coloridas e argumenta que eu sou uma máquina de tirar fotografias. Quem me dera poder dizer-lhe que ela tem razão e agarrá-la no braço, mostrando-lhe como funciono.

Uma apercebe-se que há instruções do lado de dentro, mas pelos vistos nenhuma das duas sabe ler. Decidem interpelar uma rapariga que está a subir as escadas rolantes do metro e perguntam-lhe que máquina é esta. 


Do alto do seu metro e oitenta, dos saltos agulha e da saia lápis, ela olha para as velhotas vestidas de viúva e agarradas às malas com ar cossaco e triste.

A rapariga solta uma gargalhada que deixa as duas com um ar indignado. Ainda assim, põe um ar sério de seguida e explica-lhes que eu sou uma máquina de tirar fotografias e mostra-lhes como funciono. 

Acabam por tirar várias fotografias. Uma de cada vez, duas a duas e até as três juntas. Tiram fotos até se fartar. 

Saem daqui entre risadas a apontar para as fotos e a decidir a quem as vão oferecer. Vão as três beber um chá à pastelaria da esquina. E eu aqui continuo presa na minha solidão, sem poder falar nem beber chá alguma vez na minha vida. Vida de máquina.

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