segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A estação

Uma mulher enxuga as lágrimas com as costas da mão enrugada. Um velho acena com a bengala na direcção de uma janela que não se abre. Uma criança ao colo de um pai esperneia e berra, chamando pela mãe, e apontando para o comboio que se vai afastando pelos carris fora.

Não há lugar no mundo que assista a tantas partidas e chegadas como uma estação ferroviária. Há centenas de composições a partir e a chegar por dia. Há milhares de pessoas a embarcar e a deixar outras para trás. Algumas vão embora temporariamente, outras para sempre. Há quem não volte mais àquele local.


Sou segurança desta estação há anos. No início não gostava. Fazia-me confusão tanto frenesim, tanto barulho, tanto choro, e tanta tristeza. Mas depois reparei que aqui há também alegria, há vida, há esperança num dia melhor, há a expectativa do desconhecido, há a partilha do reencontro. Nenhum sítio é tão poético e belo como este.


Foi assim que me tornei poeta. Comecei a escrever nas horas livres, inspirado pelo barulho maquinal dos carris e pelas possibilidades de viagem que na estação se abrem. Se há uns anos me dissessem eu não acreditaria que hoje venderia tantos livros. Eu que nem era assim tão bom aluno a português na escola, eu que me tornei segurança por não ter vocação para os estudos - muito menos para as letras.


Hoje sou uma pessoa nova. Se pudesse, passava toda a minha vida ali, algures entre um vagão e um terminal. Já disse à minha mulher e aos miúdos que quando morrer quero que as minhas cinzas sejam lançadas para os carris. E assim poderei para sempre assistir às emoções das partidas e chegadas, que nos dão a certeza de que o mundo continua a girar e a avançar.

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