segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Enquanto esperamos

Na paragem de autocarro no centro da cidade só se viam caras fechadas. Pessoas cansadas ao fim de mais um dia de trabalho, pensando nos seus problemas ou apenas organizando mentalmente o que teriam ainda para fazer quando chegassem a casa. Havia mesmo quem estivesse com vontade de chorar por não ter nada para comer em casa, excepto bolachas. E o fim do mês que nunca mais chega, lamentava.

Foi nessa altura que chegou um casal que destoava entre os rostos abatidos. Um homem e uma mulher de mãos dadas, com um sorriso de orelha a orelha. Deviam ter mais de 70 anos. Ela trazia na mão um saco de supermercado com pouca coisa dentro. Ele trazia na mão uma pequena pasta. Os olhos de ambos irradiavam felicidade.


- Que sorriso parvo, só podem estar apaixonados - pensava a adolescente que olhava com estranheza para o casal que roubava as atenções de todos.


A mulher que só tinha bolachas em casa mordia os lábios a olhar para a felicidade de quem tem alguém para partilhar a vida - e de quem tem dinheiro para ir ao supermercado.


O homem de meia-idade encostado ao canto da paragem de autocarro acreditava que deveriam ter fugido do manicómio. Ninguém pode ser feliz assim, muito menos nesta altura da vida e com a crise que para aí vai no país, matutava. Ou então o velho anda a meter os palitos à mulher com esta velha, só pode.


Na outra ponta da paragem o rapaz que saíra há pouco do trabalho - e ainda tinha no braço marcas de óleo da oficina - olhava demoradamente para as pobres roupas do casal idoso. Estranhava que gente pobre sorrisse daquela maneira. Quem conta os trocos de uma parca reforma não pode ser feliz, não tem razões para sorrir assim, estava convencido.


O que toda a gente ignorava naquela paragem de autocarro e nunca chegou a saber foi o verdadeiro motivo da felicidade daqueles septuagenários que agora entravam no eléctrico rumo a casa. Acabavam de sair do hospital onde lhes foi dito que a mulher estava curada do cancro. O pesadelo acabara finalmente. Só havia motivos para sorrir.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Rapto

Os ponteiros indicavam cinco e meia da tarde. Ao ver as horas, os grandes olhos negros espelhavam preocupação. A testa sulcada mostrava que o passar dos anos tinha deixado as suas marcas naquele rosto pálido. O corpo franzino abanava-se com a inquietação de quem está pressionado pelo tempo. As mãos ossudas - que não condiziam com o resto do seu dono pela dimensão desmesurada que tinham - pegaram no telemóvel preto que estava no bolso das calças de ganga.

- Estou? Aqui Alfa, escuto. - sussurrou o homem. Do outro lado terá vindo uma resposta que o levou a prosseguir a conversa noutro tom e em voz alta.


- Como é? Esse resgate demora muito ou faz serão? Já estamos a ficar atrasados. O plano está feito ao pormenor. Não pode haver deslizes, muito menos de tempo. Toca a pressionar. - gritou, para de seguida prosseguir com segurança.


- Aqui está tudo calmo. A presa está aqui quietinha à minha frente como uma linda menina que é! - exclamou ao mesmo tempo que soltava uma gargalhada sonora.


Desligando o aparelho rectangular fez menção de o devolver ao bolso, mas, arrependendo-se, apontou-o ao rosto assustado da rapariga que tinha à frente.


Não teria mais de vinte anos. A pele clara e lisa era apenas pontuada por algumas manchas encarnadas nas maçãs do rosto. Os lábios apertavam uma tira de pano que a impedia de abrir a boca. O cabelo em desalinho era comprido e ruivo. Os caracóis caiam pelo peito e costas. O corpo magro mal era escondido por um fato de ballet branco um pouco rasgado e praticamente todo sujo de terra e manchas de óleo de carros. As sapatilhas estavam imundas, quase da cor do barro.


- Queres comer, bailarina? - perguntou a besta, apontando para uma tigela que enchia com comida de lata para cão. - Não comes tu, há mais quem coma. Vilão, cão mau, anda ao dono.


Logo veio a correr um canídeo de grande porte com as orelhas pontiagudas e escuras no ar. A cauda curta abanava de satisfação ao mesmo tempo que abria a boca pondo a língua de fora e mostrando os enormes dentes amarelados e afiados. Ao ver o Vilão a correr na sua direcção a rapariga encolheu-se no chão, no seu canto junto a um carro velho. Mas o cão foi direitinho ao coxo cheio. A rapariga suspirou de alívio, o que levou a mais uma gargalhada estridente do raptor.


- Pois é minha querida. Nunca sonhaste tu que um dia ias estar à minha mercê nesta situação. Eu que era teu vizinho, mas que sempre sonhou vir a ser teu namorado e mais tarde marido. Desde o tempo da escola que eu te desejava para mim. E quando te via dançar no palco repetia mentalmente que um dia ias ser minha. Como foste nestes últimos dias - acrescentou, enquanto passeava os dedos pelo peito da rapariga assustada. Após uma pequena pausa, continuou num tom rancoroso.


- Mas tu nunca me ligaste e ainda por cima anunciaste que vais casar com o banana do maestrozinho. Por isso este meu plano de te raptar e ainda pedir um resgate milionário que o teu querido noivo deve estar prestes a pagar. Quando ele te vir de novo já eu vou estar muito longe e rico. Vou viver uma vida à grande, deixando tudo para trás. A minha família, a minha velha mãe, nunca vai acreditar que eu te raptei. Ela pensa que eu fui trabalhar para Inglaterra há um mês. Mas olha princesa - acrescentou, fazendo uma longa pausa - se quiseres vir ser feliz comigo noutra vida, se estes belos dias comigo te fizeram mudar de ideias, ainda estás a tempo. Agarramos no dinheiro do resgate e voamos para bem longe. Que me dizes? Tens uns cinco minutos para pensar - exclamou, passando a mão suja ao longo do corpo frágil. A reacção dela foi um esgar de repulsa.

No momento em que o raptor se preparava para voltar a vestir o papel de violador e já estava com as cuecas aos pés ouviu-se um estrondo do lado da entrada do armazém. O portão estava a abrir-se e ele, que estava de costas e entretido na sua fantasia, nem deu por nada. Quando finalmente ouviu passos de corrida e começou a procurar a arma pelo chão já estava cercado. Estava rodeado de agentes da polícia de rosto tapado que o tinham observado através das pequenas janelas há longos minutos sem ele saber. Facilmente o agarraram e terminaram a operação de resgate da vítima com sucesso.


Depois de vários meses em prisão preventiva o tribunal ditou que vivesse por uns bons anos atrás das grades. E hoje é num pequeno televisor da cadeia que acompanha a carreira da famosa bailarina, sonhando todas as noites com o regresso àquela pele aveludada e àquele cabelo macio.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Tenda

A noite escura era alumiada por um pequeno ponto branco. Não havia luar, não havia luz eléctrica à vista, não havia lanternas. Só uma estrela solitária no céu brilhava. Parecia um cenário romântico: estávamos acampados no meio do campo, com os grilos por companhia. Só nós os dois e mais ninguém no mundo. Mas eu já estou velha demais para 'romantiquices'.

Cheia de frio, com dores nos ossos, dificuldade em dormir em cima daquele chão de pedra, tinha vontade de beber o meu leite quente, queria ver televisão antes de adormecer, e até tinha saudades da minha sanita... Não podia estar mais a detestar o cenário.

Mas nada podia dizer. Só me passavam pela cabeça mil e um pensamentos. Quem me mandou apaixonar-me por um romântico incurável, um eterno sonhador, sempre com a mania que ainda podemos mudar o mundo...

Se os nossos filhos e netos sonhassem que era ali a noite romântica para comemorar o meu aniversário!

Ainda por cima não conseguia dormir só a pensar que podia a qualquer momento vir um javali pela tenda adentro. Já me imaginava a rebolar pela serra abaixo à frente de um focinho escuro e espinhoso. Já via a família de javalis à nossa volta a cozinhar-nos dentro de um caldeirão junto com umas espigas de milho.

E a seguir lembrava-me que não tinha tirado a maquilhagem, o que daria direito a mais umas quantas rugas. E que não tinha regado as plantas, nem dado comida ao peixe. Nem arrumado a cozinha antes de sair de casa.

Depois de horas em pensamentos que tais acabei por adormecer e fui apenas acordada pelos primeiros raios de sol.  Saímos da tenda e ficámos em silêncio a apreciar o cenário idílico. Os nossos braços enlaçaram-se, as nossas bocas reencontraram-se, as nossas respirações sincronizaram-se e era como se o nosso casamento de há 53 anos tivesse sido ontem.

Afinal valeu o sacrifício que tinha passado durante a noite. Se bem que gostava de ver assim um nascer do sol de novo, já disse ao meu marido que para a próxima dormimos num hotel e vamos para a serra pouco antes do nascer do dia.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Viúva

Apeteceu-me pegar-te na mão, pousar o teu telemóvel ao lado do hambúrguer e carregar num botão para tirar o som todo à nossa volta. Queria fazer parar toda a gente naquela área de restauração de centro comercial, tirá-los dali. 

É como se o resto do mundo não existisse e fossemos só nós a estar ali. E então poderíamos ficar eternamente em silêncio a olharmo-nos nos olhos, a descobrir o que está por dentro desta capa que nos cobre. Como se a partir do momento em que os teus olhos se cruzam com os meus passasse a haver um "nós" por toda a eternidade e só por isso todo o mundo parasse em suspenso.

Mas nada disso aconteceu. 

No momento a seguir olhaste para o meu marido, a meu lado, e eu olhei para a tua mulher, sentada à tua frente. E o mundo desordenou-se.

O teu bebé atirou com a colher de papa ao ar e foi cair dentro da sopa da mulher que estava sentada na mesa ao lado. A sopa saltou em várias direções e acertou na gravata e na camisa do bancário que almoçava com a mulher.

O meu filho mais novo tropeçou no boneco que trazia nos braços e espalhou-se aos pés de um adolescente, que por sua vez desequilibrou-se e deixou cair o tabuleiro de comida. Uma das fatias de piza foi atingir em cheio a cara de um velho de bengala que vinha na direcção contrária.

Com a confusão várias pessoas gritavam e gesticulavam. O meu marido, que tinha sido operado ao coração e não podia exaltar-se começou a sentir-se mal. Perguntei se alguém me podia ajudar, algum médico ou enfermeiro. Por sorte tu, tu mesmo, levantaste-te e disseste que a mulher que eu pensava que era a tua mulher -e afinal era a tua irmã - era médica. Enquanto ela tentava reanimar o meu marido tu chamaste uma ambulância. Fomos para o hospital e a tua irmã ficou com os meus filhos.

O meu marido acabou por morrer. Se não fosse a tua presença no hospital não sei como teria suportado sozinha a dor da perda.

Eu sempre amei o meu marido. Eu sempre fui fiel. Excepto no momento em que te vi naquela área de restauração de centro comercial. E é como se esse simples momento de devaneio tivesse sido tão grave que tivesse provocado a morte do meu marido. Nos últimos meses culpei-me da morte dele, mas hoje sei que era um disparate. Foi o que tinha que ser.

A partir de hoje não vou mais afastar-te, querer-te só como amigo. Hoje confesso-te que te quero como uma mulher quer um homem que ama. Porque sei que o que senti quando te vi pela primeira vez foi um presente divino. É como se estivesse prevista a morte do meu marido e Deus tivesse decidido pôr-te no meu caminho para superar a perda e seguir em frente. Dá-me a mão finalmente e vamos construir uma nova vida, o nosso mundo.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Temor de terra

Acordou sobressaltado com a sensação de que o coração lhe iria saltar pela boca. Olhou à volta, viu que estava no quarto, e concluiu que teria apenas tido um pesadelo. Mas não foi. Na verdade, foi um tremor de terra que o acordou.

O relógio marcava quatro e dez da manhã. Os primeiros raios de sol já entravam pelo quarto, o que o fez pensar que nunca se conseguiria habituar à duração dos dias nos países nórdicos. E agora nem era a altura do ano em que a claridade chega mais cedo. Depois destes primeiros pensamentos é que olhou à volta e viu os livros no chão e tudo desordenado no quarto. Sentiu então a cama a abanar novamente e deu-se conta de que era um sismo.


Agora é que não percebia nada. Um tremor de terra assim não era nada comum nos países nórdicos. Só então se lembrou que o melhor seria proteger-se, mas por mais que puxasse pela cabeça não se conseguia lembrar de nenhuma das regras básicas de segurança.


Pelo contrário, só lhe ocorria saltar pela janela. Já estava a abri-la quando raciocinou que não seria uma boa ideia saltar do 15.º andar. Voltou para dentro. Fechou a janela. 


Um novo tremor abalou o quarto. Foi pôr-se debaixo da cama bem quietinho à espera que tudo passasse. Fechou os olhos e imaginou que a mãe o abraçava, como quando em criança acordava com pesadelos e tinha medo de fantasmas. A terra não parava de tremer e o temor dele crescia.

Subitamente a maçaneta rodou e ouviu passos. Uma mulher chamou pelo seu nome. Saiu e pôs-se em pé. À sua frente estava a mãe. A mesma que tinha morrido há quase vinte anos. Ele piscou os olhos e esfregou-os sem perceber o que se passava.


- Amor, vim buscar-te para irmos para o céu. Morreste, mas não tenhas medo. A mãe está aqui para te abraçar.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Sonhos autopsiados

- Triste de quem tem sonhos e nunca os realiza. Triste de quem tem sonhos e nunca faz nada para os realizar. -atirou Manel, batendo a mão no tampo da mesa onde jazia um corpo pálido.

- Mas tu acreditas mesmo nisso? Achas que o Heitor fez bem em concretizar o sonho dele e passar os meses seguintes com fome? - questionou Alice com o sobrolho franzido e a serra na mão direita.


- O Heitor tinha o sonho de ter um Ferrari amarelo. Que mal tem conduzir um carrão quando se tem a barriga vazia? O que conta são as aparências! Pensas que ele teve poucas namoradas à custa do carro, Alice?


- Disso até nem duvido, Manel. Mas só o facto de ter de viver em casa dos pais depois dos 40 anos só para poder juntar dinheiro para comprar o carro... E depois fazer um empréstimo para pagar o restante e ficar à míngua quando os pais morreram no desastre de avião. Não me convences de que ele era feliz.


- Minha querida, pelo menos seria feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo.


- Seria talvez, meu querido - atirou Alice num tom irónico. Mas essa é unicamente uma felicidade vã, que se esvai à medida que o objeto da nossa felicidade se afasta de nós e deixa de ser uma fonte inesgotável de prazer imediato.


- Sim, senhor. Estamos muito filosóficos hoje. Então diz-me lá, cara colega, se achas que há felicidade eterna, perene.


- Certamente que não se pode ser feliz 24 horas por dia, 365 dias por ano, mas pode ser-se feliz tendo aquela felicidade que se mistura com a tranquiilidade e a segurança de quem está em paz consigo próprio, com os outros à sua volta e com o mundo.


- Então concordas afinal que o Heitor era feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo?


- Em parte sim. Até admito que fosse feliz quando o conduzia a uma velocidade estonteante e se despistou na auto-estrada. Apesar de estar na miséria, ainda teve dinheiro para derreter em gasolina e se matar a si próprio. Manel, acredito piamente que o Heitor era feliz no momento em que morreu, apenas porque cumpria o seu grande sonho.


- Sabes Alice, estou é a ficar atrasado. A seguir tenho que ir dar uma aula de Medicina Legal ali na faculdade. Mas quando morrermos podemos esclarecer tudo isto. O que é certo é que a autópsia está feita e eu preciso de um café. Anda daí, hoje pago eu, que estou transitoriamente feliz.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Melro

Olhou para o relógio. Eram quase cinco da tarde e ainda não tinha escrito nada de jeito. Não tardaria o telefone iria tocar e ela teria que inventar uma desculpa para ainda não ter pronta a coluna para o semanário da região.

Olhou para a rua através da janela. Viu um melro e naquele momento desejou ter assim um fato de penas pretas e um bico alaranjado. Poder voar para longe e só fazer o que lhe apetecesse. Andar à chuva, saltar de árvore em árvore, urinar em cima das pessoas de que não gostasse. Assim a vida haveria de valer a pena.


Olhou para o computador. A folha de texto ainda estava em branco. Pegou num lápis e num papel. Em vez de palavras, saiu-lhe um desenho. Os dedos retrataram espontaneamente um pássaro, mais precisamente um melro.


Olhou para o telemóvel. O chefe de redação estava a telefonar-lhe, porque já tinha passado o prazo de entregar o texto. Atendeu e disse-lhe que esta semana tinha uma coisa diferente. Um desenho que na realidade era uma caricatura.


Fez-se um silêncio do outro lado do telefone. Ele não sabia o que responder. Texto era o que ele precisava, mas nada lhe restava senão aceitar o desenho, pois tinha o espaço para preencher. Ela voltou a perguntar-lhe se o podia enviar e ele assentiu. Mal podia imaginar o ataque de fúria que lhe iria dar ao abrir o e-mail e ver que a caricatura era na realidade o desenho de um animal com corpo de melro e com a cara dela.