Não gosto de sanitas. Ponto final. Nunca gostei, nem nunca hei-de gostar
por mais anos que viva. Os buracos no chão ainda vá que não vá. Agora
aqueles monstros que não dizem ao que vão e que escondem o buraco com um
tortuoso cano são insuportáveis.
Quando eu era nova não havia nada disso. Fazias no campo, a céu aberto.
Ou então no penico. Depois havia o tal buraco, invenção mais moderna, com um
sistema de autoclismo e tudo. A técnica era simples: punhas os pés nos
locais indicados por um rasto antiderrapante, abrias as pernas e fazias o
que tinhas a fazer. Aprendi isto no dia em que fui para a escola
primária. Já lá vão uns 60 anos, portanto.
Quanto a sanitas, a primeira que vi foi quando fui com os meus pais a
Lisboa pela primeira vez. Fomos de comboio. Chegados a Santa Apolónia,
lá fomos às retretes. A minha mãe levava-me pela mão quando eu a fiz
passar a pior vergonha da vida.
Eu, do alto dos meus quatro anos,
recusava-me a entrar naquele compartimento onde estava uma coisa que a
minha mãe chamava de sanita. Ela explicava-me que eu só precisava de me
sentar lá e fazer o que costumava fazer ao ar livre. Mas eu recusava-me.
E como? Gritando, berrando a plenos pulmões, chorando.
As outras
pessoas deviam pensar que a minha mãe me tinha batido ou alguma coisa do
género para eu chorar assim. Mas não. Ela bateu-me foi depois. E
obrigou-me a sentar-me na sanita.
Guardo essa memória traumática como se se tivesse passado hoje. O que
mais me atemorizava era o que eu chamava e ainda hoje chamo de "sanita
em U". Basicamente, é uma sanita das antigas, em que a parte do buraco é
um vale estreito e não uma abertura arredondada.
Não sei explicar esta
minha aversão por este tipo de sanitas, mas confesso que ainda hoje se
mantém. Passei muitos anos em que procurava outra sanita quando numa
qualquer casa de banho pública me aparecia uma sanita em U. Hoje já
ultrapassei isso e consigo usá-la, mas a verdade é que continuo a sentir
repulsa por este tipo de sanitas.
Um dos meus problemas quando me casei e fui instituída dona de casa foi
ter que limpar a sanita, pelo menos semanalmente. Pôr lá em baixo uma
esponja com a minha mão é das coisas mais tenebrosas pelas quais tive
que passar.
Mais tarde deixei de o fazer e a sujidade acumulou-se. O meu
marido invocou esse motivo para se divorciar de mim naquele país
retrógrado em que vivíamos. Claro que ele já andava enrolado com a
secretária com quem se viria a casar pelo civil. O que ele não sabia é
que eu andava enrolada com o porteiro, mas isso são outras conversas que
agora não interessam.
Facto, facto é que nunca soube explicar este meu problema com as
sanitas. Parece tão ridículo, mas foi muito determinante durante a parte
da minha vida em que me deixei dominar por ele.
Talvez seja uma coisa
de vidas passadas, como diz a Célia que passa a vida a viajar para a
Índia. Ou então é mesmo uma coisa inexplicável. O certo é que haverá
sempre coisas mais bonitas na vida do que as sanitas.
segunda-feira, 18 de maio de 2015
segunda-feira, 11 de maio de 2015
A cor dos sonhos
- De que cor são os sonhos, a que cheiram e a que sabem?
A pergunta da miúda de oito anos deixou a avó inquieta, sem saber o que responder. A neta estava à espera da resposta à frente dela.
Os olhos azuis esbugalhados, as pestanas bem abertas, o cabelo ruivo com a franja em desalinho e os deditos pautados por sardas a puxar a saia azul rodada para cima.
A miúda começava a mostrar sinais de impaciência, mas em 70 anos de vida nunca lhe tinham feito tal pergunta.
- Bem, a avó vai tentar responder. O que eu penso é que... Os sonhos têm exactamente a cor, o cheiro e o sabor que lhes quisermos dar. Não há limite para os sonhos e não devemos deixar nunca que nos limitem ou impeçam de sonhar. Sonho é progresso. Sonho é vida.
- Não sei se estou perceber, vó! Isso quer dizer que morremos se não sonharmos?
- O que quero dizer é que é muito importante termos objectivos na vida. Coisas que queremos fazer, aprender, conhecer. Se não tivermos sonhos não nos sentimos vivos. É como se a vida não tivesse valor ou não lhe déssemos o valor que realmente tem.
- Mas o que é que se sente quando se realiza um sonho? E depois o que é que acontece? Ficas sem sonhos? Ficas vazia?
A avó soltou uma gargalhada sonora. Ajeitou o cabelo grisalho na testa, tirou os óculos pretos e aclarou a voz pigarreando. A miúda começou a reclamar que queria saber qual era a graça das suas perguntas e queria respostas. De dedito em riste, mostrava desagrado com a lentidão da avó.
- Tem calma. Tu tens muitas perguntas, Ritinha. E a avó podia responder-te com muitos exemplos da minha experiência. Mas há alguns que só te posso contar quando fores mais velha.
O que posso dizer agora é que quando realizas um sonho não te sentes vazia. Pelo contrário. Sentes-te preenchida. É uma sensação fantástica. Se lutaste muito para concretizar o sonho ainda te sentes melhor, sentes-te recompensada.
Sabes finalmente nessa altura se o que sonhaste corresponde ao que é a realidade. Pode ser pior ou melhor mas é sempre uma sensação de preenchimento por concretizares algo que deu tanto trabalho a conquistar.
Não deixes nunca de sonhar. Independentemente da tua idade. Sobretudo quando fores mais velha. Não deixes nunca que te tirem a capacidade de sonhar e de lutar por aquilo em que acreditas. Se alguém te disser o contrário é porque está errado.
Hoje em dia há quem tenha os pés assentes demais na terra e não dê valor a coisas abstractas como os sonhos. Nunca deixes que ninguém te tire a força de lutar pelos sonhos, porque só assim terás a vida que te fará feliz.
A pergunta da miúda de oito anos deixou a avó inquieta, sem saber o que responder. A neta estava à espera da resposta à frente dela.
Os olhos azuis esbugalhados, as pestanas bem abertas, o cabelo ruivo com a franja em desalinho e os deditos pautados por sardas a puxar a saia azul rodada para cima.
A miúda começava a mostrar sinais de impaciência, mas em 70 anos de vida nunca lhe tinham feito tal pergunta.
- Bem, a avó vai tentar responder. O que eu penso é que... Os sonhos têm exactamente a cor, o cheiro e o sabor que lhes quisermos dar. Não há limite para os sonhos e não devemos deixar nunca que nos limitem ou impeçam de sonhar. Sonho é progresso. Sonho é vida.
- Não sei se estou perceber, vó! Isso quer dizer que morremos se não sonharmos?
- O que quero dizer é que é muito importante termos objectivos na vida. Coisas que queremos fazer, aprender, conhecer. Se não tivermos sonhos não nos sentimos vivos. É como se a vida não tivesse valor ou não lhe déssemos o valor que realmente tem.
- Mas o que é que se sente quando se realiza um sonho? E depois o que é que acontece? Ficas sem sonhos? Ficas vazia?
A avó soltou uma gargalhada sonora. Ajeitou o cabelo grisalho na testa, tirou os óculos pretos e aclarou a voz pigarreando. A miúda começou a reclamar que queria saber qual era a graça das suas perguntas e queria respostas. De dedito em riste, mostrava desagrado com a lentidão da avó.
- Tem calma. Tu tens muitas perguntas, Ritinha. E a avó podia responder-te com muitos exemplos da minha experiência. Mas há alguns que só te posso contar quando fores mais velha.
O que posso dizer agora é que quando realizas um sonho não te sentes vazia. Pelo contrário. Sentes-te preenchida. É uma sensação fantástica. Se lutaste muito para concretizar o sonho ainda te sentes melhor, sentes-te recompensada.
Sabes finalmente nessa altura se o que sonhaste corresponde ao que é a realidade. Pode ser pior ou melhor mas é sempre uma sensação de preenchimento por concretizares algo que deu tanto trabalho a conquistar.
Não deixes nunca de sonhar. Independentemente da tua idade. Sobretudo quando fores mais velha. Não deixes nunca que te tirem a capacidade de sonhar e de lutar por aquilo em que acreditas. Se alguém te disser o contrário é porque está errado.
Hoje em dia há quem tenha os pés assentes demais na terra e não dê valor a coisas abstractas como os sonhos. Nunca deixes que ninguém te tire a força de lutar pelos sonhos, porque só assim terás a vida que te fará feliz.
segunda-feira, 4 de maio de 2015
Furacão
Fecho os olhos e passam diante de mim crianças a correr. Riem, cantam e
gritam. Ouço a porta de casa a abrir e chega junto de mim o meu marido.
Pergunta-me por que estamos no jardim com este calor. Chama os miúdos e
põe-lhe os chapéus e os bonés na cabeça. Sinto a sua mão grande pousada na
minha barriga. Sorrimos.
De repente abro os olhos e está tudo vazio. Ao contrário daquela tarde de Verão de há quarenta anos.
Estava grávida do meu quinto filho. Era uma mulher feliz com o meu casamento, sem sonhar que o meu marido me traía com a minha própria irmã. Só o descobriria horas mais tarde. Foi o dia mais infeliz da minha vida.
Quando os vi juntos perdi o homem que amava com todas as minhas forças e perdi a minha irmã. Passei a ser filha única naquele instante. O choque foi tão grande que perdi também o bebé. O aborto levou-me abaixo. Bati no fundo.
Nem me quero lembrar daquela altura terrível da minha vida. Queria divorciar-me e tive que lutar contra os meus pais para o fazer. O meu querido marido, que era e é advogado, fez-me a vida negra. Fez com que eu ficasse sem nada. E conseguiu a guarda dos filhos, porque eu não tinha emprego.
A minha família passou a ser a Inês, a minha melhor amiga. Que me acolheu em casa dela. Que me ajudou a voltar ao que era. Que me apoiou no momento de procurar trabalho. Que me permitiu reencontrar-me. Após uma longa luta nos tribunais, consegui muito mais tarde reaver os meus filhos.
Hoje já não existe em mim a sede de vingança. Hoje já não existe o medo de voltar a ser enganada por quem amo. Há apenas a dor por ter perdido uma vida que estava a ser gerada dentro de mim. Essa dor nunca passará.
Se ele ou ela fosse vivo como seria? Às vezes dou por mim a imaginar o seu rosto, os seus cabelos, as suas mãos, a sua voz. Mas nunca saberei como seria. Nessas alturas não consigo evitar as lágrimas.
Passadas quatro décadas voltei finalmente aqui, à casa onde fui tão feliz e onde me tornei tão infeliz. Basta fechar os olhos para me virem à memória os sons, cheiros, imagens que fazem a minha história neste espaço.
É estranho em todos estes quarenta anos não ter tido saudades desta laranjeira ao pé da qual gostava de me sentar a ler os clássicos. Nem da cerejeira que dava frutos carnudos e saborosos todas as Primaveras. Nem de ouvir o rouxinol que cantava noite fora nas árvores do jardim. Aliás, passei a detestar tudo isso.
Sorrio ao olhar para as cravinas e para as orquídeas alinhadas no canteiro junto à relva. A vida é irónica. Quem diria que eu viria a ser uma mulher rica, dona de um império de jóias conquistado a pulso com a força do meu trabalho. Sem precisar de qualquer homem ou de qualquer família.
Não é à toa que no mundo dos negócios me chamam de furacão. Ao pensar nisto solto uma gargalhada. Acho que este está a ser o melhor dia da minha vida.
O meu ex-marido e a minha irmã presos por desviarem dinheiro do banco, perderam tudo e eu comprei tudo o que tinham. Vou dar tudo à Santa Casa da Misericórdia. Excepto esta casa.
Amanhã vou doar o recheio à Igreja e depois mando uma máquina arrasar isto tudo. Vou construir um lar de idosos aqui. Um edifício novo, moderno.
A minha velhice vai ser passada neste lugar para me rir todos os dias que me restarem ao lembrar-me da ironia da vida que os fez pagar atrás das grades por todo o mal que me fizeram.
De repente abro os olhos e está tudo vazio. Ao contrário daquela tarde de Verão de há quarenta anos.
Estava grávida do meu quinto filho. Era uma mulher feliz com o meu casamento, sem sonhar que o meu marido me traía com a minha própria irmã. Só o descobriria horas mais tarde. Foi o dia mais infeliz da minha vida.
Quando os vi juntos perdi o homem que amava com todas as minhas forças e perdi a minha irmã. Passei a ser filha única naquele instante. O choque foi tão grande que perdi também o bebé. O aborto levou-me abaixo. Bati no fundo.
Nem me quero lembrar daquela altura terrível da minha vida. Queria divorciar-me e tive que lutar contra os meus pais para o fazer. O meu querido marido, que era e é advogado, fez-me a vida negra. Fez com que eu ficasse sem nada. E conseguiu a guarda dos filhos, porque eu não tinha emprego.
A minha família passou a ser a Inês, a minha melhor amiga. Que me acolheu em casa dela. Que me ajudou a voltar ao que era. Que me apoiou no momento de procurar trabalho. Que me permitiu reencontrar-me. Após uma longa luta nos tribunais, consegui muito mais tarde reaver os meus filhos.
Hoje já não existe em mim a sede de vingança. Hoje já não existe o medo de voltar a ser enganada por quem amo. Há apenas a dor por ter perdido uma vida que estava a ser gerada dentro de mim. Essa dor nunca passará.
Se ele ou ela fosse vivo como seria? Às vezes dou por mim a imaginar o seu rosto, os seus cabelos, as suas mãos, a sua voz. Mas nunca saberei como seria. Nessas alturas não consigo evitar as lágrimas.
Passadas quatro décadas voltei finalmente aqui, à casa onde fui tão feliz e onde me tornei tão infeliz. Basta fechar os olhos para me virem à memória os sons, cheiros, imagens que fazem a minha história neste espaço.
É estranho em todos estes quarenta anos não ter tido saudades desta laranjeira ao pé da qual gostava de me sentar a ler os clássicos. Nem da cerejeira que dava frutos carnudos e saborosos todas as Primaveras. Nem de ouvir o rouxinol que cantava noite fora nas árvores do jardim. Aliás, passei a detestar tudo isso.
Sorrio ao olhar para as cravinas e para as orquídeas alinhadas no canteiro junto à relva. A vida é irónica. Quem diria que eu viria a ser uma mulher rica, dona de um império de jóias conquistado a pulso com a força do meu trabalho. Sem precisar de qualquer homem ou de qualquer família.
Não é à toa que no mundo dos negócios me chamam de furacão. Ao pensar nisto solto uma gargalhada. Acho que este está a ser o melhor dia da minha vida.
O meu ex-marido e a minha irmã presos por desviarem dinheiro do banco, perderam tudo e eu comprei tudo o que tinham. Vou dar tudo à Santa Casa da Misericórdia. Excepto esta casa.
Amanhã vou doar o recheio à Igreja e depois mando uma máquina arrasar isto tudo. Vou construir um lar de idosos aqui. Um edifício novo, moderno.
A minha velhice vai ser passada neste lugar para me rir todos os dias que me restarem ao lembrar-me da ironia da vida que os fez pagar atrás das grades por todo o mal que me fizeram.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Estrelas
No céu escuro sobressaíam alguns pontos brilhantes. Uns maiores do que
os outros. A noite de Primavera no campo dava ainda direito a uma
sinfonia de grilos. A cantoria chegava a ser ensurdecedora.
João olhava para as estrelas e procurava o seu significado com a ajuda de uma aplicação de telemóvel quando o avô se fez anunciar com a sua tosse característica.
- P'ra qu'é essa traquitana que tens a apontar para o céu?
- É para ver as constelações, vô.
- Sabes bem que não preciso de nada disso.
Resmungando entre dentes, o velho sentou-se no banco de pedra e foi desenhando linhas no céu com o dedo indicador. Mostrava os planetas e os conjuntos de estrelas, ao mesmo tempo que ia contando as histórias do costume.
- Ó rapaz, sabes o que é que se vê na lua? É um homem com uma foice na mão a cortar silvas. Foi mandado para lá de castigo por trabalhar ao domingo, sabias?
- Sim, vô, já me tinhas dito. Tenho que ir dormir, que amanhã é dia de te ajudar na horta. O trabalho vai ser duro.
A meio da noite, João acordou com suores frios. Olhou à volta e esfregou os olhos. Não se lembrava de onde estava. Acendeu a luz. Estava em casa dos avós. Ao lado, a sua mulher dormia profundamente. Mas ele não conseguia fechar os olhos, porque ainda tinha bem presente o sonho que o fez acordar.
Estava na rua com o avô a olhar para o céu de fim de tarde quando viram do lado nascente dezenas de pequenas naves espaciais. Umas combatiam contra as outras.
Eram todas iguais, sombras pretas recortadas no horizonte, mas de umas saíam raios de luz vermelhos e de outros saíam raios de luz verdes. Iam ficando cada vez maiores, o que dava impressão de que estavam a aproximar-se.
O avô começou a gritar que viessem salvá-lo dos terráqueos. Acto contínuo, começou a esfregar a cara e a tirar o plástico que lhe dava a aparência humana. Abriu um fecho de alto a baixo do corpo. Parecia que estava a despir um fato-macaco.
Lá de dentro saiu uma criatura extraterrestre, verde e azul. Cresceram-lhe rapidamente duas antenas e os olhos esbugalhados vermelhos irradiavam luz como uns faróis de um carro. Agarrou na mão do neto a gritar.
- João, tu não és deste mundo. E eu também não. Viemos cá para salvar os humanos, mas eles não quiseram preservar o planeta deles. Está na hora de irmos embora. No nosso sistema solar precisam de nós para transmitimos os conhecimentos que aprendemos na Terra. Para a semana tens que dar um workshop de agricultura.
- O quê? Mas eu não percebo nada do assunto! Foi para isso que me chamaste cá este fim-de-semana? Mais valia ter ido com a Miranda à praia.
O diálogo estranho entre avô e neto seria interrompido por um raio que caiu entre eles, abrindo uma fenda na estrada. O espaço entre eles foi aumentando e do chão brotou uma nave espacial colorida e brilhante. Uma luz branca puxava João para dentro do aparelho quando acordou e se apercebeu de que tudo não tinha passado de um sonho.
Pelo sim, pelo não, foi espreitar o avô ao quarto dele. Pé ante pé, percorreu o corredor até à porta amarela. Rodou a maçaneta e empurrou o rectângulo de madeira com cuidado para não o acordar.
Olhou em frente e viu que o avô não estava na cama. À direita estava uma cadeira com uma espécie de fato-macaco que era a fotocópia do avô. Parecia mesmo aquele que o tinha visto despir.
Aterrado, mas sem conseguir deixar de espreitar para o quarto, João avançou e instintivamente olhou para a janela.
Do lado de fora não havia árvores, nem erva, nem flores, nem montanhas. Aquela não era a paisagem que rodeava a casa do avô. Do lado de fora havia montes brancos e uma paisagem árida. O céu era de um verde fluorescente e nele passeavam pequenas naves espaciais de várias cores. Confuso, João levou as mãos à cabeça e gritou.
- Onde é que estou?
Nesse momento, sentiu um toque frio no ombro esquerdo. Olhou para trás e lá estava o avô com formas extraterrestres.
João olhava para as estrelas e procurava o seu significado com a ajuda de uma aplicação de telemóvel quando o avô se fez anunciar com a sua tosse característica.
- P'ra qu'é essa traquitana que tens a apontar para o céu?
- É para ver as constelações, vô.
- Sabes bem que não preciso de nada disso.
Resmungando entre dentes, o velho sentou-se no banco de pedra e foi desenhando linhas no céu com o dedo indicador. Mostrava os planetas e os conjuntos de estrelas, ao mesmo tempo que ia contando as histórias do costume.
- Ó rapaz, sabes o que é que se vê na lua? É um homem com uma foice na mão a cortar silvas. Foi mandado para lá de castigo por trabalhar ao domingo, sabias?
- Sim, vô, já me tinhas dito. Tenho que ir dormir, que amanhã é dia de te ajudar na horta. O trabalho vai ser duro.
A meio da noite, João acordou com suores frios. Olhou à volta e esfregou os olhos. Não se lembrava de onde estava. Acendeu a luz. Estava em casa dos avós. Ao lado, a sua mulher dormia profundamente. Mas ele não conseguia fechar os olhos, porque ainda tinha bem presente o sonho que o fez acordar.
Estava na rua com o avô a olhar para o céu de fim de tarde quando viram do lado nascente dezenas de pequenas naves espaciais. Umas combatiam contra as outras.
Eram todas iguais, sombras pretas recortadas no horizonte, mas de umas saíam raios de luz vermelhos e de outros saíam raios de luz verdes. Iam ficando cada vez maiores, o que dava impressão de que estavam a aproximar-se.
O avô começou a gritar que viessem salvá-lo dos terráqueos. Acto contínuo, começou a esfregar a cara e a tirar o plástico que lhe dava a aparência humana. Abriu um fecho de alto a baixo do corpo. Parecia que estava a despir um fato-macaco.
Lá de dentro saiu uma criatura extraterrestre, verde e azul. Cresceram-lhe rapidamente duas antenas e os olhos esbugalhados vermelhos irradiavam luz como uns faróis de um carro. Agarrou na mão do neto a gritar.
- João, tu não és deste mundo. E eu também não. Viemos cá para salvar os humanos, mas eles não quiseram preservar o planeta deles. Está na hora de irmos embora. No nosso sistema solar precisam de nós para transmitimos os conhecimentos que aprendemos na Terra. Para a semana tens que dar um workshop de agricultura.
- O quê? Mas eu não percebo nada do assunto! Foi para isso que me chamaste cá este fim-de-semana? Mais valia ter ido com a Miranda à praia.
O diálogo estranho entre avô e neto seria interrompido por um raio que caiu entre eles, abrindo uma fenda na estrada. O espaço entre eles foi aumentando e do chão brotou uma nave espacial colorida e brilhante. Uma luz branca puxava João para dentro do aparelho quando acordou e se apercebeu de que tudo não tinha passado de um sonho.
Pelo sim, pelo não, foi espreitar o avô ao quarto dele. Pé ante pé, percorreu o corredor até à porta amarela. Rodou a maçaneta e empurrou o rectângulo de madeira com cuidado para não o acordar.
Olhou em frente e viu que o avô não estava na cama. À direita estava uma cadeira com uma espécie de fato-macaco que era a fotocópia do avô. Parecia mesmo aquele que o tinha visto despir.
Aterrado, mas sem conseguir deixar de espreitar para o quarto, João avançou e instintivamente olhou para a janela.
Do lado de fora não havia árvores, nem erva, nem flores, nem montanhas. Aquela não era a paisagem que rodeava a casa do avô. Do lado de fora havia montes brancos e uma paisagem árida. O céu era de um verde fluorescente e nele passeavam pequenas naves espaciais de várias cores. Confuso, João levou as mãos à cabeça e gritou.
- Onde é que estou?
Nesse momento, sentiu um toque frio no ombro esquerdo. Olhou para trás e lá estava o avô com formas extraterrestres.
segunda-feira, 20 de abril de 2015
Decisões
Ela estava cansada de ver todos os dias as mesmas pessoas, os mesmos
passeios, as mesmas casas, as mesmas estradas, as mesmas árvores.
Detestava a rotina. Acordar, levantar, tomar um duche, vestir, comer, lavar os dentes, apanhar o elétrico e ir para o trabalho. Lidar com clientes mal-educados, mal-dispostos, mal-encarados. Sorrir. Sorrir, mesmo quando lhe dava vontade de lhes dar uma resposta torta. A mesma que lhe apetecia dar ao chefe quando se armava em rei da loja.
Com esta vida infernal, o único consolo era um mealheiro enorme de barro que tinha comprado há três anos.
Finalmente estava cheio. Passou três noites a olhar para ele. Finalmente estava cheio, tendo dinheiro suficiente para cumprir o desígnio para o qual foi comprado. Poderia fazer uma viagem. Só ainda não sabia para onde iria. Passou três noites a olhar para ele, até escolher três países para onde queria viajar. Japão, Índia e Austrália. Estes seriam obrigatórios e o resto logo se veria.
No dia seguinte fez tudo aquilo que sempre quis fazer. Respondeu mal aos clientes, insultou o chefe, despediu-se da loja. Avisou que nunca mais lá poria os pés.
Como ainda eram duas da tarde e na véspera tinha recebido o ordenado do mês, foi a um restaurante de um hotel de cinco estrelas. A seguir ao almoço foi ao SPA e foi fazer compras à Avenida da Liberdade. Foi para casa de táxi.
Ao chegar a casa teve uma visão que não esperava. Tinham assaltado o apartamento. A porta tinha sido arrombada e estava tudo de pantanas. Foi a correr para o quarto à procura do mealheiro. O porco de barro estava desfeito em mil pedaços.
Sofia desatou num pranto, rasgou a camisola de raiva, partiu o resto das coisas que os ladrões tinham deixado intactas. Não podia acreditar que isto lhe tinha acontecido. Estava sem emprego, tinha derretido quase todo o ordenado do mês naquela tarde, os ladrões levaram as coisas de valor da casa, e o pior era que tinham levado o dinheiro que tinha juntado no mealheiro durante três anos.
Toca o telemóvel. Olhou para o ecrã enevoado pelas lágrimas. É o palhaço do Vítor, pensou. Tinham sido namorados, mas ela tinha acabado com ele há três anos, porque queria ir viver para Lisboa e ele queria ficar no Fundão.
Continuava a olhar para o ecrã do telemóvel sem saber se queria falar com ele agora ou não. Decidiu atender. Afinal foi a decisão mais sensata que tomou naquele dia.
Ele estava a telefonar porque ganhou o jackpot do Euromilhões e queria convidá-la para fazer uma viagem à volta do mundo sem data para regressar. Sabia que era o sonho dela, acrescentou Vítor. Ela aceitou sem pensar duas vezes. O nosso destino somos nós próprios que o fazemos.
Detestava a rotina. Acordar, levantar, tomar um duche, vestir, comer, lavar os dentes, apanhar o elétrico e ir para o trabalho. Lidar com clientes mal-educados, mal-dispostos, mal-encarados. Sorrir. Sorrir, mesmo quando lhe dava vontade de lhes dar uma resposta torta. A mesma que lhe apetecia dar ao chefe quando se armava em rei da loja.
Com esta vida infernal, o único consolo era um mealheiro enorme de barro que tinha comprado há três anos.
Finalmente estava cheio. Passou três noites a olhar para ele. Finalmente estava cheio, tendo dinheiro suficiente para cumprir o desígnio para o qual foi comprado. Poderia fazer uma viagem. Só ainda não sabia para onde iria. Passou três noites a olhar para ele, até escolher três países para onde queria viajar. Japão, Índia e Austrália. Estes seriam obrigatórios e o resto logo se veria.
No dia seguinte fez tudo aquilo que sempre quis fazer. Respondeu mal aos clientes, insultou o chefe, despediu-se da loja. Avisou que nunca mais lá poria os pés.
Como ainda eram duas da tarde e na véspera tinha recebido o ordenado do mês, foi a um restaurante de um hotel de cinco estrelas. A seguir ao almoço foi ao SPA e foi fazer compras à Avenida da Liberdade. Foi para casa de táxi.
Ao chegar a casa teve uma visão que não esperava. Tinham assaltado o apartamento. A porta tinha sido arrombada e estava tudo de pantanas. Foi a correr para o quarto à procura do mealheiro. O porco de barro estava desfeito em mil pedaços.
Sofia desatou num pranto, rasgou a camisola de raiva, partiu o resto das coisas que os ladrões tinham deixado intactas. Não podia acreditar que isto lhe tinha acontecido. Estava sem emprego, tinha derretido quase todo o ordenado do mês naquela tarde, os ladrões levaram as coisas de valor da casa, e o pior era que tinham levado o dinheiro que tinha juntado no mealheiro durante três anos.
Toca o telemóvel. Olhou para o ecrã enevoado pelas lágrimas. É o palhaço do Vítor, pensou. Tinham sido namorados, mas ela tinha acabado com ele há três anos, porque queria ir viver para Lisboa e ele queria ficar no Fundão.
Continuava a olhar para o ecrã do telemóvel sem saber se queria falar com ele agora ou não. Decidiu atender. Afinal foi a decisão mais sensata que tomou naquele dia.
Ele estava a telefonar porque ganhou o jackpot do Euromilhões e queria convidá-la para fazer uma viagem à volta do mundo sem data para regressar. Sabia que era o sonho dela, acrescentou Vítor. Ela aceitou sem pensar duas vezes. O nosso destino somos nós próprios que o fazemos.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Ensinamentos
Houve um tempo em que eu não acreditava que existia uma força invisível
que nos puxa e nos impele a fazer determinadas acções sem percebermos
por que é que as fazemos e sem pensarmos como as fazemos. Depois conheci Lisboa. Então acreditei no fado.
O destino torna-nos marionetas e faz com que sejamos puxados por fios invisíveis que nos levam para certas direcções e não para outras. Hoje que estou velha consigo ver isso. Olho para a minha vida sentada nesta cama de hospital. Tenho 95 anos e sei que não duro muito mais aqui. Mas sei também que não me arrependo de nada que fiz. Tenho a certeza.
Em todas estas noites que passo em branco sofro por não conseguir dormir. Ouço os gemidos dos outros doentes em sofrimento e tento abstrair-me. Penso no que passou. Passo a minha vida em revista. Vejo as coisas claras. E escrevo-vos esta carta porque vos amo acima de tudo no mundo e sei que vou morrer em paz por saber que partilhei com a minha família um pouco daquilo que aprendi nesta vida. Com cada um de vocês todos, que eu amo com todas as forças que me restam.
Meus amores, a felicidade é uma atitude. Se tu - falo para cada um de vós - decidires que tens tudo para seres feliz, então vais mesmo ser feliz. Vais lutar por isso. Todos os dias. Mesmo quando te digam que não pode ser. Porque para quem luta por aquilo em que acredita não há impossíveis. Porque os lutadores desta vida sabem que ninguém lhes pode tirar o direito de ser feliz. Porque a garra e a força gritam mais alto e ultrapassam todos os obstáculos. Já diz o ditado que dos fracos não reza a história.
Olhem para mim, que nasci num tempo em que a mulher não tinha os mesmos direitos do que o homem. Consegui estudar e ser médica, realizando o meu sonho, mesmo contra o meu pai, tudo porque consegui o apoio financeiro da família de uma amiga que acreditava no meu valor.
Fui para países distantes lutar por aquilo em que acreditava: ajudar os mais afectados pela fome e pela guerra. Renegada pela minha família rica e hipócrita, voltei à minha cidade já casada com um ex-militar negro que tinha sido meu paciente. Um escândalo no Porto conservador daquela época.
O resto da minha vida não preciso de vos contar, porque bem sabem. Sempre a lutar pela saúde dos mais pobres, dando-lhes até de comer, mesmo quando a comida já era pouca para os meus. Mas quem dá, recebe sempre em dobro, nunca se esqueçam.
E nunca se esqueçam de que a única pessoa que nos pode impedir de sermos felizes é aquela que nos olha no espelho quando estamos sozinhos. Se não podemos mudar os outros, é bem verdade que nos podemos mudar a nós próprios. Reconhecermos que estamos errados é uma grande virtude. A mudança é o motor da vida. É só preciso ter força de vontade, porque querer é mesmo poder e a nossa mente tem um poder infinito.
A atenção plena - agora tão na moda - sempre foi o meu lema desde que fui à Índia e conheci o meu segundo marido, pai e avô de alguns de vocês. A atenção plena é um dos caminhos para a felicidade. Assim aprendemos a olhar e a gozar de todos os momentos felizes que temos ao longo do dia, maximizando o prazer de viver.
Também aprendemos com os erros e corrigimos posturas perante a vida que nos deixam desconfortáveis connosco próprios. Reprogramamos a nossa forma de pensar e isso basta para termos consciência de que afinal há muita coisa na vida que nos pode fazer felizes. Porque acredito que viemos ao mundo para sermos felizes. Já que cá estamos, vamos apreciar a vida em toda a sua plenitude.
Em Lisboa consolidei esta visão junto do meu terceiro marido. O maior amor de toda a minha vida, aquele que me fez acreditar no destino. Que éramos como marionetas que passámos toda a vida a mover-nos na direcção um do outro até nos encontrarmos no aeroporto da Portela e nunca mais nos largarmos.
Só com a maturidade aceitei que me é dada a liberdade de fazer o meu destino, mas que há coisas maiores em que não mandamos, porque já nos estão predestinadas.
Espero que esta minha carta vos seja útil, resumindo os meus ensinamentos, aqueles que recolhi nesta minha longa vida.
Até sempre meus amores,
Filomena.
O destino torna-nos marionetas e faz com que sejamos puxados por fios invisíveis que nos levam para certas direcções e não para outras. Hoje que estou velha consigo ver isso. Olho para a minha vida sentada nesta cama de hospital. Tenho 95 anos e sei que não duro muito mais aqui. Mas sei também que não me arrependo de nada que fiz. Tenho a certeza.
Em todas estas noites que passo em branco sofro por não conseguir dormir. Ouço os gemidos dos outros doentes em sofrimento e tento abstrair-me. Penso no que passou. Passo a minha vida em revista. Vejo as coisas claras. E escrevo-vos esta carta porque vos amo acima de tudo no mundo e sei que vou morrer em paz por saber que partilhei com a minha família um pouco daquilo que aprendi nesta vida. Com cada um de vocês todos, que eu amo com todas as forças que me restam.
Meus amores, a felicidade é uma atitude. Se tu - falo para cada um de vós - decidires que tens tudo para seres feliz, então vais mesmo ser feliz. Vais lutar por isso. Todos os dias. Mesmo quando te digam que não pode ser. Porque para quem luta por aquilo em que acredita não há impossíveis. Porque os lutadores desta vida sabem que ninguém lhes pode tirar o direito de ser feliz. Porque a garra e a força gritam mais alto e ultrapassam todos os obstáculos. Já diz o ditado que dos fracos não reza a história.
Olhem para mim, que nasci num tempo em que a mulher não tinha os mesmos direitos do que o homem. Consegui estudar e ser médica, realizando o meu sonho, mesmo contra o meu pai, tudo porque consegui o apoio financeiro da família de uma amiga que acreditava no meu valor.
Fui para países distantes lutar por aquilo em que acreditava: ajudar os mais afectados pela fome e pela guerra. Renegada pela minha família rica e hipócrita, voltei à minha cidade já casada com um ex-militar negro que tinha sido meu paciente. Um escândalo no Porto conservador daquela época.
O resto da minha vida não preciso de vos contar, porque bem sabem. Sempre a lutar pela saúde dos mais pobres, dando-lhes até de comer, mesmo quando a comida já era pouca para os meus. Mas quem dá, recebe sempre em dobro, nunca se esqueçam.
E nunca se esqueçam de que a única pessoa que nos pode impedir de sermos felizes é aquela que nos olha no espelho quando estamos sozinhos. Se não podemos mudar os outros, é bem verdade que nos podemos mudar a nós próprios. Reconhecermos que estamos errados é uma grande virtude. A mudança é o motor da vida. É só preciso ter força de vontade, porque querer é mesmo poder e a nossa mente tem um poder infinito.
A atenção plena - agora tão na moda - sempre foi o meu lema desde que fui à Índia e conheci o meu segundo marido, pai e avô de alguns de vocês. A atenção plena é um dos caminhos para a felicidade. Assim aprendemos a olhar e a gozar de todos os momentos felizes que temos ao longo do dia, maximizando o prazer de viver.
Também aprendemos com os erros e corrigimos posturas perante a vida que nos deixam desconfortáveis connosco próprios. Reprogramamos a nossa forma de pensar e isso basta para termos consciência de que afinal há muita coisa na vida que nos pode fazer felizes. Porque acredito que viemos ao mundo para sermos felizes. Já que cá estamos, vamos apreciar a vida em toda a sua plenitude.
Em Lisboa consolidei esta visão junto do meu terceiro marido. O maior amor de toda a minha vida, aquele que me fez acreditar no destino. Que éramos como marionetas que passámos toda a vida a mover-nos na direcção um do outro até nos encontrarmos no aeroporto da Portela e nunca mais nos largarmos.
Só com a maturidade aceitei que me é dada a liberdade de fazer o meu destino, mas que há coisas maiores em que não mandamos, porque já nos estão predestinadas.
Espero que esta minha carta vos seja útil, resumindo os meus ensinamentos, aqueles que recolhi nesta minha longa vida.
Até sempre meus amores,
Filomena.
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Marionetas
Antigamente ela não acreditava nesta força invisível que prende ao chão ou
impele a tomar determinadas decisões em detrimento de outras.
Porém, agora tinha a consciência de que todos os seres humanos eram como marionetas: presos uns aos outros e a algo maior que algures lá no alto puxa os cordéis e faz as pessoas se moverem de uma forma em vez de outra.
Iulia ganhara esta consciência pouco depois de deixar a sua fria Rússia, trocando-a por Portugal. Sentiu-se livre pela primeira vez na vida quando abandonou Vladimir, com quem ia casar daí a duas semanas apenas para cumprir o desejo dos pais.
Fez a maior loucura que tinha feito na vida e decidiu embarcar na proposta que lhe tinha feito o homem por quem se apaixonara desde que se conheceram na loja de roupa masculina onde trabalhava em Moscovo.
Ele era português, piloto de uma companhia aérea portuguesa. Ficou hipnotizado pelos olhos verdes e a pele clara daquela jovem russa desde o primeiro momento em que a viu a dobrar roupa junto a uma prateleira. Arranjou um pretexto para falar com ela. A partir de então, ia à loja sempre que voava para Moscovo.
Um dia convidou-a para almoçar, depois para lanchar, para jantar, e para sair à noite. Ele tornou-se confidente dela. E, sem se aperceberem, estavam perdidamente apaixonados. O namorado dela desconfiava que algo se passava, porque ela evitava-o cada vez mais. Iulia teve que passar a dizer a Vladimir que se encontrava com uma amiga sempre que saía com João.
O dia do casamento aproximava-se irremediavelmente. E ela ia ficando cada vez mais triste. Até que João lhe propôs que viajasse com ele para Lisboa. A sua casa era grande e poderia ficar lá a viver.
Iulia estranhou e perguntou-lhe se a namorada dele não se importaria. Ele respondeu que já não tinha namorada. Não havia qualquer outra mulher no mundo para além de Iulia. Confusa, mas com uma alegria que lhe fazia o umbigo saltar com as borboletas que lhe esvoaçavam na barriga, ela abraçou-o, como faz a criança que está feliz por lhe darem o presente que tanto desejava.
Deixou tudo sem dar o mínimo indício a alguém de que iria fugir. Para trás ficou apenas uma carta para a mãe onde dizia que fugira para longe e que iria em busca da sua felicidade. "Não me procurem", pedia. Estava farta de seguir as ideias dos outros e de procurar mais a alegria dos outros do que a sua própria.
Assim que deixou de viver em função dos outros e aterrou em Lisboa, Iulia sentiu-se uma nova mulher. Não sabia explicar esta felicidade, mas era como se voltasse a ter sete anos e até algo simples como uma pequena flor no passeio lhe trouxesse boas energias.
Como Iulia sabia falar várias línguas, rapidamente arranjou emprego numa recepção de hotel, onde conheceria Carmen. A jovem de Sevilha era um espírito vibrante que irradiava alegria.
As colegas de trabalho riam tanto por tudo e por nada, cochichando permanentemente. Dava impressão que se conheciam há décadas. Um dia a espanhola contou-lhe que era cartomante e que tinha poderes sobrenaturais. E sabia que tinham sido amantes noutra vida. Carmen e Iulia tinham vivido uma paixão escaldante e proibida. Viriam mesmo a morrer por causa dela.
Ao ouvir isto Iulia tinha uma expressão incrédula, mas havia alguma coisa que a impelia a acreditar. Desde que conhecera Carmen a sua relação com João mudara. Parecia que havia um íman que a aproximava da espanhola e a afastava do português.
Carmen tinha um poder especial sobre ela, atraía-a para si e Iulia não podia já passar sem ela. Pouco a pouco, começou a acreditar na tal força invisível que a puxava para a espanhola como se fosse uma marioneta.
E nada conseguiu fazer quando se beijaram pela primeira vez no quarto de Carmen e uma explosão inexplicável as levou a envolverem-se de uma forma que Iulia nunca pensara vir a envolver-se com uma mulher. A russa nem pensou duas vezes quando a amante lhe propôs que deixassem Lisboa e fossem viver juntas para Miami.
Porém, agora tinha a consciência de que todos os seres humanos eram como marionetas: presos uns aos outros e a algo maior que algures lá no alto puxa os cordéis e faz as pessoas se moverem de uma forma em vez de outra.
Iulia ganhara esta consciência pouco depois de deixar a sua fria Rússia, trocando-a por Portugal. Sentiu-se livre pela primeira vez na vida quando abandonou Vladimir, com quem ia casar daí a duas semanas apenas para cumprir o desejo dos pais.
Fez a maior loucura que tinha feito na vida e decidiu embarcar na proposta que lhe tinha feito o homem por quem se apaixonara desde que se conheceram na loja de roupa masculina onde trabalhava em Moscovo.
Ele era português, piloto de uma companhia aérea portuguesa. Ficou hipnotizado pelos olhos verdes e a pele clara daquela jovem russa desde o primeiro momento em que a viu a dobrar roupa junto a uma prateleira. Arranjou um pretexto para falar com ela. A partir de então, ia à loja sempre que voava para Moscovo.
Um dia convidou-a para almoçar, depois para lanchar, para jantar, e para sair à noite. Ele tornou-se confidente dela. E, sem se aperceberem, estavam perdidamente apaixonados. O namorado dela desconfiava que algo se passava, porque ela evitava-o cada vez mais. Iulia teve que passar a dizer a Vladimir que se encontrava com uma amiga sempre que saía com João.
O dia do casamento aproximava-se irremediavelmente. E ela ia ficando cada vez mais triste. Até que João lhe propôs que viajasse com ele para Lisboa. A sua casa era grande e poderia ficar lá a viver.
Iulia estranhou e perguntou-lhe se a namorada dele não se importaria. Ele respondeu que já não tinha namorada. Não havia qualquer outra mulher no mundo para além de Iulia. Confusa, mas com uma alegria que lhe fazia o umbigo saltar com as borboletas que lhe esvoaçavam na barriga, ela abraçou-o, como faz a criança que está feliz por lhe darem o presente que tanto desejava.
Deixou tudo sem dar o mínimo indício a alguém de que iria fugir. Para trás ficou apenas uma carta para a mãe onde dizia que fugira para longe e que iria em busca da sua felicidade. "Não me procurem", pedia. Estava farta de seguir as ideias dos outros e de procurar mais a alegria dos outros do que a sua própria.
Assim que deixou de viver em função dos outros e aterrou em Lisboa, Iulia sentiu-se uma nova mulher. Não sabia explicar esta felicidade, mas era como se voltasse a ter sete anos e até algo simples como uma pequena flor no passeio lhe trouxesse boas energias.
Como Iulia sabia falar várias línguas, rapidamente arranjou emprego numa recepção de hotel, onde conheceria Carmen. A jovem de Sevilha era um espírito vibrante que irradiava alegria.
As colegas de trabalho riam tanto por tudo e por nada, cochichando permanentemente. Dava impressão que se conheciam há décadas. Um dia a espanhola contou-lhe que era cartomante e que tinha poderes sobrenaturais. E sabia que tinham sido amantes noutra vida. Carmen e Iulia tinham vivido uma paixão escaldante e proibida. Viriam mesmo a morrer por causa dela.
Ao ouvir isto Iulia tinha uma expressão incrédula, mas havia alguma coisa que a impelia a acreditar. Desde que conhecera Carmen a sua relação com João mudara. Parecia que havia um íman que a aproximava da espanhola e a afastava do português.
Carmen tinha um poder especial sobre ela, atraía-a para si e Iulia não podia já passar sem ela. Pouco a pouco, começou a acreditar na tal força invisível que a puxava para a espanhola como se fosse uma marioneta.
E nada conseguiu fazer quando se beijaram pela primeira vez no quarto de Carmen e uma explosão inexplicável as levou a envolverem-se de uma forma que Iulia nunca pensara vir a envolver-se com uma mulher. A russa nem pensou duas vezes quando a amante lhe propôs que deixassem Lisboa e fossem viver juntas para Miami.
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