segunda-feira, 13 de abril de 2015

Ensinamentos

Houve um tempo em que eu não acreditava que existia uma força invisível que nos puxa e nos impele a fazer determinadas acções sem percebermos por que é que as fazemos e sem pensarmos como as fazemos. Depois conheci Lisboa. Então acreditei no fado.

O destino torna-nos marionetas e faz com que sejamos puxados por fios invisíveis que nos levam para certas direcções e não para outras. Hoje que estou velha consigo ver isso. Olho para a minha vida sentada nesta cama de hospital. Tenho 95 anos e sei que não duro muito mais aqui. Mas sei também que não me arrependo de nada que fiz. Tenho a certeza.


Em todas estas noites que passo em branco sofro por não conseguir dormir. Ouço os gemidos dos outros doentes em sofrimento e tento abstrair-me. Penso no que passou. Passo a minha vida em revista. Vejo as coisas claras. E escrevo-vos esta carta porque vos amo acima de tudo no mundo e sei que vou morrer em paz por saber que partilhei com a minha família um pouco daquilo que aprendi nesta vida. Com cada um de vocês todos, que eu amo com todas as forças que me restam.


Meus amores, a felicidade é uma atitude. Se tu - falo para cada um de vós - decidires que tens tudo para seres feliz, então vais mesmo ser feliz. Vais lutar por isso. Todos os dias. Mesmo quando te digam que não pode ser. Porque para quem luta por aquilo em que acredita não há impossíveis. Porque os lutadores desta vida sabem que ninguém lhes pode tirar o direito de ser feliz. Porque a garra e a força gritam mais alto e ultrapassam todos os obstáculos. Já diz o ditado que dos fracos não reza a história.


Olhem para mim, que nasci num tempo em que a mulher não tinha os mesmos direitos do que o homem. Consegui estudar e ser médica, realizando o meu sonho, mesmo contra o meu pai, tudo porque consegui o apoio financeiro da família de uma amiga que acreditava no meu valor. 


Fui para países distantes lutar por aquilo em que acreditava: ajudar os mais afectados pela fome e pela guerra. Renegada pela minha família rica e hipócrita, voltei à minha cidade já casada com um ex-militar negro que tinha sido meu paciente. Um escândalo no Porto conservador daquela época. 

O resto da minha vida não preciso de vos contar, porque bem sabem. Sempre a lutar pela saúde dos mais pobres, dando-lhes até de comer, mesmo quando a comida já era pouca para os meus. Mas quem dá, recebe sempre em dobro, nunca se esqueçam.

E nunca se esqueçam de que a única pessoa que nos pode impedir de sermos felizes é aquela que nos olha no espelho quando estamos sozinhos. Se não podemos mudar os outros, é bem verdade que nos podemos mudar a nós próprios. Reconhecermos que estamos errados é uma grande virtude. A mudança é o motor da vida. É só preciso ter força de vontade, porque querer é mesmo poder e a nossa mente tem um poder infinito.


A atenção plena - agora tão na moda - sempre foi o meu lema desde que fui à Índia e conheci o meu segundo marido, pai e avô de alguns de vocês. A atenção plena é um dos caminhos para a felicidade. Assim aprendemos a olhar e a gozar de todos os momentos felizes que temos ao longo do dia, maximizando o prazer de viver. 


Também aprendemos com os erros e corrigimos posturas perante a vida que nos deixam desconfortáveis connosco próprios. Reprogramamos a nossa forma de pensar e isso basta para termos consciência de que afinal há muita coisa na vida que nos pode fazer felizes. Porque acredito que viemos ao mundo para sermos felizes. Já que cá estamos, vamos apreciar a vida em toda a sua plenitude.

Em Lisboa consolidei esta visão junto do meu terceiro marido. O maior amor de toda a minha vida, aquele que me fez acreditar no destino. Que éramos como marionetas que passámos toda a  vida a mover-nos na direcção um do outro até nos encontrarmos no aeroporto da Portela e nunca mais nos largarmos. 

Só com a maturidade aceitei que me é dada a liberdade de fazer o meu destino, mas que há coisas maiores em que não mandamos, porque já nos estão predestinadas.

Espero que esta minha carta vos seja útil, resumindo os meus ensinamentos, aqueles que recolhi nesta minha longa vida.


Até sempre meus amores,

Filomena.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Marionetas

Antigamente ela não acreditava nesta força invisível que prende ao chão ou impele a tomar determinadas decisões em detrimento de outras. 

Porém, agora tinha a consciência de que todos os seres humanos eram como marionetas: presos uns aos outros e a algo maior que algures lá no alto puxa os cordéis e faz as pessoas se moverem de uma forma em vez de outra.

Iulia ganhara esta consciência pouco depois de deixar a sua fria Rússia, trocando-a por Portugal. Sentiu-se livre pela primeira vez na vida quando abandonou Vladimir, com quem ia casar daí a duas semanas apenas para cumprir o desejo dos pais. 


Fez a maior loucura que tinha feito na vida e decidiu embarcar na proposta que lhe tinha feito o homem por quem se apaixonara desde que se conheceram na loja de roupa masculina onde trabalhava em Moscovo.

Ele era português, piloto de uma companhia aérea portuguesa. Ficou hipnotizado pelos olhos verdes e a pele clara daquela jovem russa desde o primeiro momento em que a viu a dobrar roupa junto a uma prateleira. Arranjou um pretexto para falar com ela. A partir de então, ia à loja sempre que voava para Moscovo. 


Um dia convidou-a para almoçar, depois para lanchar, para jantar, e para sair à noite. Ele tornou-se confidente dela. E, sem se aperceberem, estavam perdidamente apaixonados. O namorado dela desconfiava que algo se passava, porque ela evitava-o cada vez mais. Iulia teve que passar a dizer a Vladimir que se encontrava com uma amiga sempre que saía com João.

O dia do casamento aproximava-se irremediavelmente. E ela ia ficando cada vez mais triste. Até que João lhe propôs que viajasse com ele para Lisboa. A sua casa era grande e poderia ficar lá a viver. 


Iulia estranhou e perguntou-lhe se a namorada dele não se importaria. Ele respondeu que já não tinha namorada. Não havia qualquer outra mulher no mundo para além de Iulia. Confusa, mas com uma alegria que lhe fazia o umbigo saltar com as borboletas que lhe esvoaçavam na barriga, ela abraçou-o, como faz a criança que está feliz por lhe darem o presente que tanto desejava.

Deixou tudo sem dar o mínimo indício a alguém de que iria fugir. Para trás ficou apenas uma carta para a mãe onde dizia que fugira para longe e que iria em busca da sua felicidade. "Não me procurem", pedia. Estava farta de seguir as ideias dos outros e de procurar mais a alegria dos outros do que a sua própria. 


Assim que deixou de viver em função dos outros e aterrou em Lisboa, Iulia sentiu-se uma nova mulher. Não sabia explicar esta felicidade, mas era como se voltasse a ter sete anos e até algo simples como uma pequena flor no passeio lhe trouxesse boas energias.

Como Iulia sabia falar várias línguas, rapidamente arranjou emprego numa recepção de hotel, onde conheceria Carmen. A jovem de Sevilha era um espírito vibrante que irradiava alegria. 


As colegas de trabalho riam tanto por tudo e por nada, cochichando permanentemente. Dava impressão que se conheciam há décadas. Um dia a espanhola contou-lhe que era cartomante e que tinha poderes sobrenaturais. E sabia que tinham sido amantes noutra vida. Carmen e Iulia tinham vivido uma paixão escaldante e proibida. Viriam mesmo a morrer por causa dela.

Ao ouvir isto Iulia tinha uma expressão incrédula, mas havia alguma coisa que a impelia a acreditar. Desde que conhecera Carmen a sua relação com João mudara. Parecia que havia um íman que a aproximava da espanhola e a afastava do português.


Carmen tinha um poder especial sobre ela, atraía-a para si e Iulia não podia já passar sem ela. Pouco a pouco, começou a acreditar na tal força invisível que a puxava para a espanhola como se fosse uma marioneta. 

E nada conseguiu fazer quando se beijaram pela primeira vez no quarto de Carmen e uma explosão inexplicável as levou a envolverem-se de uma forma que Iulia nunca pensara vir a envolver-se com uma mulher. A russa nem pensou duas vezes quando a amante lhe propôs que deixassem Lisboa e fossem viver juntas para Miami.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Corpo alheio

Todos os dias sinto-me prisioneiro dentro de um corpo que não é meu, que não reconheço como meu.

Nasci homem mas desde que me lembro que nunca gostei de ser homem. Recordo o pavor que tive quando me nasceram os primeiros pêlos de barba, quando as pernas começaram a ficar cabeludas e quando a voz começou a engrossar.


Quando tive idade suficiente para lutar contra as ideias feitas do meu pai saí de casa. Fui para a cidade grande assumir-me como era. Mas a capital não estava preparada para mim no Portugal retrógrado dos anos 60. Tive que emigrar.

Tornei-me travesti e todas as noites podia ser quem eu queria ser na realidade. Fui muito feliz. Mas na verdade não conseguia ver que a felicidade seria ainda maior se eu pudesse ser mulher 24 horas por dia, mesmo fora dos clubes noturnos e daquela vida que eu levava.


Agora que estou velho consigo ver isso. Voltei à minha aldeia e parece que aquelas cabeças ficaram paradas no tempo e não estão preparadas para me aceitar. 


A minha família não me aceita também. E eu não posso aceitar tão pouco quem não me ama como eu sou. 

Por isso, agora que olho pela janela do comboio e vejo a minha vida a passar em retrospectiva, tomo uma decisão. Vou fazer uma operação de mudança de sexo. 

Vou tornar-me por fora a mulher que já sou por dentro. Só assim poderei ser totalmente feliz e estar em paz comigo mesmo - ou melhor, comigo mesma.

segunda-feira, 23 de março de 2015

O sentido da vida

Suspirou enquanto dava a última dentada na sandes enxabida que tinha ido buscar à máquina para servir de almoço naquela segunda-feira maldita. O relógio dizia que tinha que se despachar porque tinha muito trabalho para fazer naquele dia.

Enquanto mastigava o último pedaço, veio-lhe à cabeça a eterna dúvida: qual é o sentido da vida? Mas não tinha tempo  para pensar nisso agora. Para mais, ainda há um mês quase tinha dado em doida a pensar nisso.

Na altura, pensava nisso em qualquer instante em que o pensamento corria livre - no trânsito, a passar a ferro, ou até na sanita. Não chegara a qualquer conclusão. Continuava sem saber qual o sentido de andar aqui em cima da terra. A fazer peso ao chão, como alguns dizem.


Todos os dias era o mesmo: levantar, tomar banho, vestir, comer, despachar os miúdos, ir levá-los à escola, atravessar a cidade para chegar ao trabalho, ter que ouvir comentários machistas no trabalho nos dias em que lhe apetecia levar uma saia mais curta ou uma maquilhagem mais carregada, levar com o mau feitio do chefe prepotente que diz a toda a hora que já não se fazem secretárias como antigamente e apetecer dar-lhe com o dossiê na cabeça mas nada poder fazer, voltar para casa, dar banho aos miúdos, comer a comida insossa que o marido fez, passar a ferro a ver uma qualquer série em que os outros são sempre felizes no final do episódio, ir dormir. E no outro dia: começar tudo de novo.

Tentou fazer o exercício ao contrário, e ver as coisas positivas da sua vida. Tinha dois filhos lindos, saudáveis e inteligentes. Tinha o melhor marido do mundo, que a adorava e que ela adorava. Tinha dois amantes que a faziam sentir-se uma mulher maravilhosa.


Conseguia gerir o tempo ao centésimo de segundo, de forma que se desdobrava entre todos os papéis da sua vida sem ninguém se queixar. Como o fazia não sabia. Aliás, nunca tinha pensado nisso. Era uma capacidade inata: mentir, manipular. Só agora se dava conta disso e de como isso era precisamente o motor da sua vida. 

Porém, continuava sem ter a resposta à pergunta sobre o sentido da vida. E foi então que decidiu ir afastando essa questão. Até ao momento em que trincava aquela sanduíche na segunda-feira à hora de almoço. A pergunta voltou então. 

De novo martelava na cabeça em cada pedaço de tempo livre. E até lhe começou a tirar a concentração no trabalho. Foi uma semana terrível. Mas lá veio a sexta-feira. Era um dia de que gostava particularmente, porque a hora de almoço era passada com o amante de quem mais gostava. 

Depois de estacionar o carro à porta do prédio onde se encontravam habitualmente, olhou para o retrovisor e ajeitou o cabelo. Sorriu para o reflexo do espelho e viu uma mulher quarentona - mas feliz. E só então - de forma repentina e inexplicavelmente - compreendeu que o sentido da vida é ser feliz, sentindo-se feliz com as pequenas coisas da vida.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Amor

Não há maior e melhor amor na vida do que o amor por um filho. Já tive muitos homens em meio século de vida, mas nenhum se equipara ao amor pelo meu filho. 

O amor por um qualquer homem só leva à perdição, à desgraça, à miséria, à ignomínia. Pelo contrário, o amor por um filho eleva-nos, torna-nos superiores e quase celestiais. 

Temos a oportunidade de nos aperfeiçoarmos naquela figura e temos a ilusão de que podemos mudar o mundo com a sua educação. Pura ilusão. Mas impossível de ser afastada.

Facto é que nunca deixarei de amar o meu filho, ao passo que o amor por um homem muda de cambiante, transfigura-se e desvanesce com o tempo -  e sobretudo com a convivência.


Não preciso desses amores banais para viver. São como fósforos. Existem às centenas. Acendem-se, iluminam e depois apagam-se. Mas não saberia viver sem o amor do meu filho.


Não conseguiria mais respirar se não o pudesse ver mais na vida. Ouvir a sua voz, abraçá-lo, beijá-lo. Preferia atirar-me para a morte, qual Anna Karenina. Não suportaria ficar sem o amor mais puro, verdadeiro e eterno que existe neste mundo. 

Quem pensa de outro modo está enganado. Ou então teve a felicidade de encontrar um amor pleno num qualquer homem. Daqueles que se encontram uma vez de cem em cem anos.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Guerra

A noite escura traz-me os maus pensamentos que queria esquecer. Não consigo dormir e arrasto-me pela casa como um fantasma.

Olho para a minha mulher a dormir. Passo pelo quarto dos miúdos e vejo dois anjinhos de olhos fechados. Quem me dera voltar a ser criança. Não saber o que se passa no mundo, não conhecer a miséria humana, não ter ido à guerra, não ter vivido nada do que vivi nos últimos meses.


Nunca senti tanto nojo de mim próprio como agora. Olho para as minhas mãos à luz ténue do candeeiro que ilumina a sala e só vejo sangue. Sinto que tenho as mãos sujas para sempre. 


Fecho os olhos para tentar esquecer, mas é pior. Só me aparecem imagens de cenas de guerra. Cruas. Cruéis. Frias. Negras. Flashes que não consigo apagar da memória. Sobretudo os momentos em que matei pessoas. 

Sim, eu matei. Eu tirei a vida a pessoas. Não eram inimigos. Eram pessoas. Tomei consciência disso de cada vez que as via tombar por minha causa.

Não sei lidar com isto. Como pode alguém ter o direito de tirar a vida de outra pessoa? Tudo me parecia bem resolvido na minha cabeça antes desta minha primeira missão na guerra. Agora sei que não fui feito para isto. 


É como se a cada morte eu visse acorrer à volta do corpo toda uma família que ficou desfeita e indefesa. Eu não tinha o direito de lhe tirar a vida. Eu não tinha.

A minha mulher já me perguntou o que se passava, porque sente que eu não estou bem. Mas eu não tenho coragem de lhe confessar a verdade. Sinto vergonha só de olhar para ela. Tão pura, tão limpa, tão longe daquele mundo pérfido por onde andei. 


Eu cheguei há três dias e ainda não fui capaz de ir para a cama com ela. Sinto-me sujo e sinto que não a posso manchar.

Passo as noites em branco a pensar numa solução para isto. O meu chefe acha que eu preciso de tratamento psicológico. Eu acho que preciso de sair do exército. 


Não consigo mais pegar numa arma. Tenho que mudar de vida. Preciso de me afastar desse mundo. Amanhã vou falar com o meu chefe. Amanhã vou falar com a minha mulher. Amanhã vou mudar.

segunda-feira, 2 de março de 2015

É complicado

Desprendo as mangas que me atam os braços. Dispo as calças que me cobrem as pernas. Atiro com os pedaços de couro que me tapam os pés. Ficam a rebolar pela duna abaixo.

Corro pela areia molhada e fecho os olhos ao sentir o vento a bater-me no rosto e nos cabelos. Rodopio pela praia que esta manhã é só minha. A maresia fresca enche-me o peito. É como se voltasse a ser jovem. Não preciso de mais nada para me sentir bem. Melhor só: mergulhar nas ondas frias que me deixam a pele eriçada.


Abro os olhos ao vir à tona e logo regressa o pensamento da minha filha. Vim aqui para me distrair, mas é difícil. Não há dor maior neste mundo do que perder uma filha. Ela tinha 40 anos. Deixou um menino de 12 anos. Deixou uma vida por concretizar, planos por realizar, caminhos por percorrer, deixou tudo por viver.


Não devia ser permitido que um filho morresse antes dos pais. Não é natural, não é justo. Um AVC não é nome que se dê a uma morte. A falta de idas ao médico e o excesso de trabalho são culpados, mas não deviam ser razões suficientes para morrer. 


A minha revolta salta-me do peito de cada vez que me lembro do seu sorriso puro, que me remete para aquele tempo em que era uma menina de sete anos com um vestido aos lacinhos amarelos e um chapéu de palha a pedir-me para lhe descascar uma maçã enquanto apontava para uma macieira na quinta do meu pai em Felgueiras. 

Não posso aceitar que a morte a tenha roubado à minha vida.

As lágrimas que me escorrem pelo pescoço misturam-se com a água salgada que boia à minha volta. Quem me dera ser como esta espuma branca e não sentir nada. Não ter que sentir o coração dilacerado de cada vez que olho para o rosto amargurado do meu marido.


Sentado na sua cadeira de rodas, agarrado ao andarilho, ou virado de lado na cama, os seus olhos têm sempre a mesma mensagem. É um pai que não sabe mais onde há-de meter tanta dor. E eu queria ajudá-lo mas não sei como. É também com dificuldade que lido com a minha cruz, com este peso que me puxa para o chão de cada vez que dou um passo.

Saio da praia, pego no carro e volto para casa. Ao fundo do prédio as vizinhas olham-me com compaixão enquanto se acotovelam a mirar-me ao caminhar naquela direcção. De nada me serve a pena delas. 


Uma decide continuar a conversa e dizer que a receita que a outra lhe sugeria era muito complicada. "É complicado", apontava com a sua voz fininha e impertinente. Só me apetecia dizer-lhe: "Minha senhora, nada é complicado nesta vida. Tudo se faz, tudo tem solução. Complicado é mesmo o que não tem remédio. Complicado é morrer aos 40 anos."

Engulo a minha vontade em seco. Atiro um bom dia às três e rodo a chave na porta do prédio. De repente, penso que a minha filha não gostaria de me ver assim vergada ao peso da dor. Endireito as costas, levanto a cabeça e subo as escadas. Acabo de decidir mudar após estes penosos meses de luto. Hoje vou levar o meu marido a almoçar fora. Enquanto cá estamos a vida é para ser vivida, já dizia o meu pai.