segunda-feira, 16 de junho de 2014

Raiz e fruto

Era um daqueles dias quentes de verão em que nem sequer as formigas se atrevem a ir para a rua. Em que só se está bem junto ao mar. Ana tinha chegado ao Alentejo há pouco tempo e não estava habituada ao calor abrasador. Ainda sem amigos na nova aldeia, decidiu ir sozinha à praia. Pegou no chapéu-de-sol e no saco de praia, meteu-se no carro e arrancou.

Sem GPS nem mapa que lhe valesse acabou por se perder no caminho que mal conhecia para a praia. Ainda por cima não via vivalma a quem perguntar informações.

A certa altura do pinhal viu uma casita branca ao longe. Parou o carro à beira da estrada e seguiu o caminho de caruma até ao pequeno edifício. Quando estava a chegar perto do casebre as cigarras à volta deixaram de cantar e ela parou instintivamente. Foi então que ouviu uma voz nítida de mulher.


"Eu não sou eu se não fores tu. Tu nasceste de mim como nunca ninguém tinha nascido, mas depois de ti virão outros. Eu sou a raiz. Tu és o fruto. Os ramos e a copa, a vida. A vida que tem vários braços, vários caminhos, várias encruzilhadas.

Desde que existes que eu viajo de mim ao teu encontro. Tento ver-te por dentro, saber se tens seiva, se ao teu redor as folhas permanecem verdes, escolher o melhor ramo para não te perder.

Tu és o meu fruto e ninguém pode alterar isso. Nem o tempo, nem as estações do ano, nem a distância que possa vir a existir entre mim e ti, raiz e fruto. Nada pode apagar ou mudar tudo isso num mundo em constante mudança. Não se pode mudar o que é imutável. Não se pode cortar o que está intrinsecamente ligado.

Estamos unidos desde sempre e para sempre com um laço que não se consegue desatar. Tu és o meu fruto e sem ti a raiz que sou eu não faz sentido. Eu sou mãe porque tu és filho. E uma mãe é uma raiz de uma árvore que não seca. Para sempre."


Ana ficou comovida ao ouvir aquelas palavras e com um choro rompeu o silêncio que se fizera entretanto no pinhal . Ela tinha estado grávida dois anos antes, mas fez um aborto, porque o namorado da altura não queria ser pai. Acabariam por separar-se, e, até àquela altura, Ana tinha a convicção de que a decisão de abortar tinha sido a pior que tinha tomado na sua vida.

Enquanto chorava compulsivamente e repetia em voz baixa que ao menos hoje teria um filho, uma mulher assomou à janelita debruada a azul. Tinha um bebé ao colo.

Ao ver Ana de cócoras a chorar, a dona da casita branca pousou o filho no berço e foi à rua confortá-la. Duas mulheres que não se conheciam unidas naquele instante por um laço invisível que não sabiam descrever. Houve um abraço e naquele momento as cigarras voltaram a cantar no pinhal.

A partir daquele dia Ana não foi mais à praia sozinha. A partir daquele dia Ana ganhou novos amigos. E, verdade seja dita, naquele mesmo dia viria a conhecer aquele que hoje é o pai dos seus quatro filhos - o irmão da mulher da casita branca com janelas debruadas a azul e um bebé ao colo.

terça-feira, 10 de junho de 2014

O caixote do lixo que era uma cama

Já passava das onze da noite quando Ana acabou de arrumar a cozinha. Depois de um dia de trabalho, ir buscar os miúdos à escola, dar banho a ambos, ajudar a fazer os trabalhos de casa, fazer o jantar e toda a lengalenga de um dia normal, ela estava estourada e o que mais lhe apetecia era cair redonda na cama. Só que ainda tinha que passar roupa a ferro.

Quando ia pegar na tábua de engomar levou a mão à cabeça ao lembrar-se de que não tinha despejado o lixo. Ainda por cima, no dia seguinte de manhã só o conseguiria fazer com recurso a um exercício de malabarismo, tal era a quantidade de coisas que tinha de levar para a festa da escola do filho mais novo. Pousou a tábua e foi espreitar os miúdos. Pareciam dois anjinhos a dormir. Não haveria problema de dar um pulo à rua para despejar o lixo.


A descer as escadas, a cabeça de Ana ia a ferver de pensar que ainda tinha tanta coisa para fazer antes de ir dormir. E o marido que nunca mais conseguia mudar de emprego para deixar de trabalhar à noite. Com tanto pensamento a correr de um lado para o outro, Ana nem pensou no que estava a fazer e deixou cair as chaves de casa para dentro do contentor junto com o saco preto.


- Era o que me faltava agora, desabafou em voz alta.


Esticou o braço mas não conseguia chegar aos sacos. Esticou o outro, e nada. Lembrou-se de saltar para dentro do contentor, mas hesitou. Olhou em volta, observou as janelas dos prédios onde havia luz. Ninguém parecia preocupado com o que se passava na rua. 


Decidiu levar a sua ideia avante. Empoleirou-se no papelão que ficava ao lado do contentor do lixo indiferenciado, sentou-se lá em cima, e preparava-se para saltar para dentro quando viu no meio dos sacos uma mão aberta com as suas chaves. Ana deu um pulo com o susto.

- Não se assuste que eu não lhe faço mal, minha senhora. - disse uma voz de criança que vinha de dentro.


Ana viu uma cabeça com caracóis castanhos, um rosto de pele morena e uma roupa esburacada. Era um rapaz do tamanho do seu filho mais velho, com uns nove anos. O único aspecto cómico daquela visão era uma casca de banana nos ombros da criança. 


Como mãe, Ana não consentiria que uma criança procurasse comida num caixote do lixo e decidiu levá-lo para casa. Dar-lhe banho, roupa, comida. Uma cama, um lar.

Não foi fácil convencê-lo a subir. O rapaz tinha fugido de casa há umas semanas, depois de os pais morrerem num acidente de carro. Ele não queria ir para um orfanato, dizia, pedindo para ela o deixar ficar a dormir dentro do caixote do lixo. Após muitos argumentos e promessas lá o convenceu a subir.


Quando o marido chegou a casa, Ana estava a dormitar sentada no chão, ao lado do sofá onde uma criança dormia. Acordou a mulher para saber o que se passava. Quem era o miúdo. 


Apesar de achar que a ideia dela de adoptar a criança era de doidos lá assentiu, pensando que ela iria acabar por desistir. A verdade é que não só não desistiria, como acabaria por consegui-lo.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Viajar de avião faz mal aos adultos

Acordou com o som da televisão. Parecia que estava a ouvir desenhos animados, mas não percebia nada do que diziam.

Tentou abrir os olhos, mas tinha as pálpebras tão pesadas que só o conseguiu a custo. Viu uma luz branca diferente do habitual do lado da janela e a árvore que via na rua também não era a mesma do costume. Só então é que se lembrou de que não estava em casa.

Foi nessa altura que ouviu uma gargalhada sonora aos pés da cama. Levantou-se de um salto e viu os pais sentados no chão. Estavam a olhar para a televisão como duas crianças. Aquele cenário não fazia sentido para ele. Nunca tinha visto os pais abraçados, sentados no chão, a ver desenhos animados. Ainda por cima numa língua estranha, não percebia nada do que a televisão dizia. E ele, que tinha oito anos, foi o último a acordar. 

Terá sido da viagem de avião que ficou tudo ao contrário ou aqui é assim, questionou-se. Ou então é por estarmos num quarto de hotel, pensou. Nunca tinha dormido fora de casa antes desta viagem.

Estava tão espantado que nem sequer se tinha levantado ainda da cama quando os desenhos animados foram substituídos na televisão por paisagens de neve e pessoas a fazer esqui. Felizmente a mãe levantou-se nesse momento para ir à casa-de-banho e iria responder a todas as dúvidas, pensou boquiaberto.

Afinal a mãe explicou apenas que ela e o pai estavam felizes por recordar que foi naquele quarto de hotel em Moscovo que estavam quando a cegonha o veio entregar dentro de uma cestinha. Virou as costas e fechou a porta da casa-de-banho. Iuri ficou ainda mais baralhado.

Se os bebés são fabricados quando os pais ficam juntos na cama com a porta do quarto fechada à chave, como o Vitinho me disse lá no recreio da escola, por que é que eu tive que vir de uma cegonha?  Será que eu sou russo então? É por isso que tenho este nome diferente dos meus amigos? Mas se fosse também percebia o que dizem na televisão! E na Rússia há cegonhas? Pensava que a neve que está lá fora as matava todas!

Quis pôr todas estas perguntas ao pai, mas ele passou em silêncio e foi ter com a mãe à casa-de-banho. Quando voltaram, Iuri ainda olhava para a televisão, estranhando umas letras esquisitas que apareciam em rodapé.

Os pais tiveram que gritar para que ele acordasse daquela espécie de sonambulismo sentado na cama. Tinha que se vestir e despachar depressa que ainda havia um avião para apanhar para outro país.

A ditadura dos adultos é uma seca. Podem fazer e dizer tudo o que querem e depois passam parte do tempo a ignorar o que as crianças dizem, lamentou-se em voz baixa. Tentou pedir ajuda para abotoar a camisa, mas os pais pareciam mais interessados em vestir-se um ao outro.

Desceram apressados para tomar o pequeno-almoço junto com as irmãs mais velhas, que tinham ficado noutro andar do hotel. Pelo menos há alguém que fica feliz de me ver, pensou enquanto elas o abraçavam e beijavam. Pelo menos nem todos os adultos ficam idiotas quando se viaja de avião!

O pior foi mesmo quando os pais o quiseram obrigar a comer cereais com leite. Tudo tinha um sabor horrível, nada igual a Portugal. Ainda por cima queriam convencê-lo de que o leite tinha vindo dos Açores e que aquele sabor era da longa viagem que tinha feito. Ainda bem que os pais foram juntos à casa-de-banho. A irmã mais velha comeu aquilo tudo enquanto o diabo esfrega um olho. Em troca, deu-lhe um pacote de bolachas de chocolate que tinha trazido de casa.

Enquanto devorava aquele manjar o mais rápido que podia para não ser apanhado pelos pais, Iuri só pensava que os pais tinham ficado doidos com aquela viagem. Andam sempre agarrados, vão à casa-de-banho ao mesmo tempo, mal falam e querem obrigá-lo a fazer tudo sem dar explicações em troca.

Demorassem os pais mais um bocado a chegar à sala do hotel e Iuri pensaria que todos os males do mundo vinham das viagens de avião. Ainda por cima as férias mal tinham começado.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Vi-te e não precisei do Facebook

Agora há umas páginas de Féizebuqui - ou lá como isso se diz - que servem para encontrar pessoas na Interneti que se viram num sítio e que podiam ser almas gémeas.  Vi-te no comboio, Vi-te no autocarro, Vi-te no metro. Se calhar até há páginas Vi-te no hospital e Vi-te na fila da Loja do Cidadão. Não sei, porque não me entendo com essas traquitanas dos computadores. Tenho mais de 80 anos e já não estou para isso. Os meus netos é que estão sempre a falar dessas geringonças. Se calhar a senhora enfermeira também percebe disso, porque ainda é nova.

No meu tempo não era preciso nada disso. Quando era nova não precisei dessas coisas para encontrar o avô deles. É bem verdade que na altura em que o conheci não me aquecia nem arrefecia. Mas ele não desistiu de mim desde que nos vimos pela primeira vez.

Ele trabalhava na loja de tecidos onde eu ia comprar os materiais quando andava a aprender costura, só que nunca o vi lá porque ele andava a fazer entregas em casa das pessoas. Só mais de um ano depois de começar a ir lá é que nós encontrámos.

Fui um dia com a minha amiga Adelaide ao mercado fazer compras para as nossas mães quando um rapaz que ia a sair apressado chocou de frente com ela. Pediu desculpa e ofereceu-se para pagar as duas dúzias de ovos que tinha partido. Eu afinei com ele e disse que era mesmo bom que pagasse, porque era o culpado do acidente. 

Dezenas de anos mais tarde, senhora enfermeira, ele confessou-me que eu ficava mais bonita quando me irritava e foi por eu ser uma rapariga decidida que começou a gostar de mim. Na altura, depois do meu ralhete, ele voltou a pedir desculpa, disse que estava com pressa, e daí a dois dias voltaria para pagar os ovos. À mesma hora e no mesmo sítio.

Que insolência, protestei eu. Que bonito rapaz, suspirou a Adelaide, é pena já ter namorado. Eu não tinha e estava-me nas tintas para isso. Dois dias depois ela estava adoentada e a mãe não a deixou sair de casa. Mas eu não podia deixar de ir só para exigir o dinheiro ao outro.

Quando cheguei ao mercado já lá estava ele com os ovos dentro de um cesto. Trocámos algumas palavras. Já nem me lembro muito bem o que era. Sei que fiquei a saber que ele trabalhava para a tal loja e que ele ficou a saber em que dias e horas eu costumava ir lá. Muito cordial e cavalheiro afinal, pensei eu na altura, é pena a Adelaide não estar cá hoje. 

A verdade é que ela entretanto casou-se e eu fiquei amiga do rapaz, que acabou por me conquistar pelos seus dotes de costura. Sim, que eu detestava aquilo. Depois de casarmos fui trabalhar para a loja de chá em frente aos tecidos e em nossa casa era sempre ele a fazer toda a costura. Um dia conto-lhe o resto da história, porque a senhora enfermeira deve ter mais doentes para ver aqui no hospital.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Pedreiro telúrico

Ele tinha uma força telúrica que se explicava com o simples facto de ter nascido em Trás-os-Montes. Só que ali ninguém sabia nada do seu passado.

Quem olhava para ele via uma fraca figura. Franzino, baixinho, de pulso fino, a cabeça  também pequena e redonda. No cimo do esférico viam-se apenas alguns fios pretos a voar.

No novo trabalho os colegas olhavam de lado para ele naquele primeiro dia. Interrogavam-se como podia um homem daqueles ter força suficiente para erguer sacos de cimento às costas, arrastar baldes de massa e acartar enormes pedras mármores.

Que coisa estranha, era o pensamento que ia em todas as 17 cabeças que ali estavam. Ainda que o patrão o contratasse como pintor ou canalizador compreenderiam. Mas contratá-lo como pedreiro? Que coisa estranha. Que falta faria o Júlio pedreiro, que estava de baixa por causa do cancro  que lhe apareceu. Que coisa estranha. Em tempo de crise haveria tanto homem forte desempregado e que gostaria de ser contratado como pedreiro. Que coisa estranha. Ainda por cima um homem que tinha acabado de chegar ao Algarve e que ninguém conhecia na vila. Mesmo estranho.

Estavam todos nestes pensamentos quando o patrão gritou perguntando de que estavam todos à espera para ir trabalhar e se ficariam ali toda a manhã especados. O transmontano apertou a mão ao chefe e ainda ouviu um "bom trabalho".

Foi então que começaram as conversas em surdina enquanto se dirigiam para as carrinhas. A caminho das obras e durante todo o dia não se comentaria outra coisa senão aquela estranha contratação e o cumprimento nada habitual do patrão.

A exepção foi mesmo a carrinha onde ia o transmontano. Quatro homens ali iam e nem uma mosca se ouvia. Até que o pequenito rasgou o silêncio e apresentou-se aos colegas, explicando que acabara de chegar de Lisboa, onde trabalhara desde que se fez homem. 

Nascido e criado em Trás-os-Montes, não conhecia outro trabalho que não as obras ou a agricultura num pequeno terreno que tinha em Lisboa. Agora que a mulher morreu e ficou sozinho na capital, decidiu ir ter com a filha, o genro e os netos ao Algarve. Não podia estar mais feliz, porque encontrou um grande amigo de infância assim que lá chegou e ele ofereceu-lhe emprego como pedreiro.

Nessa altura as outras três cabeças ficaram a pensar que estava explicada a contratação. E se é amigo do patrão, o melhor é tratá-lo bem.

No final do dia não se falou outra coisa na vila. São amigos. Veio de Trás-os-Montes. É viúvo. Está a viver em casa da filha. E logo as bocas se abriam de espanto.

A parte em que ninguém acreditava nos três homens  era quando diziam que afinal o transmontano não era tão fraco como se pensava. Naquele primeiro dia ele arrastava baldes de cimento dos serventes, assentava tijolo, pegava no prumo com mestria, acartava sacos de cimento para junto à betoneira. Um verdadeiro pedreiro. Só que ninguém queria acreditar nisto.

Os dias passaram e o transmontano continuava o bom trabalho. Já tinha conquistado a confiança dos colegas, mas na vila ninguém acreditava. Achavam que era apenas medo de serem denunciados ao patrão pelo novato. Quando souberam que na semana seguinte o transmontano iria trabalhar nas obras da igreja da vila as viúvas da vila traçaram um plano.

Na segunda-feira às oito da manhã lá estavam todas à volta da igreja com o pretexto de que precisavam de acompanhar as obras para ver se tudo estava bem com os santos ou se os homens precisavam que elas fossem chamar o padre para dar alguma indicação. Os homens estranharam, mas encolheram os ombros e puseram mãos à obra.

Bastaram algumas horas para ficarem todas apaixonadas por aquele transmontano franzino de força inesperada. Era vê-las com os calores em pleno mês de janeiro, a abanarem-se com as mãos como se fosse agosto. E a partir daquela altura era vê-las à luta para conquistar o coração do pedreiro inusitado.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Quem ama não bate

Eu não merecia ser tão mal tratada pela vida.

O meu homem trocou-me por uma gaiata uns anos mais nova e está a viver em casa dela. Ele estava em minha casa há um ano. Dava-lhe da pouca comida que tinha, lavava-lhe a roupa, passava-a a ferro, e o pior de tudo é que entregava-lhe a minha vida, o meu coração. Partilhei a minha vida com ele em tudo.


Zanguei-me com os meus quatro filhos por causa dele. Eles não queriam que eu vivesse com um homem que tinha sido drogado, que bebia vinho ao pequeno-almoço, que vivia do rendimento mínimo. Mas eu não quis saber.

Sempre estive habituada a apanhar porrada. Primeiro foi do pai deles. Eu punha o prato quente de comida na mesa e levava com ele na cara ou pelo chão acabado de limpar. 


Apanhava de manhã porque estava a chover, ou à noite porque tinha feito sol. Apanhava todos os dias de todas as formas e feitios. Com o cinto, a colher de pau, a vassoura, o jarro de vinho, a travessa da comida, ou o que estivesse mais à mão. Eu achava que era normal. 

Foram trinta anos a apanhar até que ele decidiu trocar-me por uma com idade para ser nossa filha. Foram viver juntos para a rua de baixo. E eu fiquei sozinha e com saudades dele. Pelo menos havia alguém que se lembrava que eu existia. Mesmo que também me batesse de vez em quando.

Os meus filhos diziam que não iam lá a casa enquanto eu não mandasse o pai embora, que eu não podia deixar que ele me batesse. Mas quando ele foi embora também não me vieram ver. Nunca. Fiquei sozinha. Eu e o meu trabalho de lavar escadas e obedecer a patroas de nariz empinado que acham que sou propriedade delas. Fiquei sozinha. Só sabia dos meus filhos quando lhes telefonava nos anos e no Natal.


Quando já estava amarfanhada pela solidão veio ele. O meu homem. Tinha um passado forte, mas gostava de mim. Ao princípio dava-me carinho, depois dava-me porrada. E eu que vivi tanto tempo sozinha achei que era este o meu destino e que era assim que eu era feliz. Porque sozinha também não era feliz.


Mas agora ele deixou-me. Trocou-me pela outra. É a segunda vez que isto me acontece. Acham que eu merecia tanto sofrimento nesta vida?  Eu acho que não. E é por isso que vou acabar com ela. Nem sequer o meu nome condiz comigo.


A quem encontrar esta carta peço uma coisa que eu nunca tive coragem, nem saber para fazer. Dizer a toda a gente que uma mulher, um ser humano, não pode aceitar ser agredido pelo marido, namorado, mulher ou namorada.


Ninguém é de ninguém. Se se gosta de alguém tem que se ter respeito por essa pessoa. Na realidade, acho que só agora vejo isso com a clareza de quem está à beira do abismo. Espero que outras e outros vejam isso mais cedo. Quem gosta não trai. Quem gosta não bate. Quem gosta não maltrata. Nunca se esqueçam disso.

O meu nome é Felisbela e tinha 63 anos.

terça-feira, 6 de maio de 2014

A casa

Na minha rua havia uma casa com muitas janelas e com um ar fantasmagórico. Um dia em que estava parado no semáforo em frente contei no segundo andar cinco janelas do lado da rua principal e mais sete do lado da minha rua. Todas alinhadas com outras tantas janelas no primeiro andar e no rés-do-chão. Porém, em seis anos que lá vivi nunca vi vivalma em qualquer uma daquelas aberturas para o exterior. E as portadas estavam sempre fechadas. 

Sempre que parava no semáforo e não tinha a minha mulher a buzinar-me aos ouvidos, nem os putos a discutir um com o outro, eu punha-me a imaginar as histórias que aquela casa poderia guardar. Mas sem nunca saber o que esconderia.

Até ao dia em que o meu filho mais novo, na altura com sete anos, chegou a casa esbaforido. Andava de bicicleta com os amigos num final de tarde quando se lembraram de abrir o portão e entrar. Tal como toda a gente adulta que vivia naquela rua, também as crianças tinham curiosidade em relação ao casarão desabitado. Só que eles decidiram entrar na casa. 


Rodaram a chave de ferro e os trincos chiaram na fechadura enferrujada. Foram entrando em silêncio pelo pátio e encontraram uma das portas encostadas. Entraram os cinco, pé ante pé, fazendo o soalho gritar e os copos nos armários tinitar. O pó fez com que um dos miúdos espirrasse e foi nessa altura que ouviram uma voz forte gritar.

- Quem está aí? Quem ousa perturbar o meu descanso eterno?


Foi nesta altura que os miúdos desataram a correr para a rua com quanta velocidade podiam. Quando chegaram à estrada repararam que faltava um deles, mas nenhum tinha coragem de voltar atrás.


Ficaram uns minutos em suspenso sem saber o que fazer até que o meu Dudu se lembrou de que o pai - portanto eu - era polícia. O fantasma que prendeu o Cajó iria certamente obedecer-lhe e libertar o amigo. Ao ouvir isto olhei para a minha mulher, que me encorajou a ir ao casarão. Calcei-me rapidamente e saí.


Já era de noite quando cheguei ao portão. Os miúdos ainda estavam na estrada quase em estado de choque. E eu, que repetia de mim para mim que ia correr tudo bem, entrei no pátio sem pinga de sangue. Olhei mais uma vez para trás e senti-me impelido a seguir em frente com a minha lanterna na mão.


Bati à porta. Uma, duas, três vezes. Chamei "ó da casa", bati palmas, gritei a avisar que iria entrar. Até que empurrei o rectângulo de madeira envelhecida e apontei com a luz para dentro.


- Cajó? Estás aí?


Nada de resposta. Entrei no escuro.


Ouvi um interruptor e logo se fez luz. 


À minha direita estava um homem em cadeira de rodas. Parecia ter mais de cem anos. Tinha um ar grave e triste, mas notava-se que estava assustado e surpreendido com a minha presença. O rosto era-me familiar.

Na mesma fracção de segundos em que percebi quem era, o Cajó saiu de trás de um sofá à minha esquerda e veio agarrar-se às minhas pernas.


- Eduardo Miguel, podes explicar-me o que se passa? Quem é esse miúdo e o que estão a fazer na minha casa?


O velho era o meu padrinho, que não via há mais de vinte anos. Quando a minha madrinha morreu ele quase enlouqueceu e deixou o nosso Algarve. Nunca disse a ninguém aonde ia. Nunca mais deu notícias.


Como já na altura tinha uns 80 anos, toda a gente achou que teria morrido daí a algum tempo. E pensar que foi preciso a polícia me colocar aqui em Tomar e que foi preciso a audácia dos miúdos para que nos viéssemos a reencontrar. 

Ainda fomos vizinhos durante mais dois anos. Voltei agora à cidade e vi que o casarão tinha sido restaurado e transformado numa pousada. À entrada está a placa com o nome "Pousada O Velho".