terça-feira, 29 de abril de 2014

Comboio

Enquanto ela olhava distraidamente para quem entrava no comboio, ele assaltou-a com o seu olhar fulgurante, vislumbrou um lugar vazio e veio sentar-se à frente dela. E assim ficaram longo tempo a cruzar olhares, que isto das longas viagens de comboio requer tempo e paciência.

Deu para observar bem os olhos azuis dele, límpidos como uma pequena lagoa ao nascer. Deu para observar a barba rasteira e bem semeada, a roupa descontraída e jovem. Dela deu para observar os lábios perfeitos, como uma rosa quase-a-deixar-de-ser-botão. Os olhos grandes e mansos. Os montes semeados no peito, lado a lado, do tamanho das mãos dele.


Estavam demorados nisto quando o lugar ao lado dela ficou vazio. Ele sorriu-lhe sorrateiro e sentou-se ao pé dela. André, era ele. E eu? Joana - respondeu.


Convidou-a para ver um filme com ele no telemóvel, e foi a partilhar os auscultadores que lhe agarrou a mão pequena, macia e delicada. Joana sentiu uma paz imensa e uma felicidade que não se explica, sobretudo porque tudo isto era estranho com um estranho que lhe parecia familiar. Deve ser de outra vida que o conheço - pensou.

Quando o filme acabou estavam quase a chegar ao destino e foi então que perceberam que iam para a mesma cidade. Afinal ele era amigo de uma amiga dela e já se tinham visto numa festa de aniversário. Só que nenhum dos dois se lembrava disso. Foi a partir deste dia que não mais se separaram.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

25 de Abril e solidão

Os meus vizinhos não têm rosto, não têm voz, não têm nome. São entidades abstractas que habitam nos cubículos à minha volta, aos quais convencionaram chamar de apartamentos. E eu não os conheço. Se os vir na rua não os conheço.

Eu praticamente só vejo o que está dentro destas quatro paredes. Há dois anos que não saio de casa, só vou à rua uma vez por dia para comprar pão. A que mais pode aspirar uma mulher sozinha de 93 anos? É viver para afugentar a morte.

Muita gente diz que eu não devia morar sozinha. Mas enganam-se. Eu não vivo sozinha, vivo com a minha solidão. E ninguém me pode tirar dela. A solidão mata e corrói-nos por dentro aos poucos. Leva-nos a tranquilidade, a harmonia, a esperança, leva-nos até a fala. Em troca traz-nos o medo, a insegurança, a intranquilidade. Ficamos ensimesmados, indiferentes aos outros, tornamo-nos bichos do mato. E já não estranhamos quando nós sentimos sozinhos no meio de uma multidão.

Ninguém nos pode tirar a nossa solidão. Cabe-nos a nós próprios lutar para sair dela, reinventarmo-nos, deixarmos os caminhos antigos, ir ao encontro dos outros e reaprender a sorrir com a alegria de quem vê uma coisa linda pela primeira vez. Viver cada momento como se fosse o último, porque amanhã pode ser tarde.

Mas como fazê-lo se o meu corpo não deixa? A esta pergunta e à pergunta de a que mais pode aspirar uma mulher sozinha de 93 anos eu respondo que não me conformo. A partir de agora não me conformo.

Se não tenho dinheiro para fisioterapia vou falar com o meu médico, porque o Serviço Nacional de Saúde tem que me dar resposta. Não é por ser velha e pobre que tenho que viver isolada com a minha parca reforma. Não foi para isso que os meus filhos ajudaram a fazer Abril. Não foi para isso que eu lutei na clandestinidade e fui presa pela PIDE. Todas as torturas, todo o sofrimento, toda a clausura não pode ter sido em vão.

Agora que é Abril de novo, agora que passam 40 anos recordo todas as alegrias a seguir à revolução. O primeiro 1.º de Maio, o PREC, o Verão Quente, o 25 de Novembro, as primeiras eleições em que votei e a sensação indescritível da liberdade.

Depois veio a CEE, os fundos europeus, a loucura em que o meu marido se meteu ao investir numa grande empresa, o dinheiro que ganhou para depois tudo perder na loucura dos casinos. Perdemos até a casa. E ele matou-se. Os filhos emigraram.

Eu a tudo resisti. Agora vivo numa magra casa, quase de favor, sozinha, sem grandes esperanças de futuro. De novo ergo-me e vou lutar. Sair da solidão. Uma coisa é certa meu querido Abril: tu nunca morrerás dentro de mim. 25 de Abril sempre; sozinha nunca mais!

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Lá em cima

- Já pensaste em como é a vida quando chegarmos lá acima? – perguntou ela enquanto bebericava chá de limão de uma grande chávena de porcelana comprada na loja dos chineses.

- Lá acima? Quando chegarmos lá acima aonde? – respondeu ele distraidamente ao estalar entre os dentes batatas fritas de pacote, sem descolar os olhos da televisão.

- Ó ‘mor. Deixa lá essa série do Jogo dos Tronos que estou a falar a sério! – e, ato contínuo, agarrou o comando e desligou-a.

- Ok, já percebi. Eu depois ando para trás e vejo a série. Que conversa séria é essa então Lila?

- Nunca imaginaste o que acontece depois de morrermos? Eu penso nisso muitas vezes, especialmente depois de a minha mãe ter morrido. Sempre achei que lá em cima podia haver um paraíso, onde estás sempre descansado, onde não há stresse, onde não precisas de necessidades básicas (comer, dormir, ir à casa de banho) para te manteres vivo porque simplesmente já não estás vivo. Só que desde que acordei hoje tenho uma ideia do que se passa lá em cima que vai mais além. Não sei se foi alguma coisa com que sonhei esta noite ou alguma coisa que já li algures, mas não tenho conseguido afastar esta ideia do meu pensamento durante todo o dia.

- Sim, estou a ouvir-te. Não ponhas esse ar, que eu sou capaz de comer batatas fritas ao mesmo tempo que te ouço!

- Ok, ok. Bem, como ia a dizer, desde esta manhã tenho a impressão de que quando morremos, simplesmente a vida lá em cima é uma réplica desta, uma espécie de espelho, mas com algumas diferenças. Não faças essa cara, que eu explico-te melhor o que estou a dizer. 

A cena é: morres e quando morres passas um portão enorme que é aberto automaticamente. Do outro lado está um nevoeiro assustador, mas és empurrado lá para dentro porque atrás de ti abriu-se um abismo. Lá em baixo podes ver a Terra, pequenina e azul, como naquelas imagens de satélite que costumamos ver. Ao lado, a Lua, branca, redonda e de um brilho baço. Então compreendes que tens que ir em frente. 

O portão fecha-se atrás de ti com um estrondo. E à tua frente o nevoeiro dissipa-se e encontras simplesmente uma espécie de réplica da Terra, onde há árvores, pássaros, sol, montanhas, e tudo o que encontras no campo. É como se voltasses a viver de novo. É um mundo igual a este, mas como era no início, sem construções feitas pelo Homem, sem guerra, nem ódio, nem pobreza, nem fome. Porque não precisas de comer, não precisas de trabalhar, não precisas de te cansar, não há competição entre as pessoas, não há rivalidades, nem invejas, nem qualquer coisa que seja má. É um paraíso, um mundo de bondade, onde todos são iguais e onde podes circular livremente – mas sempre a pé – e escolher se queres passar o tempo na praia ou na neve, por exemplo. Há de tudo o que há cá em baixo de maravilhas naturais.

- Que ideias mais estranhas! Mas espera aí Lila, como é que as pessoas se vestem? E têm casas? E têm filhos? E não há batatas fritas lá?!

- Não sejas parvo, se não comes, não precisas para nada de batatas fritas, nem te lembras delas, porque não há prazeres desses. Nem sequer há família, nem sexo, nem atracção física. As pessoas fazem amigos com quem passam o tempo ou então estão sempre a conhecer pessoas novas. Quanto ao vestuário, há uns géneros de quiosques onde podes ir buscar roupa, tudo de graça, mas limitado a um máximo de dez peças de roupa por pessoa, até porque guardas sempre tudo numa mochila que usas nas tuas viagens. Mas não precisas de casacos para andar na neve, porque não tens frio. Já morreste, não tens desse tipo de situações. Tenho a impressão de que se usa roupa mais para 'enfeitar'.

- E casas?

- Casas, casas não há. São uns pequenos edifícios simples, onde podes ver a televisão  com mais de mil canais cá de baixo em várias línguas – e consegues compreendê-las todas, o que te permite falar com quem quer que te cruzes lá em cima. E ainda podes ir à net terrestre ríres-te com aquilo que os vivos vão pondo por lá, sem imaginarem como é aquilo lá em cima.

- Lá em cima, lá em cima. Mas, ó Lila, o lá em cima não tem nome? Chama-se paraíso ou não? E toda a gente vai para o paraíso, mesmo os maus? Pfff...

- És mesmo estúpido às vezes. Estás para aí a gozar com coisas sérias. Vou contar-te a verdade. Foi a minha mãe que me disse isto antes de morrer, na altura em que acordou do coma. Só que deixaram-na voltar para trás, porque precisava de fazer umas coisas cá em baixo antes de ir lá para cima em definitivo. E como esteve lá pouco tempo, houve coisas que não me conseguiu explicar.

- Isso é outra coisa que nunca percebi. E que me dá ainda mais vontade de comer batatas fritas. Por que raio há pessoas que dizem que morreram e viram isto e aquilo, mas depois voltaram para cá e ainda viveram, quando a maioria simplesmente morre. Ó Lila, sinceramente, ainda gozas com o Jogo dos Tronos, mas tu é que tens andado a ver séries a mais. Tu acreditas nisso que a tua mãe te disse quando acordou do coma? Não me leves a mal querida, mas ela ainda estava meio variada. Não me digas que acreditas mesmo nisso que me acabaste de dizer?

- Não sei ‘mor. Pelo menos quero acreditar que um dia ainda vou encontrar um mundo perfeito. Cá em baixo ou lá em cima.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Almada

Há dois dias que o meu primo Timóteo não consegue dormir. O problema começou no dia em que a minha tia Ivana lhe pediu para ir a um novo supermercado gourmet comprar uma pasta de fígado repugnante, de maneira que foi obrigado a uma longa viagem de transportes públicos desde Almada até à zona do Saldanha, em Lisboa. Apanhou autocarro, barco, metro e com tanta viagem acabou por ficar zonzo. E a lamentar não ter levado um livro para ler. 

No metro do Saldanha esteve sentado num banco um bom bocado para descansar do peso dos sacos das compras e fixaram-se-lhe na memória as frases que leu nas paredes: 


"Entrei numa livraria e pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam. Não duro nem para metade da livraria. Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido." 

O rapaz ficou a matutar naquilo e ficou ainda mais chateado por não ter levado um livro para esta penosa viagem.

Esta manhã, estava eu no meu palácio de algodão - a minha cama - a dormir que nem um rei quando começo a ouvir Tony Carreira - sim, sou um rapaz de gostos musicais variados. Era o parvo do Timóteo - o meu primo - que lá por não dormir acha que toda a gente no mundo tem insónias. Eu felizmente só tenho uma Sónia, que basta uma mulher para me moer o juízo. Como estava a dizer, telefonou-me a altas horas da madrugada porque queria saber quem era o autor das frases que viu no metro.


- Achas que tenho cara de Google ou o quê?


Depois do meu protesto ele lá se desculpou que nunca se entendeu com computadores e que não tinha dinheiro para pagar a conta da internet.


- 'Tá bem abelha, respondi. Mas não me digas que nesses livros todos que tens para aí nunca leste essas frases do Almada Negreiros? E depois tu é que és o culto da família... E para a próxima liga para casa das pessoas a horas mais decentes que são oito da manhã!!!!

domingo, 13 de abril de 2014

Fato vermelho

Há vários anos, desde que me mudei para ali, que o via todos os dias de manhã cedo. Quando eu ia para o trabalho, ainda antes do sol nascer, ele passava por mim altivo, de cabeça no ar, como quem se acha o melhor do mundo, com o seu fatinho vermelho. 

Usava-o durante o inverno. Fora do tempo frio só o usava se estivesse a chover. Deve ser impermeável, pensei eu da primeira vez que passou por mim com o fato vermelho num dia quente em que chovia a potes.

Havia dias em que o via ao fim da tarde também, a passear junto ao mercado que fica perto da minha casa. Nessas ocasiões encontrava-se com um amigo que também tinha um fato vermelho. Olhavam-se longamente quando se encontravam, mas nunca abriam a boca. Era como se se compreendessem apenas pelo olhar. E eu que passava ficava a invejar aquela amizade simples e franca entre duas criaturas iguais, que só diferiam no tamanho.


Tanto de manhã cedo, como à tarde, ele ia sempre acompanhado por uma mulher. Ela não devia ter mais de 55 anos, mas algumas rugas vincadas no rosto amarelado, o ar atarefado, o cabelo grisalho à Beatriz Costa meio desalinhado e os dentes cansados faziam-na parecer muito mais velha. O que me intrigava nela - e ainda hoje me intriga - é o facto de ela andar sempre de chinelos e de bata. Quer fosse inverno ou verão, manhã cedo ou de tarde, ela usava sempre essa indumentária. No início pensei que fosse empregada doméstica e fosse sempre passear o cão dos patrões antes e depois do trabalho de casa, mas um dia em que os vi à noite a passear fez com que a minha tese fosse por água abaixo.


Nunca falei com ela para desfazer a minha curiosidade. Como não gosto de falar da minha vida com os vizinhos também não lhes pergunto nada para não dar aso a que me façam perguntas sobre a minha vida.


Só por uma vez a ouvi dizer ao cão do fato vermelho: "Franjinhas, não cheires esse pacote que isso é lixo". E ele, de orelhas pretas frisadas, lá passou adiante do pacote de leite com chocolate que jazia na calçada em frente ao mercado.


Andei cinco anos a ver o cão do fato vermelho e a mulher a passear sem nunca descobrir onde moravam. Até que um dia ao final da tarde de outono ia a contornar o meu prédio e olhei para a janela de sacada aberta no rés-do-chão da esquina. Com o focinho de fora lá estava ele, sentado, a apanhar o frio do sol posto com o seu fatinho vermelho. Do outro lado da rua vinha a mulher com a sua bata e chinelos, trazendo na mão um saco de supermercado. Afinal sempre viveram no meu prédio, por baixo de mim, e eu nunca tinha percebido. A vida nas cidades é assim, para o bem e para o mal.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Impertinência

Pessoas impertinentes. É isso que ela mais detesta, e é isso que acaba de responder no questionário que encontrou na revista cor-de-rosa que comprou na estação para se entreter na viagem de comboio. 

Primeiro, entreteve-se a olhar para as silhuetas e formas do exterior que iam aparecendo recortadas nas janelas, consoante a velocidade que o maquinista ia imprimindo. 

Depois, foi abrindo e semicerrando os olhos várias vezes de seguida para brincar com a luz de fim de tarde de fim de inverno que entrava pela janela. E quando pensava que detestava viajar de comboio, apesar de o fazer raramente, Carla lembrou-se de imaginar quem eram as outras pessoas que iam na mesma carruagem. De onde vinham, para onde iam, que idade, nome, profissão, aspirações, medos e frustrações. Quando achou que nada mais lhe restava imaginar pegou na revista. Rabiscou o questionário, desdenhou dos resultados idiotas e acabou por adormecer.

Só acordou com a mão do revisor a abanar-lhe o braço direito. Tinha finalmente chegado ao Porto. Mas não tinha ninguém à espera. Tinha saído de casa zangada com o namorado/marido e quis fugir para onde ele nunca se lembrasse de a procurar. Desaparecer por uma semana ou duas. Ser quem a rotina e o medo nunca a deixaram ser. Aquela impertinência com que a tinha tratado foi a gota de água.


Para começar foi comer um bom prato de tripas numa tasca que encontrou perto da estação. A seguir apanhou um táxi e foi ao Via Catarina entupir-se de compras. "Quando o anormal do Zé se der conta de que lhe gastei o dinheiro todo do cartão aqui no Porto já eu estou a milhas", foi o que pensou Carla. Madrid, Paris, Berlim, Viena, São Petersburgo (se o dinheiro ainda chegasse) estavam nos planos.


Num hotel de quatro estrelas tomou um bom banho e partiu para a noite decidida a gastar-se com o homem mais atraente que lhe desse conversa no bar da moda que lhe recomendaram na recepção.


Só não contava encontrar lá o seu primeiro namorado, que a tinha deixado anos antes por ela ter recusado um emprego na cidade para poder continuar a viver na serra com as ovelhas e cabras do negócio de família.

sábado, 5 de abril de 2014

Dança da chuva

Com uma passada incerta e um olhar errático, ele calcorreava a rua de uma ponta à outra. A barba longa e os olhos raiados de sangue, a roupa envelhecida e desgastada, os sapatos rotos e largos, tudo indiciava que era um sem-abrigo.

Dei por mim nestes pensamentos enquanto estendia uma e outra peça de roupa. Estava a anoitecer. A alegria das molas de roupa coloridas contrastavam com as cores do crepúsculo. A alegria da correria das minhas crianças entre a sala e o quarto contrastavam com o ar desolado daquele homem que vagueava pela rua.


Parece triste. Mas que direito tenho eu de invadir os seus pensamentos? Decerto não sabe onde dormir esta noite ou o que comer. Coloco-me no lugar dele e penso como será viver assim, mas a verdade é que não consigo. Ainda por cima começa a chover...

O melhor mesmo é aproveitar as coisas boas da vida, mesmo que pareçam banais. 


Acabo de estender a roupa e apanho um dos meus índios que correm pela casa. Num abraço contínuo com um sorriso enorme apanho o outro índio. E até ao jantar que está no forno estar pronto não paramos de correr de uma ponta à outra do corredor, enquanto fazemos a dança da chuva, ou melhor, da simples alegria de viver.

terça-feira, 1 de abril de 2014

1 de Abril

- Vera, hoje é o dia preferido da minha irmã Isabelinha! - disse, apontando para o calendário.
- Hoje? Mas porquê? - estranhou a amiga da irmã da Isabelinha, que mal a conhecia.

De facto, a irmã tinha razão. Não era o dia de aniversário, não era o dia de Natal, o Domingo de Páscoa, nem mesmo o Carnaval que deixavam a Isabelinha feliz, mas sim o dia das mentiras. A 1 de Abril a Isabelinha podia inventar as histórias que quisesse sem qualquer problema - pelo menos era nisso que acreditava.

Os pais sempre deram às filhas uma educação rígida e ambas aprenderam desde cedo que uma mentira tinha consequências. Depois de muitas nódoas negras feitas pelo cinto do pai e pela colher de pau da mãe, aos oito anos Isabelinha acabou por abandonar o hábito de dizer mentiras, embora no seu íntimo tivesse prometido a si mesma tornar-se escritora de ficção quando fosse crescida só para poder inventar as histórias que quisesse.

Porém, Isabelinha acabou por tornar-se professora de equitação. Apaixonada por cavalos desde pequena, era esta a única profissão para a qual tinha aptidão. Aos 15 anos, admitiu perante o espelho - enquanto se maquilhava às escondidas dos pais - que não tinha grande talento para as letras e seria melhor esquecer a ideia de tornar-se escritora. Foi nessa altura que teve uma ideia que a distraiu, deixando escorregar o estojo de maquilhagem da mãe e entornando o pó colorido das sombras por todo o lavatório. O dia seguinte seria especial a partir desse ano. No dia 1 de Abril poderia inventar as histórias que quisesse e dar largas à sua imaginação. Teriam era que ser verosímeis para que caíssem na esparrela.

Nessa noite mal dormiu a pensar em mentiras e partidas que pudesse gizar para o dia seguinte. Ao pequeno-almoço começou por atirar que tinha ouvido dizer que a vizinha da frente tinha a casa hipotecada por ter muitas dívidas. Ainda por cima tinha andado a fugir ao fisco e o marido andava metido no tráfico de droga. Ao ouvir isto, o pai da Isabelinha deixou escorregar a chávena de café com leite e inundou o chão com o líquido acastanhado. Não podia crer que o melhor amigo fosse um bandido, e começou a gritar que não queria que a filha repetisse aquela conversa em mais lado nenhum. Aflita, a Isabelinha viu-se obrigada a dizer que era apenas uma mentira que tinha inventado por ser dia 1 de Abril. E pensou com os seus botões que tinha de pensar noutro tipo de mentiras.

No ano a seguir, telefonou para a mãe à hora de almoço a dizer que tinha encontrado a irmã a comer um bolo cheio de creme na escola, contrariando a dieta prescrita pelo nutricionista. Só à hora do jantar, enquanto a mãe se preparava para o ralhete à filha obesa ao mesmo tempo que esta olhava desconsoladamente para o prato de ervilhas com uma posta de pescada cozida, a Isabelinha encheu-se de compaixão e resolveu contar a verdade. Afinal, o almoço da irmã na escola tinha sido a mesma comida que agora estava à sua frente.

À medida que os anos iam passando, as mentiras de 1 de Abril eram cada vez mais refinadas. A família já sabia com o que contava naquele dia do ano, por isso desconfiava de tudo o que a Isabelinha dizia naquelas 24 horas, embora fingisse sempre que acreditava. Até ao dia 1 de Abril de 2014.

A Isabelinha tinha acordado várias vezes durante a noite com o choro do filho bebé e mal tinha pregado olho, mas preparava o pequeno-almoço com a alegria que lhe era característica no dia que mais gostava em todo o ano. Já tinha pensado na mentira que inventaria para o marido ao jantar. Só não tinha ainda decidido como surpreender os pais e a irmã. Mal sabia o que a esperava.

Ao sair de casa para ir levar o filho ao infantário, notou que o pneu dianteiro esquerdo do carro se tinha furado. Telefonou para o marido para que ele voltasse para trás e lhe mudasse rapidamente o pneu. O problema é que ele pensou que fosse mais uma das invenções dela de 1 de Abril e despachou-a, frisando que desta vez não cairia nas mentiras dela.

Uma hora depois era ver a pobre da Isabelinha com o fato branco cheio de óleo e lama, ainda com o macaco na mão, o filho a chorar na cadeirinha, e o telemóvel dela a tocar insistentemente. Era o chefe dela, a lembrar que a reunião com os novos sócios do hipódromo ia começar daí a dez minutos. Isabelinha desculpou-se e contou o motivo do atraso, só que o chefe pensou ser uma mentira de 1 de Abril que usava para fugir àquela secante reunião. Reagiu secamente a avisar que estava despedida e desligou-lhe o telefone na cara. Desfeita em lágrimas, ligou num pranto à mãe. Lembrando-se do dia que o calendário assinalava, a mãe respondeu que já estava farta das mentiras dela e desligou o telemóvel sem apelo nem agravo.

O bebé chorava cada vez mais ao ver a mãe em desespero, e a pobre Isabelinha decidiu recorrer ao avô da criança. Não teve sorte. O pai dela ripostou que não era hora para mentiras e que já estava atrasado para o encontro com os investidores chineses do visto dourado. Fula da vida, Isabelinha atirou com o iPhone pela calçada fora e deixou-se cair no chão a chorar desalmadamente.

Ao contrário do resto da família, a irmã ex-obesa (que agora era modelo fotográfico) adorava o entusiasmo da Isabelinha naqueles dias e arrastou a amiga Vera para irem a casa da irmã, não sabendo que naquele dia ela tinha de entrar mais cedo no hipódromo por causa da reunião com os sócios ricaços. Foi o que valeu. Ao chegar a dois quarteirões de casa da irmã encontrou-a prostrada no chão, o sobrinho roxo de tanto chorar, e o carro ainda com o pneu por mudar.

Naquele dia Isabelinha prometeu a si mesma nunca mais inventar mentiras, nem mesmo a 1 de Abril - e também ensinar ao filho a história do Pedro e do Lobo.