Hermenegildo viveu todos os seus 38 anos submetido ao peso do nome,
do qual, aliás, nunca gostou. Na escola sempre fizeram troça dele, mais tarde as
raparigas não queriam nada com ele quando lhes dizia como se chamava, e até chegou a perder alguns empregos por causa disso. Ninguém
queria um empregado de mesa com aquele nome.
Muitas vezes resolvia todos os problemas dizendo que se chamava João,
mas havia alturas em que não podia mentir. Era por isso que a pessoa que
mais detestava no mundo era o seu padrinho. Ao menos se quem lhe deu o
nome se chamasse Vítor ou Pedro - ou até António - a vida dele seria melhor.
Nunca entendeu a estupidez de dar aos afilhados o nome dos padrinhos. E
neste caso foi algo que o marcou para sempre.
Uma vez disseram-lhe que poderia mudar de nome aos 18 anos, mas o
problema é que nessa altura já tinha mais dois anos e o prazo já tinha
passado. Agora, farto deste estigma que lhe desenhou a vida em negativo,
Hermenegildo decidiu escrever uma carta aos mais altos representantes
do país a pedir autorização para mudar de nome.
Direcção do Notariado a
nível nacional, ministro da tutela, primeiro-ministro, Presidente da
República, presidente da Assembleia da República e até ao provedor de
Justiça. Pelo sim, pelo não escreveu também uma missiva em estilo de
lamento para os programas da tarde dos canais generalistas de televisão.
Passaram-se semanas e semanas sem qualquer resposta. E sem que nada
mudasse na sua vida. Até que num dia de outono bem depressiv, em que
Hermenegildo só pensava em se suicidar por toda a sua desgraça de não
ter mulher, filhos, amigos, nem emprego, até que nesse dia em que a
chuva caía a potes e o frio entrava pelas frestas da casita mal
amanhada, até que então bateram à porta.
Pensou serem os miúdos que gostavam
de gozar com ele e só queriam que abrisse para lhe atirarem pedrinhas e
fazerem piadas com o seu nome. Mas logo depois lembrou-se de que àquela
hora os miúdos estavam todos na escola. Voltaram a bater à porta.
Levantou-se do pequeno e velho sofá. Pé ante pé foi até à porta. Não
ouvia nada do outro lado. Só a chuva a bater na calçada. Decidiu rodar a
maçaneta.
Do outro lado estava uma mulher baixa e gorda, de faces rosadas e
cabelos da cor do trigo em fim de Verão. Os olhos eram grandes, vivos,
verdes como a erva dos campos primaveris. Hermenegildo pensou que estava
a sonhar. Estava perante a mulher dos seus sonhos. Ela interrompeu o
silêncio que se fizera durante alguns segundos.
- Hermenegildo? És mesmo tu?
Uma interrogação esboçou-se-lhe nos olhos. Começou a balbuciar sílabas
incompreensíveis, meio a gaguejar. Não sabia o que dizer. Nem sabia quem ela era, nem porque ela o conhecia. Só a cabeça
acenava afirmativamente. Ela pegou-lhe na mão robusta que tremia
encostada à porta.
- Não me conheces? Sou a Tina, andámos juntos na escola. Lembras-te?
Toda a gente gozava com os nossos nomes. Nunca gostei de me chamar
Juventina. Bem, mas o que interessa é que voltei à aldeia e queria
ver-te! Não me convidas para entrar?
Hermenegildo nunca confessara a ninguém, mas sempre teve inveja dela.
Pelo menos o nome dava para abreviar e ela sempre podia responder aos
outros miúdos que se chamava Tina. Só ele é que nunca conseguia
responder às provocações e nada tinha para ripostar. Agora estava
espantado por ela o ter vindo procurar. E por ela se ter transformado naquela mulherona.
A verdade é que ela sempre
gostara dele desde miúdos, só nunca o admitira. Recentemente, tinha tido um
grave acidente de carro, no qual morreu o marido e o filho. Ficou sem
emprego e sem casa. Teve que deixar a cidade grande e voltar a casa dos
pais. Repensou a vida e decidiu rever o seu amor secreto.
Quando Hermenegildo abriu a porta ela viu o homem dos seus sonhos.
Alguns centímetros mais alto do que ela, anafado, com uma barba de três
dias, cabelo encaracolado ruivo e uns olhos que lembravam a terra
acabada de lavrar. A camisa aos quadrados e o colete de caçador exalavam
um cheiro a homem, bem diferente do do falecido marido gerente de banco.
Juventina estava perante o seu príncipe encantado. A sua gaguez e
timidez inicial só serviam para dar a Tina um frémito, um arrepio na
pele que a deixava hirta.
Assim que entraram em casa bastou uma meia-hora de conversa para se
entenderem. Em dois meses estariam casados. Em dois anos teriam um filho
e outro a caminho. Ambos fizeram candidaturas a subsídios para
agricultores e agora viviam do que a terra dava, felizes na casita agora mais bem arranjada.
Ele já nem se lembrava da vida
antiga e da carta que escrevera para várias direcções quando a vizinha
da frente lhe bateu à porta num dia de Verão levando o filho preso por uma orelha. O
miúdo trazia as mãos cheias de envelopes e uma expressão de dor no rosto. A
orelha estava tão vermelha como uma papoila.
A vizinha contou a
Hermenegildo que encontrara no quarto do filho uma caixa com os
envelopes e ele acabara por confessar do que se tratava. Há mais de dois
anos o vizinho tinha pedido ao miúdo que pusesse as cartas no correio,
porque estava naqueles dias depressivos em que não lhe apetecia sair de
casa. Deu-lhe uns trocos para comprar rebuçados e ficou descansado,
porque o miúdo era atinado.
O problema foi que os outros miúdos que
costumavam bater à porta para fazer troça de Hermenegildo estavam à
espreita e ameaçaram o miúdo para que não pusesse as cartas no correio.
Chegaram mesmo a dar-lhe uma bofetada que o atirou com os envelopes pela
calçada fora. Cheio de medo, foi para casa, pôs as cartas numa caixa em
cima do guarda-fatos e acabaria por esquecê-las.
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Solidão
Um quarto de hotel é sempre o expoente máximo da solidão para mim. Estou sozinho entre quatro paredes. E a minha vida é feita de solidão. Dizem que um casamento consiste numa solidão que ampara outra solidão. Neste caso eu não consigo amparar a solidão da minha mulher.
Eu estou sempre longe de casa. O trabalho leva-me todas as semanas a cidades diferentes, a escritórios diferentes e a quartos de hotel diferentes. Mas para mim é tudo igual. O avião é a minha segunda casa. É onde me sinto mais amparado e mais feliz quando estou longe da minha verdadeira casa.
Pergunta-me o espelho se sou feliz. Não sei o que responder. Enquanto trabalho e viajo pareço estar feliz, sinto-me realizado. O problema é mesmo quando chego ao quarto de hotel e fico a sós com a minha solidão.
A solidão mata e corrói-nos por dentro aos poucos. Leva-nos a tranquilidade, a harmonia, a esperança, leva-nos até a fala. Em troca traz-nos o medo, a insegurança, a intranquilidade. Ficamos ensimesmados, indiferentes aos outros, tornamo-nos bichos-do-mato. E já não estranhamos quando nos sentimos sozinhos no meio de uma multidão.
O meu melhor amigo diz que ninguém nos pode tirar a nossa solidão. Cabe-nos a nós próprios lutar para sair dela, reinventarmo-nos, deixarmos os caminhos antigos, ir ao encontro dos outros e reaprender a sorrir com a alegria de quem vê uma coisa linda pela primeira vez. Viver cada momento como se fosse o último, porque amanhã pode ser tarde.
Só que eu não consigo ser tão optimista. Ou pelo menos não tenho forças para lutar contra as minhas fraquezas. Esse amigo aconselha-me muitas vezes a matar a solidão com mulheres. Já experimentei. Mas sinto-me sozinho na mesma e ainda por cima sinto-me sujo. Quando olho para a minha mulher sinto-me um lixo, um cobarde, que para além de não a ajudar a criar os nossos filhos ainda anda a viajar e a traí-la. Eu não posso fazer mais isso. Eu não quero.
A solução é aprender a viver com a minha solidão. Ainda que demore tempo. Ou então, como me segreda a minha mãe de cada vez que a vejo, o melhor é mudar de trabalho. Posso ganhar muito menos dinheiro mas pelo menos tenho a felicidade de adormecer e acordar todos os dias ao lado da mulher que eu amo. De fazer torradas pela manhã enquanto ela me agarra pela cintura. De parar uma batalha de cereais entre os miúdos. De ver os sorrisos deles sempre que os levo à escola. De lhes dar banho à noite. Há coisas que não têm preço. A minha mãe tem razão. Está decidido. Amanhã vou falar com o meu chefe e vou à procura da minha felicidade. Adeus solidão.
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Noite de patrulha
A noite começava a embalar os mais incautos quando um grito atravessou o
céu. Uma voz de mulher. Um pedido de ajuda lancinante. Mas de onde
viria? Não parecia ser muito longe.
Em duas décadas de profissão Ana não se cansava de ser polícia e era nestas alturas que mais gostava de envergar esta farda. Aquelas patrulhas simples e rotineiras podem tornar-se numa missão importante. Seria este o caso? Só umas horas mais tarde viria a descobrir.
Com um dedo em frente aos lábios, Ana fez sinal ao colega para que se calasse, e, acto contínuo, saiu do carro. Deixou a porta aberta e pôs-se à escuta, mas nada mais se ouviu. O breu estava fechado e o silêncio pesava sobre o arvoredo à volta. O caminho de terra batida mal se via. A lua em quarto minguante não ajudava a alumiar a estrada secundária.
Estática por uns minutos, Ana esperava ouvir mais alguma coisa. Em vão. Voltou a entrar no carro. Fez sinal ao novato que guiava e puseram-se lentamente em marcha. Nada de significativo se via, nada se ouvia para além de um ou outro grilo. Foi então que decidiu seguir o instinto ou sexto sentido ou a voz da experiência. Seria melhor esperar para reagir. Aqui havia gato, pensava. E nem lhe passava pela cabeça ir patrulhar para outro lado.
Ficariam estacionados do lado de fora da estrada, de forma a que o carro ficasse escondido pelos arbustos e não fosse visto por quem passasse por ali. Assim permaneceram uns três quartos de hora até que viram uns faróis a cortar lentamente a escuridão ao longe. Ana saiu do carro e ficou numa posição em que veria bem o veículo. Era uma carrinha de sete ou nove lugares preta e de vidros fumados. A matrícula era portuguesa.
Começava a confirmar as suas suspeitas de que alguma coisa de anormal se passava. Lembrou-se de repente de que não muito longe dali havia um grande armazém abandonado. Seria para lá que ia a carrinha? Seria de lá que tinha vindo o grito de mulher? Decidiu ir até lá a corta-mato. E deixar o colega no carro.
Conhecia bem a zona desde criança. Gostava de brincar com os irmãos por ali, porque era nesse mesmo armazém que na altura estavam os produtos de mercearia que depois iriam ser distribuídos pelos minimercados da região. Às vezes os empregados davam um chocolate ou uns rebuçados aos miúdos que se empoleiravam nas árvores para espreitar o que lá havia através das magras janelas do espaço . No mesmo sítio, 40 anos depois, Ana pensou em voltar a subir ao carvalho que sempre fora o seu preferido por ter a melhor vista para dentro do armazém.
Um grupo de homens altos, musculosos e mal-encarados estava atentamente a ouvir um sujeito franzino de óculos que lhes parecia dar ordens. Gesticulava e abria muito os olhos. De quando em quando apontava para um dos cantos, onde estava sentada no chão uma mulher com uma venda nos olhos e com fita-cola na boca. Estava amarrada por cordas fortes a um jipe. Os pés e as mãos estavam completamente imobilizados. Ana reconheceu na vítima a mulher do dono da fábrica de calçado que tinha sido raptada num concelho vizinho há algumas semanas.
Pensou estar perante o grande caso da sua carreira ao mesmo tempo que se lembrava que o caso estava entregue a colegas de outra força policial. Que passo vou dar primeiro, questionava-se. Porém, não precisou de pensar muito porque não precisou de mexer um dedo.
Sem saber como, quando deu por si Ana estava a ver outros colegas a entrar no armazém e a deter os raptores. A refém foi libertada. Parecia precisar de assistência médica. Combalida e pálida, a mulher mal conseguia andar. Teve que ser amparada até à viatura descaracterizada em que os agentes se deslocavam.
Ana estava contente pelo desfecho feliz e por ter assistido a tudo, embora estivesse desolada por não ter ajudado. Fez rapidamente o caminho para o carro de patrulha, mesmo sem se preocupar se o mato lhe rasgava a carne dos braços desprotegidos pelas mangas arregaçadas. Estava indiferente à dor por causa da raiva que agora sentia face à sua própria impotência. Quando chegou ao carro encontrou o colega a dormir ao volante. E só desejou poder ser tão irracional quanto ele.
Em duas décadas de profissão Ana não se cansava de ser polícia e era nestas alturas que mais gostava de envergar esta farda. Aquelas patrulhas simples e rotineiras podem tornar-se numa missão importante. Seria este o caso? Só umas horas mais tarde viria a descobrir.
Com um dedo em frente aos lábios, Ana fez sinal ao colega para que se calasse, e, acto contínuo, saiu do carro. Deixou a porta aberta e pôs-se à escuta, mas nada mais se ouviu. O breu estava fechado e o silêncio pesava sobre o arvoredo à volta. O caminho de terra batida mal se via. A lua em quarto minguante não ajudava a alumiar a estrada secundária.
Estática por uns minutos, Ana esperava ouvir mais alguma coisa. Em vão. Voltou a entrar no carro. Fez sinal ao novato que guiava e puseram-se lentamente em marcha. Nada de significativo se via, nada se ouvia para além de um ou outro grilo. Foi então que decidiu seguir o instinto ou sexto sentido ou a voz da experiência. Seria melhor esperar para reagir. Aqui havia gato, pensava. E nem lhe passava pela cabeça ir patrulhar para outro lado.
Ficariam estacionados do lado de fora da estrada, de forma a que o carro ficasse escondido pelos arbustos e não fosse visto por quem passasse por ali. Assim permaneceram uns três quartos de hora até que viram uns faróis a cortar lentamente a escuridão ao longe. Ana saiu do carro e ficou numa posição em que veria bem o veículo. Era uma carrinha de sete ou nove lugares preta e de vidros fumados. A matrícula era portuguesa.
Começava a confirmar as suas suspeitas de que alguma coisa de anormal se passava. Lembrou-se de repente de que não muito longe dali havia um grande armazém abandonado. Seria para lá que ia a carrinha? Seria de lá que tinha vindo o grito de mulher? Decidiu ir até lá a corta-mato. E deixar o colega no carro.
Conhecia bem a zona desde criança. Gostava de brincar com os irmãos por ali, porque era nesse mesmo armazém que na altura estavam os produtos de mercearia que depois iriam ser distribuídos pelos minimercados da região. Às vezes os empregados davam um chocolate ou uns rebuçados aos miúdos que se empoleiravam nas árvores para espreitar o que lá havia através das magras janelas do espaço . No mesmo sítio, 40 anos depois, Ana pensou em voltar a subir ao carvalho que sempre fora o seu preferido por ter a melhor vista para dentro do armazém.
Um grupo de homens altos, musculosos e mal-encarados estava atentamente a ouvir um sujeito franzino de óculos que lhes parecia dar ordens. Gesticulava e abria muito os olhos. De quando em quando apontava para um dos cantos, onde estava sentada no chão uma mulher com uma venda nos olhos e com fita-cola na boca. Estava amarrada por cordas fortes a um jipe. Os pés e as mãos estavam completamente imobilizados. Ana reconheceu na vítima a mulher do dono da fábrica de calçado que tinha sido raptada num concelho vizinho há algumas semanas.
Pensou estar perante o grande caso da sua carreira ao mesmo tempo que se lembrava que o caso estava entregue a colegas de outra força policial. Que passo vou dar primeiro, questionava-se. Porém, não precisou de pensar muito porque não precisou de mexer um dedo.
Sem saber como, quando deu por si Ana estava a ver outros colegas a entrar no armazém e a deter os raptores. A refém foi libertada. Parecia precisar de assistência médica. Combalida e pálida, a mulher mal conseguia andar. Teve que ser amparada até à viatura descaracterizada em que os agentes se deslocavam.
Ana estava contente pelo desfecho feliz e por ter assistido a tudo, embora estivesse desolada por não ter ajudado. Fez rapidamente o caminho para o carro de patrulha, mesmo sem se preocupar se o mato lhe rasgava a carne dos braços desprotegidos pelas mangas arregaçadas. Estava indiferente à dor por causa da raiva que agora sentia face à sua própria impotência. Quando chegou ao carro encontrou o colega a dormir ao volante. E só desejou poder ser tão irracional quanto ele.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Enquanto esperamos
Na paragem de autocarro no centro da cidade só se viam caras fechadas.
Pessoas cansadas ao fim de mais um dia de trabalho, pensando nos seus
problemas ou apenas organizando mentalmente o que teriam ainda para
fazer quando chegassem a casa. Havia mesmo quem estivesse com vontade de
chorar por não ter nada para comer em casa, excepto bolachas. E
o fim do mês que nunca mais chega, lamentava.
Foi nessa altura que chegou um casal que destoava entre os rostos abatidos. Um homem e uma mulher de mãos dadas, com um sorriso de orelha a orelha. Deviam ter mais de 70 anos. Ela trazia na mão um saco de supermercado com pouca coisa dentro. Ele trazia na mão uma pequena pasta. Os olhos de ambos irradiavam felicidade.
- Que sorriso parvo, só podem estar apaixonados - pensava a adolescente que olhava com estranheza para o casal que roubava as atenções de todos.
A mulher que só tinha bolachas em casa mordia os lábios a olhar para a felicidade de quem tem alguém para partilhar a vida - e de quem tem dinheiro para ir ao supermercado.
O homem de meia-idade encostado ao canto da paragem de autocarro acreditava que deveriam ter fugido do manicómio. Ninguém pode ser feliz assim, muito menos nesta altura da vida e com a crise que para aí vai no país, matutava. Ou então o velho anda a meter os palitos à mulher com esta velha, só pode.
Na outra ponta da paragem o rapaz que saíra há pouco do trabalho - e ainda tinha no braço marcas de óleo da oficina - olhava demoradamente para as pobres roupas do casal idoso. Estranhava que gente pobre sorrisse daquela maneira. Quem conta os trocos de uma parca reforma não pode ser feliz, não tem razões para sorrir assim, estava convencido.
O que toda a gente ignorava naquela paragem de autocarro e nunca chegou a saber foi o verdadeiro motivo da felicidade daqueles septuagenários que agora entravam no eléctrico rumo a casa. Acabavam de sair do hospital onde lhes foi dito que a mulher estava curada do cancro. O pesadelo acabara finalmente. Só havia motivos para sorrir.
Foi nessa altura que chegou um casal que destoava entre os rostos abatidos. Um homem e uma mulher de mãos dadas, com um sorriso de orelha a orelha. Deviam ter mais de 70 anos. Ela trazia na mão um saco de supermercado com pouca coisa dentro. Ele trazia na mão uma pequena pasta. Os olhos de ambos irradiavam felicidade.
- Que sorriso parvo, só podem estar apaixonados - pensava a adolescente que olhava com estranheza para o casal que roubava as atenções de todos.
A mulher que só tinha bolachas em casa mordia os lábios a olhar para a felicidade de quem tem alguém para partilhar a vida - e de quem tem dinheiro para ir ao supermercado.
O homem de meia-idade encostado ao canto da paragem de autocarro acreditava que deveriam ter fugido do manicómio. Ninguém pode ser feliz assim, muito menos nesta altura da vida e com a crise que para aí vai no país, matutava. Ou então o velho anda a meter os palitos à mulher com esta velha, só pode.
Na outra ponta da paragem o rapaz que saíra há pouco do trabalho - e ainda tinha no braço marcas de óleo da oficina - olhava demoradamente para as pobres roupas do casal idoso. Estranhava que gente pobre sorrisse daquela maneira. Quem conta os trocos de uma parca reforma não pode ser feliz, não tem razões para sorrir assim, estava convencido.
O que toda a gente ignorava naquela paragem de autocarro e nunca chegou a saber foi o verdadeiro motivo da felicidade daqueles septuagenários que agora entravam no eléctrico rumo a casa. Acabavam de sair do hospital onde lhes foi dito que a mulher estava curada do cancro. O pesadelo acabara finalmente. Só havia motivos para sorrir.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Rapto
Os ponteiros indicavam cinco e meia da tarde. Ao ver as horas, os grandes olhos negros espelhavam preocupação. A testa sulcada mostrava que o passar dos anos tinha deixado as suas marcas naquele rosto pálido. O corpo franzino abanava-se com a inquietação de quem está pressionado pelo tempo. As mãos ossudas - que não condiziam com o resto do seu dono pela dimensão desmesurada que tinham - pegaram no telemóvel preto que estava no bolso das calças de ganga.
- Estou? Aqui Alfa, escuto. - sussurrou o homem. Do outro lado terá vindo uma resposta que o levou a prosseguir a conversa noutro tom e em voz alta.
- Como é? Esse resgate demora muito ou faz serão? Já estamos a ficar atrasados. O plano está feito ao pormenor. Não pode haver deslizes, muito menos de tempo. Toca a pressionar. - gritou, para de seguida prosseguir com segurança.
- Aqui está tudo calmo. A presa está aqui quietinha à minha frente como uma linda menina que é! - exclamou ao mesmo tempo que soltava uma gargalhada sonora.
Desligando o aparelho rectangular fez menção de o devolver ao bolso, mas, arrependendo-se, apontou-o ao rosto assustado da rapariga que tinha à frente.
Não teria mais de vinte anos. A pele clara e lisa era apenas pontuada por algumas manchas encarnadas nas maçãs do rosto. Os lábios apertavam uma tira de pano que a impedia de abrir a boca. O cabelo em desalinho era comprido e ruivo. Os caracóis caiam pelo peito e costas. O corpo magro mal era escondido por um fato de ballet branco um pouco rasgado e praticamente todo sujo de terra e manchas de óleo de carros. As sapatilhas estavam imundas, quase da cor do barro.
- Queres comer, bailarina? - perguntou a besta, apontando para uma tigela que enchia com comida de lata para cão. - Não comes tu, há mais quem coma. Vilão, cão mau, anda ao dono.
Logo veio a correr um canídeo de grande porte com as orelhas pontiagudas e escuras no ar. A cauda curta abanava de satisfação ao mesmo tempo que abria a boca pondo a língua de fora e mostrando os enormes dentes amarelados e afiados. Ao ver o Vilão a correr na sua direcção a rapariga encolheu-se no chão, no seu canto junto a um carro velho. Mas o cão foi direitinho ao coxo cheio. A rapariga suspirou de alívio, o que levou a mais uma gargalhada estridente do raptor.
- Pois é minha querida. Nunca sonhaste tu que um dia ias estar à minha mercê nesta situação. Eu que era teu vizinho, mas que sempre sonhou vir a ser teu namorado e mais tarde marido. Desde o tempo da escola que eu te desejava para mim. E quando te via dançar no palco repetia mentalmente que um dia ias ser minha. Como foste nestes últimos dias - acrescentou, enquanto passeava os dedos pelo peito da rapariga assustada. Após uma pequena pausa, continuou num tom rancoroso.
- Mas tu nunca me ligaste e ainda por cima anunciaste que vais casar com o banana do maestrozinho. Por isso este meu plano de te raptar e ainda pedir um resgate milionário que o teu querido noivo deve estar prestes a pagar. Quando ele te vir de novo já eu vou estar muito longe e rico. Vou viver uma vida à grande, deixando tudo para trás. A minha família, a minha velha mãe, nunca vai acreditar que eu te raptei. Ela pensa que eu fui trabalhar para Inglaterra há um mês. Mas olha princesa - acrescentou, fazendo uma longa pausa - se quiseres vir ser feliz comigo noutra vida, se estes belos dias comigo te fizeram mudar de ideias, ainda estás a tempo. Agarramos no dinheiro do resgate e voamos para bem longe. Que me dizes? Tens uns cinco minutos para pensar - exclamou, passando a mão suja ao longo do corpo frágil. A reacção dela foi um esgar de repulsa.
No momento em que o raptor se preparava para voltar a vestir o papel de violador e já estava com as cuecas aos pés ouviu-se um estrondo do lado da entrada do armazém. O portão estava a abrir-se e ele, que estava de costas e entretido na sua fantasia, nem deu por nada. Quando finalmente ouviu passos de corrida e começou a procurar a arma pelo chão já estava cercado. Estava rodeado de agentes da polícia de rosto tapado que o tinham observado através das pequenas janelas há longos minutos sem ele saber. Facilmente o agarraram e terminaram a operação de resgate da vítima com sucesso.
Depois de vários meses em prisão preventiva o tribunal ditou que vivesse por uns bons anos atrás das grades. E hoje é num pequeno televisor da cadeia que acompanha a carreira da famosa bailarina, sonhando todas as noites com o regresso àquela pele aveludada e àquele cabelo macio.
- Estou? Aqui Alfa, escuto. - sussurrou o homem. Do outro lado terá vindo uma resposta que o levou a prosseguir a conversa noutro tom e em voz alta.
- Como é? Esse resgate demora muito ou faz serão? Já estamos a ficar atrasados. O plano está feito ao pormenor. Não pode haver deslizes, muito menos de tempo. Toca a pressionar. - gritou, para de seguida prosseguir com segurança.
- Aqui está tudo calmo. A presa está aqui quietinha à minha frente como uma linda menina que é! - exclamou ao mesmo tempo que soltava uma gargalhada sonora.
Desligando o aparelho rectangular fez menção de o devolver ao bolso, mas, arrependendo-se, apontou-o ao rosto assustado da rapariga que tinha à frente.
Não teria mais de vinte anos. A pele clara e lisa era apenas pontuada por algumas manchas encarnadas nas maçãs do rosto. Os lábios apertavam uma tira de pano que a impedia de abrir a boca. O cabelo em desalinho era comprido e ruivo. Os caracóis caiam pelo peito e costas. O corpo magro mal era escondido por um fato de ballet branco um pouco rasgado e praticamente todo sujo de terra e manchas de óleo de carros. As sapatilhas estavam imundas, quase da cor do barro.
- Queres comer, bailarina? - perguntou a besta, apontando para uma tigela que enchia com comida de lata para cão. - Não comes tu, há mais quem coma. Vilão, cão mau, anda ao dono.
Logo veio a correr um canídeo de grande porte com as orelhas pontiagudas e escuras no ar. A cauda curta abanava de satisfação ao mesmo tempo que abria a boca pondo a língua de fora e mostrando os enormes dentes amarelados e afiados. Ao ver o Vilão a correr na sua direcção a rapariga encolheu-se no chão, no seu canto junto a um carro velho. Mas o cão foi direitinho ao coxo cheio. A rapariga suspirou de alívio, o que levou a mais uma gargalhada estridente do raptor.
- Pois é minha querida. Nunca sonhaste tu que um dia ias estar à minha mercê nesta situação. Eu que era teu vizinho, mas que sempre sonhou vir a ser teu namorado e mais tarde marido. Desde o tempo da escola que eu te desejava para mim. E quando te via dançar no palco repetia mentalmente que um dia ias ser minha. Como foste nestes últimos dias - acrescentou, enquanto passeava os dedos pelo peito da rapariga assustada. Após uma pequena pausa, continuou num tom rancoroso.
- Mas tu nunca me ligaste e ainda por cima anunciaste que vais casar com o banana do maestrozinho. Por isso este meu plano de te raptar e ainda pedir um resgate milionário que o teu querido noivo deve estar prestes a pagar. Quando ele te vir de novo já eu vou estar muito longe e rico. Vou viver uma vida à grande, deixando tudo para trás. A minha família, a minha velha mãe, nunca vai acreditar que eu te raptei. Ela pensa que eu fui trabalhar para Inglaterra há um mês. Mas olha princesa - acrescentou, fazendo uma longa pausa - se quiseres vir ser feliz comigo noutra vida, se estes belos dias comigo te fizeram mudar de ideias, ainda estás a tempo. Agarramos no dinheiro do resgate e voamos para bem longe. Que me dizes? Tens uns cinco minutos para pensar - exclamou, passando a mão suja ao longo do corpo frágil. A reacção dela foi um esgar de repulsa.
No momento em que o raptor se preparava para voltar a vestir o papel de violador e já estava com as cuecas aos pés ouviu-se um estrondo do lado da entrada do armazém. O portão estava a abrir-se e ele, que estava de costas e entretido na sua fantasia, nem deu por nada. Quando finalmente ouviu passos de corrida e começou a procurar a arma pelo chão já estava cercado. Estava rodeado de agentes da polícia de rosto tapado que o tinham observado através das pequenas janelas há longos minutos sem ele saber. Facilmente o agarraram e terminaram a operação de resgate da vítima com sucesso.
Depois de vários meses em prisão preventiva o tribunal ditou que vivesse por uns bons anos atrás das grades. E hoje é num pequeno televisor da cadeia que acompanha a carreira da famosa bailarina, sonhando todas as noites com o regresso àquela pele aveludada e àquele cabelo macio.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Tenda
A noite escura era alumiada por um pequeno ponto branco. Não havia luar,
não havia luz eléctrica à vista, não havia lanternas. Só uma estrela
solitária no céu brilhava. Parecia um cenário romântico: estávamos
acampados no meio do campo, com os grilos por companhia. Só nós os dois e
mais ninguém no mundo. Mas eu já estou velha demais para 'romantiquices'.
Cheia de frio, com dores nos ossos, dificuldade em dormir em cima daquele chão de pedra, tinha vontade de beber o meu leite quente, queria ver televisão antes de adormecer, e até tinha saudades da minha sanita... Não podia estar mais a detestar o cenário.
Mas nada podia dizer. Só me passavam pela cabeça mil e um pensamentos. Quem me mandou apaixonar-me por um romântico incurável, um eterno sonhador, sempre com a mania que ainda podemos mudar o mundo...
Se os nossos filhos e netos sonhassem que era ali a noite romântica para comemorar o meu aniversário!
Ainda por cima não conseguia dormir só a pensar que podia a qualquer momento vir um javali pela tenda adentro. Já me imaginava a rebolar pela serra abaixo à frente de um focinho escuro e espinhoso. Já via a família de javalis à nossa volta a cozinhar-nos dentro de um caldeirão junto com umas espigas de milho.
E a seguir lembrava-me que não tinha tirado a maquilhagem, o que daria direito a mais umas quantas rugas. E que não tinha regado as plantas, nem dado comida ao peixe. Nem arrumado a cozinha antes de sair de casa.
Depois de horas em pensamentos que tais acabei por adormecer e fui apenas acordada pelos primeiros raios de sol. Saímos da tenda e ficámos em silêncio a apreciar o cenário idílico. Os nossos braços enlaçaram-se, as nossas bocas reencontraram-se, as nossas respirações sincronizaram-se e era como se o nosso casamento de há 53 anos tivesse sido ontem.
Afinal valeu o sacrifício que tinha passado durante a noite. Se bem que gostava de ver assim um nascer do sol de novo, já disse ao meu marido que para a próxima dormimos num hotel e vamos para a serra pouco antes do nascer do dia.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Viúva
Apeteceu-me pegar-te na mão, pousar o teu telemóvel ao lado do hambúrguer e carregar num botão para tirar o som todo à nossa volta. Queria fazer parar toda a gente naquela área de restauração de centro comercial, tirá-los dali.
É como se o resto do mundo não existisse e fossemos só nós a estar ali. E então poderíamos ficar eternamente em silêncio a olharmo-nos nos olhos, a descobrir o que está por dentro desta capa que nos cobre. Como se a partir do momento em que os teus olhos se cruzam com os meus passasse a haver um "nós" por toda a eternidade e só por isso todo o mundo parasse em suspenso.
Mas nada disso aconteceu.
No momento a seguir olhaste para o meu marido, a meu lado, e eu olhei para a tua mulher, sentada à tua frente. E o mundo desordenou-se.
O teu bebé atirou com a colher de papa ao ar e foi cair dentro da sopa da mulher que estava sentada na mesa ao lado. A sopa saltou em várias direções e acertou na gravata e na camisa do bancário que almoçava com a mulher.
O meu filho mais novo tropeçou no boneco que trazia nos braços e espalhou-se aos pés de um adolescente, que por sua vez desequilibrou-se e deixou cair o tabuleiro de comida. Uma das fatias de piza foi atingir em cheio a cara de um velho de bengala que vinha na direcção contrária.
Com a confusão várias pessoas gritavam e gesticulavam. O meu marido, que tinha sido operado ao coração e não podia exaltar-se começou a sentir-se mal. Perguntei se alguém me podia ajudar, algum médico ou enfermeiro. Por sorte tu, tu mesmo, levantaste-te e disseste que a mulher que eu pensava que era a tua mulher -e afinal era a tua irmã - era médica. Enquanto ela tentava reanimar o meu marido tu chamaste uma ambulância. Fomos para o hospital e a tua irmã ficou com os meus filhos.
O meu marido acabou por morrer. Se não fosse a tua presença no hospital não sei como teria suportado sozinha a dor da perda.
Eu sempre amei o meu marido. Eu sempre fui fiel. Excepto no momento em que te vi naquela área de restauração de centro comercial. E é como se esse simples momento de devaneio tivesse sido tão grave que tivesse provocado a morte do meu marido. Nos últimos meses culpei-me da morte dele, mas hoje sei que era um disparate. Foi o que tinha que ser.
A partir de hoje não vou mais afastar-te, querer-te só como amigo. Hoje confesso-te que te quero como uma mulher quer um homem que ama. Porque sei que o que senti quando te vi pela primeira vez foi um presente divino. É como se estivesse prevista a morte do meu marido e Deus tivesse decidido pôr-te no meu caminho para superar a perda e seguir em frente. Dá-me a mão finalmente e vamos construir uma nova vida, o nosso mundo.
É como se o resto do mundo não existisse e fossemos só nós a estar ali. E então poderíamos ficar eternamente em silêncio a olharmo-nos nos olhos, a descobrir o que está por dentro desta capa que nos cobre. Como se a partir do momento em que os teus olhos se cruzam com os meus passasse a haver um "nós" por toda a eternidade e só por isso todo o mundo parasse em suspenso.
Mas nada disso aconteceu.
No momento a seguir olhaste para o meu marido, a meu lado, e eu olhei para a tua mulher, sentada à tua frente. E o mundo desordenou-se.
O teu bebé atirou com a colher de papa ao ar e foi cair dentro da sopa da mulher que estava sentada na mesa ao lado. A sopa saltou em várias direções e acertou na gravata e na camisa do bancário que almoçava com a mulher.
O meu filho mais novo tropeçou no boneco que trazia nos braços e espalhou-se aos pés de um adolescente, que por sua vez desequilibrou-se e deixou cair o tabuleiro de comida. Uma das fatias de piza foi atingir em cheio a cara de um velho de bengala que vinha na direcção contrária.
Com a confusão várias pessoas gritavam e gesticulavam. O meu marido, que tinha sido operado ao coração e não podia exaltar-se começou a sentir-se mal. Perguntei se alguém me podia ajudar, algum médico ou enfermeiro. Por sorte tu, tu mesmo, levantaste-te e disseste que a mulher que eu pensava que era a tua mulher -e afinal era a tua irmã - era médica. Enquanto ela tentava reanimar o meu marido tu chamaste uma ambulância. Fomos para o hospital e a tua irmã ficou com os meus filhos.
O meu marido acabou por morrer. Se não fosse a tua presença no hospital não sei como teria suportado sozinha a dor da perda.
Eu sempre amei o meu marido. Eu sempre fui fiel. Excepto no momento em que te vi naquela área de restauração de centro comercial. E é como se esse simples momento de devaneio tivesse sido tão grave que tivesse provocado a morte do meu marido. Nos últimos meses culpei-me da morte dele, mas hoje sei que era um disparate. Foi o que tinha que ser.
A partir de hoje não vou mais afastar-te, querer-te só como amigo. Hoje confesso-te que te quero como uma mulher quer um homem que ama. Porque sei que o que senti quando te vi pela primeira vez foi um presente divino. É como se estivesse prevista a morte do meu marido e Deus tivesse decidido pôr-te no meu caminho para superar a perda e seguir em frente. Dá-me a mão finalmente e vamos construir uma nova vida, o nosso mundo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)