segunda-feira, 13 de julho de 2015

Comboio

Muitas pessoas não têm consciência de como uma conversa de circunstância pode aplacar a solidão de alguém. Hoje entrei num elevador de um prédio juntamente com um homem dos seus 80 anos que tinha um saco de supermercado na mão. Estava curvado pelo peso dos anos. Quem olhava para a roupa e para os óculos pensava logo que teria vindo numa cápsula do tempo dos anos 70 para 2015.

Carreguei no número do andar para o qual queria ir. O oitavo. Ele carregou no quinto. Olhou para mim e a sorrir perguntou se eu morava no céu. Com alguma graça, porque eu ia para o último andar do prédio. Sorri e disse que ia apenas visitar alguém que morava lá. Foi então que reparei no capachinho que lhe encimava a fronte. Há muito tempo que não via ninguém de capachinho.


Na viagem até ao quinto andar comentou ainda o estado do tempo, como os portugueses tanto gostam. Está muito calor. O que é natural, respondi. É meio-dia e estamos em Julho. Se não estiver calor no Verão quando vai estar? Concordou comigo. Reparei que o olhar é de quem passa muito tempo sozinho e tem a vista enevoada pela tristeza.


Fiquei a pensar nele durante o resto do dia. Fiquei a imaginar como seria a sua vida solitária. Quantas horas passa na solidão sem ter com quem falar. Quantas pessoas queridas já viu partir. Ou talvez nunca as tenha tido.


Dizem que a vida é como uma viagem. E há algumas mais longas do que as outras. Eu diria que é mais como uma viagem de comboio. Este é composto por várias carruagens, que são as fases da vida - somos bebés, crianças, jovens, adultos e idosos. 


Nessas várias carruagens vão entrando pessoas. E outras vão saindo. Há algumas que ficam pouco tempo nas nossas vidas. Outras que nos acompanham sempre e ainda outras que entram mais tarde e vão connosco até à última carruagem, ajudando a suportar os contratempos da viagem. Estão presentes nos bons e nos maus momentos.

O certo é que na recta final da viagem a velocidade abranda. São cada vez menos as pessoas dentro da carruagem. Há muitos solavancos nesta parte da viagem. É fácil saber quem gosta de nós e se importa connosco nesta fase da vida. 


Talvez o homem que se cruzou comigo no elevador tivesse muito pouca gente - ou quem sabe ninguém - na sua última carruagem. Há muita gente que vai sozinha pelos carris da vida e por isso a viagem parece mais difícil do que pareceria se tivessem com quem partilhar a sucessão dos dias.

Nada é para sempre, bem sei. Mas há pessoas quem nem chegam a aquecer o lugar onde se sentam na carruagem. Às vezes é doloroso ver as pessoas sair do comboio, sobretudo em andamento. 


Nestes casos é preferível pensar que foi por alguma boa razão que entraram na carruagem, mesmo que depois tenham saído. Fizeram crescer um pouco e aprender com os erros. 

Na volta, sem sabermos, era importante para nós que entrassem naquele ponto da viagem, mesmo que viessem a sair pouco depois. E a deixar a carruagem mais vazia, ficando para trás os ecos de uma curta passagem plena de tristeza ou de felicidade.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Magnetismo

Duas noites parece pouco, mas podem durar uma eternidade. Uma mão estendida pode parecer uma ajuda, mas pode estar a puxar-nos para um poço. Nem tudo o que parece é. Nem sempre as pessoas são o que aparentam ser.

Foi num fim de tarde de Verão que vi pela primeira vez a mulher mais fantástica que já conheci. Eu estava sentado na esplanada da praia a beber uma cerveja antes de ir para casa. No momento em que pouso o copo gelado na mesa os meus olhos pousam nela.


Alta, morena, bem-constituída. O sol salgava-lhe a pele banhada de areia. Tinha um olhar verde profundo, enigmático, magnético. Vinha enrolada num daqueles panos de praia que as mulheres usam. E vinha na minha direcção. Eu estava em êxtase com aquela visão quando ela tropeçou e caiu a meus pés.

Peguei naquelas mãos delicadas e ajudei-a a levantar-se. Ela agradeceu com um sorriso que me apertou o coração. Ofereci-lhe uma água ou o que quisesse para que se recompusesse. Acenou positivamente com a cabeça. Ficámos à conversa por largas horas. Até o bar fechar. Na mesa ficou um monte de pratos esvaziados de petiscos e de copos nus.


Nunca tinha conhecido uma mulher tão bonita e com uma história de vida tão impressionante. Dava gosto ouvir também as suas opiniões e a sua visão do mundo. Conversar com ela era um prazer. Decidi convidá-la para beber um licor em minha casa. Aceitou o convite. Seguiu-me num pequeno carro utilitário até minha casa. Entrámos, servi o licor. Ela pediu um copo de água. Fui à cozinha buscar. Não me lembro do que se passou a seguir.


Só sei que acordei no chão do meu quarto. Estava vestido. Fita-cola grossa tapava-me a boca e envolvia-me os pés e as mãos. Olhei à volta e não restava nada a não ser os móveis e a estrutura da cama. 


Decidi arrastar-me e procurar o telefone de casa. Quando finalmente cheguei à sala, vi que estava vazia. Só ficaram os sofás. Comecei a entrar em desespero. Ainda me arrastei lentamente até à porta para fazer barulho batendo com os pés na porta. Mas ninguém me ouvia. Os vizinhos deviam estar todos fora. 

Não sei quanto tempo permaneci imóvel no chão. Sei que pareceu uma eternidade. Tinha fome, tinha sede, tinha vontade de ir à casa-de-banho. Pensei em formas de me desenvencilhar da fita-cola, mas nada me ocorria. 

Acabei por adormecer no meio do desespero. Fui acordado por uma chave que rodava na porta. Era a mulher que me vinha limpar a casa uma vez por semana.

Afinal era terça-feira. E eu fui roubado e enganado por aquela mulher no domingo. Nunca mais consegui confiar em desconhecidas.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Distâncias

Os longos braços abetos transformaram-se num abraço que envolveu por completo a pequena criança. A pele luzidia e negra de ambos parecia gritar felicidade. A mulher rodopiava o filho incessantemente no ar num sorriso comum a ambos. Até que o miúdo pediu à mãe que o pusesse no chão.


Uma estação de comboios tem destas coisas. Os reencontros ou os pontos finais nas separações físicas de pessoas que se querem muito. Mas tem também o oposto. Os que partem para mais longe ou mais perto, os que vão por mais ou menos tempo.

Como o casal de idosos que entrou no comboio lavado em lágrimas, deixando do lado de fora da cidade uma família a acenar. Ou a namorada que ficou em terra a morder o lábio enquanto escreve uma mensagem de amor no telemóvel para o rapaz que vai sentado na primeira carruagem fardado de branco. 

Porque não podem estar sempre perto aqueles que amamos? Porque há distâncias físicas tão grandes a separar quem nunca se queria longe?  Há muitas respostas ou talvez nenhuma. O facto é que quando se reencontram duas pessoas que se querem bem a sensação é de que é preciso aproveitar a vida intensamente até que um comboio ou outro meio de transporte qualquer os separe de novo.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Céu estrelado



Tinha anoitecido há pouco. O céu ainda era mais claro do lado em que o sol se tinha posto. As estrelas começavam timidamente a aparecer no firmamento. As cigarras cantavam num prenúncio de noite quente. Os pirilampos começavam a semear pontos de luz amarela pelo meio dos pinheiros.


Vítor sentia-se num paraíso. Não podia estar melhor. Aliás, podia. Se a namorada se calasse um segundo. Não parava de se queixar das picadas de insectos.


Ana estava sentada ao lado, numa manta estendida no chão atapetado de agulhas de pinheiro. A mão esquerda coçava o pescoço enquanto a mão direita coçava a testa. Não parava de rogar pragas aos mosquitos e às melgas. Se soubesse que ia ser assim nunca tinha concordado em acampar com o namorado.


Era a primeira vez na vida em que não ia dormir numa cama. Uma tenda, um saco-cama, dormir no campo - eram experiências novas. E estava a detestar.


Pelo contrário, João já tinha acampado dezenas de vezes. E adorava. O que mais gostava era poder ver o céu estrelado. Adorava olhar para os planetas e constelações longe das luzes da cidade. Apontava os dedos para cima e ia desenhando as formas do que ao simples leigo parecem apenas pequenos pontos de luz no negro firmamento.


Esta era a primeira vez em que acampava com Ana. E foi a primeira vez em que detestou acampar. Passar a noite a aturar as manias e queixas dela foi um verdadeiro pesadelo.


Na altura em que teve a ideia de acamparem juntos mal sonhava que esta noite iria pôr fim à relação. Há uma música que diz que não se ama alguém que não ouve a mesma canção. João diria que não se ama alguém que em relação à vida não tem a mesma visão.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Índia

Acordei a sufocar. Na realidade não tinham passado mais de cinco minutos desde que tinha olhado para o relógio pela última vez. 

Não consigo dormir há várias noites e a única coisa que os adultos me sabem dizer é que tenho que me habituar ao calor sufocante da Índia. 

E que devo contar carneiros. Como se isso alguma vez tivesse resultado comigo nos meus 11 anos de vida.

Eu sei muito bem que o meu problema é só um: ter perdido a minha mãe. Morreu de cancro na semana passada. Não faleceu, nem partiu para as estrelas. Morreu. Tenho que o aceitar. Já sou uma menina crescida.


Mas não sei como explicar ao meu irmão de cinco anos. Nem sei como explicar a razão da nossa vinda para este país tão distante e diferente de Portugal.

O meu pai quis viajar. Diz que é uma homenagem à minha mãe, que sempre quis vir à Índia e nunca concretizou o sonho. 


Antes de morrer  ela disse-me que gostava que eu conhecesse outros países e culturas. Explicou-me que nunca somos a mesma pessoa no regresso de uma viagem. Ver coisas que nunca vimos produz um efeito inigualável na nossa mente. 

Regressamos outra pessoa. Mais rica e com uma visão mais abrangente da vida. Não sei bem o que isso quer dizer, mas espero descobrir quando voltar a Portugal.

Só sei que aqui está sempre tanto calor que não consigo dormir e acabo a pensar na minha mãe. Só sei que aqui a comida é picante e estranha. Só sei que as ruas são sujas e cheias de vacas. 


Há gente por todo o lado, num burburinho sem fim. Os rios são sujos. Mas as pessoas parecem simpáticas. 

Tenho que me habituar a este país, porque o meu pai quer passar cá um mês. Prometeu levar-me à praia e a Goa. Dizem que é parecido com Lisboa. Talvez assim eu não sinta tantas saudades da minha cidade e da minha mãe.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Noite

A noite era escura como breu. Escuridão por fora. Escuridão por dentro de mim. Tinha pegado no volante há uma meia-hora e conduzia sem destino. Só me apetecia fugir de tudo e de todos. Pena não poder fugir de mim. 


Não conseguia admitir que me tinha tornado num alcoólico, que só vivia com comprimidos e licor barato. Não conseguia admitir que pudesse ter perdido a minha família por causa disso. Primeiro foi a minha mulher que me deixou. Naquela noite acabei com a vida da minha filha ao envergonhá-la perante o noivo.

A minha vida já não tinha sentido naquela noite. Ainda por cima o meu clube tinha perdido o campeonato de futebol. Nada mais me restava. Até o emprego no banco estava em vias de perder por causa dos meus atrasos pela manhã e do meu hálito a água-ardente que incomodava os clientes.

Pensando em tudo o que o álcool estava a fazer na minha vida só me sentia perdido, porque não sabia como sair daquele beco sem saída em que me sentia.

Foi nessa altura em que conduzia sem destino pela noite escura numa estrada rural que vi uma luz muito clara que não me deixava ver o caminho. O carro parou sozinho e quando dei por mim estava a ser puxado para a rua por um extraterrestre. Levou-me para a nave. 

Lembro-me que lá dentro estava um humano que me disse para não ter medo, porque eles só queriam fazer experiências científicas comigo. Não me lembro de mais nada. Só me lembro que acordei na minha cama.

O relógio marcava oito horas. Vesti-me e fui apressadamente para o banco. Quando lá cheguei apercebi-me que tinham passado dois dias. Mas ninguém acreditava na minha história e diziam que era alucinação de bêbado. O que valeu foi que cheguei a horas e não cheirava a água-ardente nesse dia. Não sei explicar como, mas desde então não toco numa gota de álcool.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Espião

Quando me tornei espião em 1969 nunca imaginei no que me iria tornar. Esta "profissão" deu-me muitas vantagens, mas também me trouxe dissabores.


No capítulo das coisas boas conto as boas missões que fiz, que me deram satisfação pessoal e profissional. Viajei por todo o mundo, conheci pessoas fantásticas e lugares incríveis, tive experiências que não teria tido a oportunidade de ter se nunca tivesse saído da minha aldeiazinha da Beira Baixa. Conheci mulheres lindas que deixariam qualquer homem em êxtase. 

Mas a verdade é que não pude dar a felicidade que merecia a única mulher que verdadeiramente me amou em toda a minha vida - e que eu também amei apesar de durante muitos anos não me aperceber disso. A mulher com quem casei ainda antes de ser espião, a mãe dos meus quatro filhos, a avó dos meus oito netos. Quem me dera poder voltar atrás para poder valorizá-la mais.

Também negativo foi não ter visto os meus filhos e os meus netos nascer e crescer. Não ter acompanhado os primeiros passos, palavras, papas, nem sequer o primeiro dia de escola ou de faculdade. Até faltei ao casamento de dois filhos. 

Para além disso, vivi a minha vida dupla baseada num chorrilho de mentiras. Chega a um ponto em que já não se sabe o que é verdade ou não. Um espião é um mentiroso profissional. Só que, olhando agora para trás, tomo consciência de que não há verdade na minha vida. A única verdade era mesmo a minha família, mas até isso me tiraram.

Afinal, a minha mulher procurou consolo noutros homens e os dois filhos do meio são de um outro homem. Um amigo meu de infância. Portanto, a única réstia de verdade que existia na minha vida desvaneceu. Morreu. Tal como eu vou morrer quando terminar esta carta.

Não culpem a vossa mãe, porque o único culpado sou eu. Não peço o vosso perdão, mas quero apenas que saibam finalmente quem fui na realidade e o que fiz de verdade em toda a minha vida. Hoje sei que vos amo mais do que tudo - aos quatro, pois amo-vos todos por igual. Eu tinha que vos proteger e fi-lo. Mas já chega. Não suporto mais. Chegou a hora de pôr termo a todas as mentiras e engodos.

Até sempre,

O vosso pai.