segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Crispim

Em quase todas as famílias ricas há divergências políticas. Em casa de Crispim também assim era.

 O pai sempre fora socialista, mesmo antes do 25 de Abril. A mãe fora na juventude trotskista, mas depois da Revolução passou por vários partidos que viriam a desaparecer até aterrar finalmente nos sociais-democratas. A avó era comunista desde pequena, só que fingia ser de direita desde que começou a namorar com o avô. Uma longa história que mete vira-casacas ao barulho, mentiras, amores e desaguisados. Enfim, cada um tinha a sua tendência política. Menos Crispim.


Sempre achara que a política era um mero jogo de interesses e conveniências, lutas de poder e prepotência, histórias de dinheiro e de guerra. Nada disso lhe interessava. Desde criança que só queria jogar à bola, fintar as miúdas, passar a vida a passear de bicicleta e fazer novos amigos. Chegou a ter três namoradas na escola, todas da mesma turma. A tendência manteve-se pela vida fora e agora que era jogador de futebol profissional tinha quantas raparigas queria.


Em casa esta carreira era uma dor de cabeça. O pai queria que ele tivesse estudado Direito, fizesse parte de uma juventude partidária e se tornasse deputado e quiçá secretário de Estado. A mãe gostava que ele fosse engenheiro mecânico e liderasse uma grande empresa do ramo automóvel. Podia arranjar uma bela e rica mulher que seria a nora perfeita para qualquer sogra de bem. A avó dizia que teria gosto em ter um neto gestor de empresas ou gerente de um banco ou então presidente da Câmara. Só que na realidade ela queria que ele fosse manifestante profissional, daqueles que se vêem diariamente nas manifestações na televisão. Como seria fantástico ter um neto que seguisse o caminho que ela não pôde seguir por amor. Mas isso ela não confessaria em voz alta.


Naquela família havia dinheiro a rodos, mas toda a gente andava angustiada. Filho único e neto único, Crispim concentrava muitas expectativas. A gota de água foi quando anunciou que iria casar com uma modelo, que na realidade era uma antiga concorrente de um programa de variedades da televisão, um "reality show".


Ninguém daquela casa foi ao casamento de Crispim. Mal saberiam que daí a três dias iriam ao seu funeral. Teve um acidente na noite depois do casamento. A noiva sobreviveu e só no hospital soube que afinal estava grávida. O pai, a mãe e a avó de Crispim arrependeram-se de não terem ido ao casamento, de não abraçarem e beijarem Crispim naquele dia tão importante da sua vida. O último dia da sua vida.


Agora que a família iria ter um descendente, decidiram passar uma borracha sobre o passado e não voltar a cometer os mesmos erros. Acolheram a grávida em casa e ajudariam a criar o bebé, educando-o sem pressões para que fosse o que bem entendesse na vida e não escolhesse apenas uma profissão para contrariar a família. Mal sabiam que daí a 40 anos o rapaz viria a ser primeiro-ministro.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Pão-de-forma enfaixada num camião

O sol vaidoso de Verão invadia todas as ruas. Era meio-dia em ponto. O sino da torre da igreja não dava margem para enganos. Olhou para o relógio que a mãe lhe dera num aniversário e que agora levava sempre no bolso. Era já pequeno demais para o seu pulso.

Fechou os olhos na direção do sol e viu o sorriso da mãe por cima da bola amarela radiante. Abriu o olho esquerdo enquanto fechava o outro com força. Depois abriu o esquerdo enquanto tinha o direito fechado. Abriu os dois e só via pequenos pontos amarelos pontuados pelos lábios maternais. Se lhe prometessem o sorriso da mãe de volta, ela seria capaz de dar o sol em troca.

Sentou-se na calçada do passeio e foi assim que o namorado a encontrou.


- Amor, desculpa a demora mas a bomba aqui perto estava fechada e tive que voltar para trás para abastecer o carro na cidade! - desculpou-se Ivo com voz melosa.


- Não faz mal. O único problema é estarmos 40 minutos atrasados. Coisa pouca, portanto - atirou Raquel com um tom irónico, ao mesmo tempo que entrava na carrinha pão-de-forma.


 A viagem foi feita em silêncio. Apenas aquecia o ambiente uma cassete velha que passava música dos anos 80. O cão ladrava de quando em quando na parte de trás da carrinha, como se cantasse em coro as músicas de que mais gostava.


Só quando iam perto de Odemira é que Ivo ganhou coragem para falar.

- Sei que gostas que respeite o teu silêncio, mas estamos há 200 quilómetros sem falar. Preciso de saber o que se passa contigo. Estamos a começar as férias, não estamos a ir para um funeral para estares assim. Que cara é essa? É só por causa do meu atraso?


- Não só, mas também. O tempo que me deixaste à espera fez-me lembrar o dia em que os meus pais tiveram o acidente de carro e nunca mais apareciam na escola para me buscar. Ainda por cima pus-me a fazer contas e descobri que há dois dias fez 13 anos que aconteceu o acidente. E faz hoje 13 anos que foi o funeral da minha mãe.


- Desculpa o atraso, Raquel. A sério que o problema foi mesmo a falta de combustível. Eu saí de casa a tempo de te ir buscar à hora combinada.


- Ivo, eu não preciso de justificações. Preciso de acções. Preciso que nunca mais me deixes à espera. Preciso que caminhes ao meu lado e me dês a mão. É só isso que eu preciso.


Ele olhou para ela, com aquele olhar profundo que só os apaixonados podem entender. Com toda a ternura do mundo, mas por dentro a sentir-se culpado por se ter atrasado por ter estado aos beijos com a dita melhor amiga de Raquel. A sentir-se perdido por saber que ia ser cada vez mais difícil escolher uma das duas, condição essencial para ter uma vida sem traições nem mentiras.


E foi no momento em que ele tirou a mão da alavanca das mudanças para apertar com força a mão da namorada que ouviram uma buzina. Desviaram o olhar um do outro e a última coisa que viram foi um camião a bater de frente na carrinha. Morreram de mão dada.

O cão viria a ser encontrado morto na valeta, ao lado da carrinha pão-de-forma enfaixada no camião.

Raquel pôde finalmente abraçar a mãe e Ivo não precisou de escolher entre duas mulheres. Passou a eternidade de mão dada com Raquel.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A gaivota e eu

Uma gaivota pairava dourada sobre as nossas cabeças. Naquelas asas havia tanto sol que a nossa vista terrena não podia alcançar. Os raios do astro-rei já não pousavam sobre a nossa pele e só se deixavam ver naqueles braços cobertos de penas e nas pontas dos prédios mais altos.

Naquele momento eu queria apenas ser aquela gaivota voando feliz pelo céu azul de fim de tarde, voando indiferente a todas as desgraças que se passavam cá em baixo.


 Os meus pensamentos foram interrompidos por um dedo que se espetou nas minhas costas.


 - Desculpe menina, sabia que Deus veio ao mundo para nos salvar?


 Claro que eu sabia. Essa notícia era tão velha que era quase impossível não o saber. Mas se a senhora insistir em dar-me essa revista esteja certa de que vai parar àquele papelão, rematei decidida e virei a cara para ver quanto tempo ainda demorava a chegar o autocarro.


Sete longos minutos. Suspirei e voltei a pensar na gaivota. Pensei também na minha irmã que estava acamada e em fase terminal, no meu chefe que me tinha despedido duas horas antes com o argumento da crise, na minha mãe que me sorria apática na sua doença que a afasta do mundo, no meu namorado que me tinha trocado uns dias antes por um colega de trabalho.


A minha vida era feitas de coisas más. Só me apetecia fugir de tudo e de todos, mas o problema é que não podia fugir de mim própria. E a minha irmã precisava de mim. Naquele dia. Queria revelar-me as suas últimas vontades, queria dizer como seria o seu funeral. Eu é que teria que tratar de tudo.

Que crueldade, que vida tão inútil e frágil. O que faço eu aqui se não vou poder mais ouvir a sua voz, cheirar o seu perfume adocicado, pegar nas suas mãos, sentir o seu abraço quente, ficar em silêncio perante alguém durante horas e deixar apenas os olhos desabafar quando me apetecesse.

Já uma lágrima desobediente rolava pela minha face quando vi o autocarro finalmente aproximar-se. Sentei-me e abri distraidamente o jornal da manhã. Lembrei-me então de procurar trabalho nos classificados. Embora sem grande fé de encontrar alguma coisa, sempre era uma forma de manter a cabeça ocupada.


O que não esperava de todo era encontrar num dos quadradinhos o nome do meu primeiro namorado. Dono de uma churrasqueira agora, procurava uma empregada a tempo inteiro. Resolvi responder ao anúncio.

Este foi o princípio da vida feliz que tenho hoje ao lado do pai dos meus filhos e avô dos meus netos. E hoje sempre que vejo uma gaivota de asas douradas a pairar no céu lembro-me daquele dia que marcou a viragem do meu destino.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Sonhar pelos outros

Etelvina queria uma nora que soubesse bordar e coser para fazer companhia à lareira nas noites de inverno. Ajudar a cuidar da horta, limpar a casa e fazer a comida. Dar-lhe netos e criá-los. Que mais podia uma mulher querer da vida senão viver assim ao lado da sogra?
Na casa ao lado, Juventino queria um genro que soubesse pegar num tractor, lavrar a terra, rachar lenha e roçar mato. Beber um litro de vinho ao jantar, palitar os dentes, comer moelas na taberna e jogar cartas. Um genro assim era um sonho.


Um e outro eram viúvos e acreditavam que os filhos iriam casar com pessoas assim e lhes dariam netos para atenuar a solidão da velhice.


Só que aconteceu o que nenhum dos dois esperava. O filho de Etelvina e a filha de Juventino caíram de amores um pelo outro, depois de umas relações fugazes de que os pais não tinham tido conhecimento sequer. Vera e João conheciam-se desde sempre, mas só agora a paixão despertara. Mas nem um, nem outro correspondiam ao perfil de genro e nora de sonho.


Vera era engenheira e queria consolidar uma carreira antes de pensar em casar e ter filhos. João era enfermeiro e queria voltar a estudar para chegar a médico.


A paixão repentina, a relação arrebatadora em poucos meses não estavam nos planos. Nem este envolvimento estava nos planos dos pais de ambos. Viúvos e vizinhos, tinham estima um pelo outro, mas o que menos queriam era que os filhos se envolvessem. Não era isso que tinham sonhado para os filhos, simplesmente porque nem sequer sonhavam que os filhos fossem para a universidade. Sempre desejaram que tivessem um percurso como o seu, que não seguissem os estudos. E que lhes dessem netos rapidamente. Por isso, opuseram-se fortemente àquele namoro.


Etelvina e Juventino decidiram lutar juntos contra a relação dos filhos. Todos os dias juntavam-se para planear formas de sabotar o namoro. Inventavam mentiras aos filhos para denegrir a imagem de Vera aos olhos de João e vice-versa, arranjavam mil e um esquemas e até encontraram o genro e a nora perfeita para cada um, tentando atirá-los para os braços dos filhos.


Nada resultou. Quanto mais os tentavam afastar, mais eles se aproximavam. Chegou a um ponto em que Vera e João já não suportavam Etelvina e Juventino, os seus esquemas e mentiras. Em segredo arranjaram trabalho na Suíça, compraram os bilhetes e fizeram as malas. Os pais só souberam de tudo no dia da viagem.


Etelvina e Juventino perderam os filhos para sempre. Magoados com os pais, Vera e João nunca mais voltaram a Portugal. Etelvina e Juventino não chegaram a conhecer os netos, não viram João tornar-se médico e Vera dona de uma empresa de sucesso.


Apesar de tudo, Etelvina e Juventino sempre acharam que os filhos é que estavam errados e teriam que arrepender-se pelo que fizeram. E tanto se apoiaram um ao outro que acabaram por se envolver. E aos 53 anos Etelvina engravidou e Juventino voltou a ser pai.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Embrulhada

O vento quente do estio a deslizar pelos pêlos das pernas. Não há nada melhor neste mundo. Pelo menos era o que pensava Tomé enquanto ia pela estrada fora fintando os carros.

Os calções esverdeados não viam a luz do dia desde o outono anterior e até cheiravam a môfo, mas nada disso importava. Tomé acreditava que aquela peça de roupa lhe dava poderes especiais com as mulheres, até mesmo se estivessem enrugados. 


Afinal, todos os Verões arranjava namoradas giras e durante o resto do ano as raparigas não lhe ligavam. Só podia ser dos calções. Foi com eles que deu o primeiro beijo a sério, foi com eles que conquistou uma miúda que já tinha sido Miss Vindimas, foi com eles que foi eleito Mister Praia, foi com eles que passou tantos bons momentos. Tanto tempo que já tinham mudado de cor e ficado menos verdes com as lavagens.

Tomé ia agora a caminho da sua nova vida. Em breve teria o diploma de bombeiro profissional e então ninguém o pararia com as miúdas. Pelo menos assim pensava enquanto estacionava a sua scooter verde em frente à casa da miúda mais gira de Matosinhos.


Tinha combinado ir buscá-la para irem à praia, mas como sabia que os pais dela não estavam em casa decidiu ir mais cedo para tentar a sua sorte. Aqueles calções nunca falhavam. E não falharam também naquele dia.


O problema foi quando o pai dela entrou em casa e foi seguindo o rasto de roupas até ao quarto da filha, onde a encontrou enrolada com um rapaz. Os dois estavam tal como vieram ao mundo.


O problema foi quando o pai dela e Tomé viram a cara um do outro, o problema foi quando se olharam nos olhos, o problema foi quando perceberam a embrulhada em que se tinham metido.


É que ninguém dos três sabia que o pai de Tomé era também o pai da rapariga. Tinha duas famílias. Uma em Matosinhos e outra na Régua. E mal sonhava que naquele momento a sua filha estava grávida do seu próprio filho.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Ana Desenxabida

Há pessoas que têm o dom da palavra e outras que não têm. Ana Enxabida definitivamente não tinha.

Toda a sua vida foi passada na aldeia onde nasceu, tirando uma ou outra ida a médicos no Porto ou à cidade vizinha. Quando andava na escola e na catequese era sempre posta de parte pelos colegas e professores, porque estava sempre encolhida e raramente falava, mesmo quando lhe perguntavam alguma coisa. Foi por isso que lhe começaram a chamar Enxabida. E quando uma alcunha pega numa aldeia é para toda a vida. 

Nunca passou da quarta classe e mesmo para isso teve que lá andar 15 anos. Os pais também nunca a souberam ajudar, até porque eles também não tinham grandes amizades com a expressão oral. Depois de sair da escola, Ana Enxabida foi ajudar o pai a guardar o gado, mas nem para isso se ajeitava. Ficava encolhida junto a um carvalho ou uma oliveira enquanto o cão pastor fazia o trabalho todo sozinho.

O que ninguém sabia era que ela tinha grande aptidão para as artes plásticas. A mãe sabia apenas que ela passava todo o tempo livre a olhar para desenhos coloridos que encontrava no computador, na internet ou lá o que é. E que sempre que juntava dinheiro ia à loja dos chineses nas idas à cidade vizinha. 

Um dia a mãe percebeu que ela estava no quarto com umas tintas como aquelas de pintar paredes, mas em tubos mais pequenos. Pintava uns papéis ou tecidos brancos com uns pincéis mais pequenos do que as trinchas. A única coisa que pensou dessa vez é que o melhor era deixá-la entretida. Seria menos um empecilho na cozinha. E das vezes seguintes que viu o cenário pensou o mesmo.

Um dia quando foi à cidade Ana Enxabida viu um cartaz com um desenho colorido como os que gostava de pintar e leu que um pintor de Guimarães iria estar ali dentro de duas semanas para mostrar os seus novos quadros. A caminho de casa, na camioneta de carreira, Ana Enxabida não pensou noutra coisa. Até que no dia seguinte lhe ocorreu aparecer na tal exposição com alguns dos seus quadros.

- Fauvismo! - atirou o conhecido pintor ao ver as três telas. Isto é uma obra de arte menina!

Magia ou não, ao fim de mais de 20 anos a língua dela soltou-se, endireitou as costas e apontou com ar resoluto:

- Fui eu que pintei. E tenho muitas mais em casa. Se me aceitar como discípula podemos dividir lucros de exposições que eu venha a fazer.

Dez anos depois regressou à aldeia natal para ir ao funeral da mãe. Bem vestida e de pose altiva, de braço dado com um rico marido pintor francês, ninguém mais se atreveu a chamar-lhe Enxabida. A partir daí passou a ser conhecida por lá como Ana Desenxabida.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Mariana e as redes

Mariana não gostava nada de andar de comboio. Mas desde que entrou na universidade em Coimbra, no princípio do ano, era obrigada a andar todos os dias naquelas carruagens que detestava entre a Mealhada e a cidade que dizem ser dos estudantes.

O desejo dela era poder viver perto da faculdade, só que os pais preferiam que ficasse em casa da avó a fazer-lhe companhia.

As aborrecidas viagens de comboio só ganharam um novo sentido em Janeiro quando os pais lhe mandaram de França um telemóvel de última geração como prenda de aniversário. 

Desde então já nem se importa de andar de comboio, porque o tempo é agora passado nas redes sociais, a ouvir música, ver fotos e em jogos super coloridos.

O melhor mesmo para ela é ir ao Facebook. É como entrar numa sala onde estão todos os seus amigos, saber tudo o que há de novo, contar-lhes todas as novidades, partilhar vídeos e fotos com eles. 

E depois, a qualquer momento que lhe apeteça, fechar a porta sem se despedir nem se explicar. E ficar sozinha de novo, entregue aos jogos supercoloridos ou então ao sono.

O grande problema foi o dia em que adormeceu a meio do caminho e quando chegou a Coimbra já não tinha o seu fantástico telemóvel de última geração.