Acordou sobressaltado com a sensação de que o coração lhe iria saltar
pela boca. Olhou à volta, viu que estava no quarto, e concluiu que teria
apenas tido um pesadelo. Mas não foi. Na verdade, foi um tremor de terra
que o acordou.
O relógio marcava quatro e dez da manhã. Os primeiros raios de sol já
entravam pelo quarto, o que o fez pensar que nunca se conseguiria
habituar à duração dos dias nos países nórdicos. E agora nem era a
altura do ano em que a claridade chega mais cedo. Depois destes primeiros
pensamentos é que olhou à volta e viu os livros no chão e tudo
desordenado no quarto. Sentiu então a cama a abanar novamente e deu-se
conta de que era um sismo.
Agora é que não percebia nada. Um tremor de terra assim não era nada
comum nos países nórdicos. Só então se lembrou que o melhor seria
proteger-se, mas por mais que puxasse pela cabeça não se conseguia
lembrar de nenhuma das regras básicas de segurança.
Pelo contrário, só lhe ocorria saltar pela janela. Já estava a abri-la
quando raciocinou que não seria uma boa ideia saltar do 15.º andar.
Voltou para dentro. Fechou a janela.
Um novo tremor abalou o quarto. Foi
pôr-se debaixo da cama bem quietinho à espera que tudo passasse. Fechou
os olhos e imaginou que a mãe o abraçava, como quando em criança
acordava com pesadelos e tinha medo de fantasmas. A terra não parava de tremer e o temor dele crescia.
Subitamente a maçaneta rodou e ouviu passos. Uma mulher chamou pelo seu
nome. Saiu e pôs-se em pé. À sua frente estava a mãe. A mesma que tinha
morrido há quase vinte anos. Ele piscou os olhos e esfregou-os sem
perceber o que se passava.
- Amor, vim buscar-te para irmos para o céu. Morreste, mas não tenhas medo. A mãe está aqui para te abraçar.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Sonhos autopsiados
- Triste de quem tem sonhos e nunca os realiza. Triste de quem tem sonhos e
nunca faz nada para os realizar. -atirou Manel, batendo a mão no tampo
da mesa onde jazia um corpo pálido.
- Mas tu acreditas mesmo nisso? Achas que o Heitor fez bem em concretizar o sonho dele e passar os meses seguintes com fome? - questionou Alice com o sobrolho franzido e a serra na mão direita.
- O Heitor tinha o sonho de ter um Ferrari amarelo. Que mal tem conduzir um carrão quando se tem a barriga vazia? O que conta são as aparências! Pensas que ele teve poucas namoradas à custa do carro, Alice?
- Disso até nem duvido, Manel. Mas só o facto de ter de viver em casa dos pais depois dos 40 anos só para poder juntar dinheiro para comprar o carro... E depois fazer um empréstimo para pagar o restante e ficar à míngua quando os pais morreram no desastre de avião. Não me convences de que ele era feliz.
- Minha querida, pelo menos seria feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo.
- Seria talvez, meu querido - atirou Alice num tom irónico. Mas essa é unicamente uma felicidade vã, que se esvai à medida que o objeto da nossa felicidade se afasta de nós e deixa de ser uma fonte inesgotável de prazer imediato.
- Sim, senhor. Estamos muito filosóficos hoje. Então diz-me lá, cara colega, se achas que há felicidade eterna, perene.
- Certamente que não se pode ser feliz 24 horas por dia, 365 dias por ano, mas pode ser-se feliz tendo aquela felicidade que se mistura com a tranquiilidade e a segurança de quem está em paz consigo próprio, com os outros à sua volta e com o mundo.
- Então concordas afinal que o Heitor era feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo?
- Em parte sim. Até admito que fosse feliz quando o conduzia a uma velocidade estonteante e se despistou na auto-estrada. Apesar de estar na miséria, ainda teve dinheiro para derreter em gasolina e se matar a si próprio. Manel, acredito piamente que o Heitor era feliz no momento em que morreu, apenas porque cumpria o seu grande sonho.
- Sabes Alice, estou é a ficar atrasado. A seguir tenho que ir dar uma aula de Medicina Legal ali na faculdade. Mas quando morrermos podemos esclarecer tudo isto. O que é certo é que a autópsia está feita e eu preciso de um café. Anda daí, hoje pago eu, que estou transitoriamente feliz.
- Mas tu acreditas mesmo nisso? Achas que o Heitor fez bem em concretizar o sonho dele e passar os meses seguintes com fome? - questionou Alice com o sobrolho franzido e a serra na mão direita.
- O Heitor tinha o sonho de ter um Ferrari amarelo. Que mal tem conduzir um carrão quando se tem a barriga vazia? O que conta são as aparências! Pensas que ele teve poucas namoradas à custa do carro, Alice?
- Disso até nem duvido, Manel. Mas só o facto de ter de viver em casa dos pais depois dos 40 anos só para poder juntar dinheiro para comprar o carro... E depois fazer um empréstimo para pagar o restante e ficar à míngua quando os pais morreram no desastre de avião. Não me convences de que ele era feliz.
- Minha querida, pelo menos seria feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo.
- Seria talvez, meu querido - atirou Alice num tom irónico. Mas essa é unicamente uma felicidade vã, que se esvai à medida que o objeto da nossa felicidade se afasta de nós e deixa de ser uma fonte inesgotável de prazer imediato.
- Sim, senhor. Estamos muito filosóficos hoje. Então diz-me lá, cara colega, se achas que há felicidade eterna, perene.
- Certamente que não se pode ser feliz 24 horas por dia, 365 dias por ano, mas pode ser-se feliz tendo aquela felicidade que se mistura com a tranquiilidade e a segurança de quem está em paz consigo próprio, com os outros à sua volta e com o mundo.
- Então concordas afinal que o Heitor era feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo?
- Em parte sim. Até admito que fosse feliz quando o conduzia a uma velocidade estonteante e se despistou na auto-estrada. Apesar de estar na miséria, ainda teve dinheiro para derreter em gasolina e se matar a si próprio. Manel, acredito piamente que o Heitor era feliz no momento em que morreu, apenas porque cumpria o seu grande sonho.
- Sabes Alice, estou é a ficar atrasado. A seguir tenho que ir dar uma aula de Medicina Legal ali na faculdade. Mas quando morrermos podemos esclarecer tudo isto. O que é certo é que a autópsia está feita e eu preciso de um café. Anda daí, hoje pago eu, que estou transitoriamente feliz.
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
Melro
Olhou para o relógio. Eram quase cinco da tarde e ainda não tinha
escrito nada de jeito. Não tardaria o telefone iria tocar e ela teria
que inventar uma desculpa para ainda não ter pronta a coluna para o
semanário da região.
Olhou para a rua através da janela. Viu um melro e naquele momento desejou ter assim um fato de penas pretas e um bico alaranjado. Poder voar para longe e só fazer o que lhe apetecesse. Andar à chuva, saltar de árvore em árvore, urinar em cima das pessoas de que não gostasse. Assim a vida haveria de valer a pena.
Olhou para o computador. A folha de texto ainda estava em branco. Pegou num lápis e num papel. Em vez de palavras, saiu-lhe um desenho. Os dedos retrataram espontaneamente um pássaro, mais precisamente um melro.
Olhou para o telemóvel. O chefe de redação estava a telefonar-lhe, porque já tinha passado o prazo de entregar o texto. Atendeu e disse-lhe que esta semana tinha uma coisa diferente. Um desenho que na realidade era uma caricatura.
Fez-se um silêncio do outro lado do telefone. Ele não sabia o que responder. Texto era o que ele precisava, mas nada lhe restava senão aceitar o desenho, pois tinha o espaço para preencher. Ela voltou a perguntar-lhe se o podia enviar e ele assentiu. Mal podia imaginar o ataque de fúria que lhe iria dar ao abrir o e-mail e ver que a caricatura era na realidade o desenho de um animal com corpo de melro e com a cara dela.
Olhou para a rua através da janela. Viu um melro e naquele momento desejou ter assim um fato de penas pretas e um bico alaranjado. Poder voar para longe e só fazer o que lhe apetecesse. Andar à chuva, saltar de árvore em árvore, urinar em cima das pessoas de que não gostasse. Assim a vida haveria de valer a pena.
Olhou para o computador. A folha de texto ainda estava em branco. Pegou num lápis e num papel. Em vez de palavras, saiu-lhe um desenho. Os dedos retrataram espontaneamente um pássaro, mais precisamente um melro.
Olhou para o telemóvel. O chefe de redação estava a telefonar-lhe, porque já tinha passado o prazo de entregar o texto. Atendeu e disse-lhe que esta semana tinha uma coisa diferente. Um desenho que na realidade era uma caricatura.
Fez-se um silêncio do outro lado do telefone. Ele não sabia o que responder. Texto era o que ele precisava, mas nada lhe restava senão aceitar o desenho, pois tinha o espaço para preencher. Ela voltou a perguntar-lhe se o podia enviar e ele assentiu. Mal podia imaginar o ataque de fúria que lhe iria dar ao abrir o e-mail e ver que a caricatura era na realidade o desenho de um animal com corpo de melro e com a cara dela.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Avante
Uma pedra dá uma sombra maior do que um pau. À sombra desta pedra, no
cimo desta serra, avisto tanto quanto vejo. Avisto o mundo. O que não
vejo daqui não pertence ao mundo.
A minha mulher trocou-me por um pedreiro com os dentes desbotados do vinho e eu fiquei para aí com as minhas ovelhas e cabras. Eu não bebo vinho há quinze anos, desde que ela me deixou.
Não preciso de mulheres para nada. Só servem para deixar a cabeça mais pesada a um homem. Aquele par de cornos que ela me pôs nunca mais saiu da minha testa.
O serviço de casa e a comida aprendi a fazer sozinho desde que ela me deixou. Consegui levar a vida avante sem ela. Não preciso de mulheres para nada.
Ela dizia sempre que eu não tinha ambições, que era por isso que o nosso filho não queria saber de nós e que tinha vergonha de nós. Eu é que não quero saber disso para nada. Se eu mandasse, ele seria pastor como eu, ajudaria o pai a juntar ovelhas e cabras. Não seria engravatadinho, não trabalharia num banco, não viveria na cidade, não alimentaria o capital.
Mas eu só mando em mim e nos meus animais e isso já me basta por agora. Vivo entre a serra e as pedras, vivo comigo mesmo e à noite deito-me com a solidão.
Deixo a aldeia duas vezes por mês para comprar coisas na vila. Não sei o que são feriados ou fins-de-semana. Férias são os dias que passo na Quinta da Atalaia com os meus camaradas a ajudar a montar e a fazer a Festa do Avante.
Agora que tudo acabou mais uma vez estou de volta a casa e à vida ensimesmada. Olho à volta e só vejo sombras. Até eu sou uma sombra do que fui. Resta-me contar os dias até voltar ao Avante e poder viver numa extensão do mundo, num mundo irreal com que sonho em todos os outros dias do ano.
A minha mulher trocou-me por um pedreiro com os dentes desbotados do vinho e eu fiquei para aí com as minhas ovelhas e cabras. Eu não bebo vinho há quinze anos, desde que ela me deixou.
Não preciso de mulheres para nada. Só servem para deixar a cabeça mais pesada a um homem. Aquele par de cornos que ela me pôs nunca mais saiu da minha testa.
O serviço de casa e a comida aprendi a fazer sozinho desde que ela me deixou. Consegui levar a vida avante sem ela. Não preciso de mulheres para nada.
Ela dizia sempre que eu não tinha ambições, que era por isso que o nosso filho não queria saber de nós e que tinha vergonha de nós. Eu é que não quero saber disso para nada. Se eu mandasse, ele seria pastor como eu, ajudaria o pai a juntar ovelhas e cabras. Não seria engravatadinho, não trabalharia num banco, não viveria na cidade, não alimentaria o capital.
Mas eu só mando em mim e nos meus animais e isso já me basta por agora. Vivo entre a serra e as pedras, vivo comigo mesmo e à noite deito-me com a solidão.
Deixo a aldeia duas vezes por mês para comprar coisas na vila. Não sei o que são feriados ou fins-de-semana. Férias são os dias que passo na Quinta da Atalaia com os meus camaradas a ajudar a montar e a fazer a Festa do Avante.
Agora que tudo acabou mais uma vez estou de volta a casa e à vida ensimesmada. Olho à volta e só vejo sombras. Até eu sou uma sombra do que fui. Resta-me contar os dias até voltar ao Avante e poder viver numa extensão do mundo, num mundo irreal com que sonho em todos os outros dias do ano.
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Crispim
Em quase todas as famílias ricas há divergências políticas. Em casa de Crispim também assim era.
O pai sempre fora socialista, mesmo antes do 25 de Abril. A mãe fora na juventude trotskista, mas depois da Revolução passou por vários partidos que viriam a desaparecer até aterrar finalmente nos sociais-democratas. A avó era comunista desde pequena, só que fingia ser de direita desde que começou a namorar com o avô. Uma longa história que mete vira-casacas ao barulho, mentiras, amores e desaguisados. Enfim, cada um tinha a sua tendência política. Menos Crispim.
Sempre achara que a política era um mero jogo de interesses e conveniências, lutas de poder e prepotência, histórias de dinheiro e de guerra. Nada disso lhe interessava. Desde criança que só queria jogar à bola, fintar as miúdas, passar a vida a passear de bicicleta e fazer novos amigos. Chegou a ter três namoradas na escola, todas da mesma turma. A tendência manteve-se pela vida fora e agora que era jogador de futebol profissional tinha quantas raparigas queria.
Em casa esta carreira era uma dor de cabeça. O pai queria que ele tivesse estudado Direito, fizesse parte de uma juventude partidária e se tornasse deputado e quiçá secretário de Estado. A mãe gostava que ele fosse engenheiro mecânico e liderasse uma grande empresa do ramo automóvel. Podia arranjar uma bela e rica mulher que seria a nora perfeita para qualquer sogra de bem. A avó dizia que teria gosto em ter um neto gestor de empresas ou gerente de um banco ou então presidente da Câmara. Só que na realidade ela queria que ele fosse manifestante profissional, daqueles que se vêem diariamente nas manifestações na televisão. Como seria fantástico ter um neto que seguisse o caminho que ela não pôde seguir por amor. Mas isso ela não confessaria em voz alta.
Naquela família havia dinheiro a rodos, mas toda a gente andava angustiada. Filho único e neto único, Crispim concentrava muitas expectativas. A gota de água foi quando anunciou que iria casar com uma modelo, que na realidade era uma antiga concorrente de um programa de variedades da televisão, um "reality show".
Ninguém daquela casa foi ao casamento de Crispim. Mal saberiam que daí a três dias iriam ao seu funeral. Teve um acidente na noite depois do casamento. A noiva sobreviveu e só no hospital soube que afinal estava grávida. O pai, a mãe e a avó de Crispim arrependeram-se de não terem ido ao casamento, de não abraçarem e beijarem Crispim naquele dia tão importante da sua vida. O último dia da sua vida.
Agora que a família iria ter um descendente, decidiram passar uma borracha sobre o passado e não voltar a cometer os mesmos erros. Acolheram a grávida em casa e ajudariam a criar o bebé, educando-o sem pressões para que fosse o que bem entendesse na vida e não escolhesse apenas uma profissão para contrariar a família. Mal sabiam que daí a 40 anos o rapaz viria a ser primeiro-ministro.
O pai sempre fora socialista, mesmo antes do 25 de Abril. A mãe fora na juventude trotskista, mas depois da Revolução passou por vários partidos que viriam a desaparecer até aterrar finalmente nos sociais-democratas. A avó era comunista desde pequena, só que fingia ser de direita desde que começou a namorar com o avô. Uma longa história que mete vira-casacas ao barulho, mentiras, amores e desaguisados. Enfim, cada um tinha a sua tendência política. Menos Crispim.
Sempre achara que a política era um mero jogo de interesses e conveniências, lutas de poder e prepotência, histórias de dinheiro e de guerra. Nada disso lhe interessava. Desde criança que só queria jogar à bola, fintar as miúdas, passar a vida a passear de bicicleta e fazer novos amigos. Chegou a ter três namoradas na escola, todas da mesma turma. A tendência manteve-se pela vida fora e agora que era jogador de futebol profissional tinha quantas raparigas queria.
Em casa esta carreira era uma dor de cabeça. O pai queria que ele tivesse estudado Direito, fizesse parte de uma juventude partidária e se tornasse deputado e quiçá secretário de Estado. A mãe gostava que ele fosse engenheiro mecânico e liderasse uma grande empresa do ramo automóvel. Podia arranjar uma bela e rica mulher que seria a nora perfeita para qualquer sogra de bem. A avó dizia que teria gosto em ter um neto gestor de empresas ou gerente de um banco ou então presidente da Câmara. Só que na realidade ela queria que ele fosse manifestante profissional, daqueles que se vêem diariamente nas manifestações na televisão. Como seria fantástico ter um neto que seguisse o caminho que ela não pôde seguir por amor. Mas isso ela não confessaria em voz alta.
Naquela família havia dinheiro a rodos, mas toda a gente andava angustiada. Filho único e neto único, Crispim concentrava muitas expectativas. A gota de água foi quando anunciou que iria casar com uma modelo, que na realidade era uma antiga concorrente de um programa de variedades da televisão, um "reality show".
Ninguém daquela casa foi ao casamento de Crispim. Mal saberiam que daí a três dias iriam ao seu funeral. Teve um acidente na noite depois do casamento. A noiva sobreviveu e só no hospital soube que afinal estava grávida. O pai, a mãe e a avó de Crispim arrependeram-se de não terem ido ao casamento, de não abraçarem e beijarem Crispim naquele dia tão importante da sua vida. O último dia da sua vida.
Agora que a família iria ter um descendente, decidiram passar uma borracha sobre o passado e não voltar a cometer os mesmos erros. Acolheram a grávida em casa e ajudariam a criar o bebé, educando-o sem pressões para que fosse o que bem entendesse na vida e não escolhesse apenas uma profissão para contrariar a família. Mal sabiam que daí a 40 anos o rapaz viria a ser primeiro-ministro.
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