Todos os dias sinto-me prisioneiro dentro de um corpo que não é meu, que não reconheço como meu.
Nasci homem mas desde que me lembro que nunca gostei de ser homem.
Recordo o pavor que tive quando me nasceram os primeiros pêlos de barba,
quando as pernas começaram a ficar cabeludas e quando a voz começou a
engrossar.
Quando tive idade suficiente para lutar contra as ideias
feitas do meu pai saí de casa. Fui para a cidade grande assumir-me como
era. Mas a capital não estava preparada para mim no Portugal retrógrado
dos anos 60. Tive que emigrar.
Tornei-me travesti e todas as noites podia ser quem eu queria ser na
realidade. Fui muito feliz. Mas na verdade não conseguia ver que a
felicidade seria ainda maior se eu pudesse ser mulher 24 horas por dia,
mesmo fora dos clubes noturnos e daquela vida que eu levava.
Agora que estou velho consigo ver isso. Voltei à minha aldeia e parece
que aquelas cabeças ficaram paradas no tempo e não estão preparadas para
me aceitar.
A minha família não me aceita também. E eu não posso
aceitar tão pouco quem não me ama como eu sou.
Por isso, agora que olho
pela janela do comboio e vejo a minha vida a passar em retrospectiva,
tomo uma decisão. Vou fazer uma operação de mudança de sexo.
Vou
tornar-me por fora a mulher que já sou por dentro. Só assim poderei ser
totalmente feliz e estar em paz comigo mesmo - ou melhor, comigo mesma.
segunda-feira, 30 de março de 2015
segunda-feira, 23 de março de 2015
O sentido da vida
Suspirou enquanto dava a última dentada na sandes enxabida que tinha ido
buscar à máquina para servir de almoço naquela segunda-feira maldita. O
relógio dizia que tinha que se despachar porque tinha muito trabalho para fazer naquele dia.
Enquanto mastigava o último pedaço, veio-lhe à cabeça a eterna dúvida: qual é o sentido da vida? Mas não tinha tempo para pensar nisso agora. Para mais, ainda há um mês quase tinha dado em doida a pensar nisso.
Na altura, pensava nisso em qualquer instante em que o pensamento corria livre - no trânsito, a passar a ferro, ou até na sanita. Não chegara a qualquer conclusão. Continuava sem saber qual o sentido de andar aqui em cima da terra. A fazer peso ao chão, como alguns dizem.
Todos os dias era o mesmo: levantar, tomar banho, vestir, comer, despachar os miúdos, ir levá-los à escola, atravessar a cidade para chegar ao trabalho, ter que ouvir comentários machistas no trabalho nos dias em que lhe apetecia levar uma saia mais curta ou uma maquilhagem mais carregada, levar com o mau feitio do chefe prepotente que diz a toda a hora que já não se fazem secretárias como antigamente e apetecer dar-lhe com o dossiê na cabeça mas nada poder fazer, voltar para casa, dar banho aos miúdos, comer a comida insossa que o marido fez, passar a ferro a ver uma qualquer série em que os outros são sempre felizes no final do episódio, ir dormir. E no outro dia: começar tudo de novo.
Tentou fazer o exercício ao contrário, e ver as coisas positivas da sua vida. Tinha dois filhos lindos, saudáveis e inteligentes. Tinha o melhor marido do mundo, que a adorava e que ela adorava. Tinha dois amantes que a faziam sentir-se uma mulher maravilhosa.
Conseguia gerir o tempo ao centésimo de segundo, de forma que se desdobrava entre todos os papéis da sua vida sem ninguém se queixar. Como o fazia não sabia. Aliás, nunca tinha pensado nisso. Era uma capacidade inata: mentir, manipular. Só agora se dava conta disso e de como isso era precisamente o motor da sua vida.
Porém, continuava sem ter a resposta à pergunta sobre o sentido da vida. E foi então que decidiu ir afastando essa questão. Até ao momento em que trincava aquela sanduíche na segunda-feira à hora de almoço. A pergunta voltou então.
De novo martelava na cabeça em cada pedaço de tempo livre. E até lhe começou a tirar a concentração no trabalho. Foi uma semana terrível. Mas lá veio a sexta-feira. Era um dia de que gostava particularmente, porque a hora de almoço era passada com o amante de quem mais gostava.
Depois de estacionar o carro à porta do prédio onde se encontravam habitualmente, olhou para o retrovisor e ajeitou o cabelo. Sorriu para o reflexo do espelho e viu uma mulher quarentona - mas feliz. E só então - de forma repentina e inexplicavelmente - compreendeu que o sentido da vida é ser feliz, sentindo-se feliz com as pequenas coisas da vida.
Enquanto mastigava o último pedaço, veio-lhe à cabeça a eterna dúvida: qual é o sentido da vida? Mas não tinha tempo para pensar nisso agora. Para mais, ainda há um mês quase tinha dado em doida a pensar nisso.
Na altura, pensava nisso em qualquer instante em que o pensamento corria livre - no trânsito, a passar a ferro, ou até na sanita. Não chegara a qualquer conclusão. Continuava sem saber qual o sentido de andar aqui em cima da terra. A fazer peso ao chão, como alguns dizem.
Todos os dias era o mesmo: levantar, tomar banho, vestir, comer, despachar os miúdos, ir levá-los à escola, atravessar a cidade para chegar ao trabalho, ter que ouvir comentários machistas no trabalho nos dias em que lhe apetecia levar uma saia mais curta ou uma maquilhagem mais carregada, levar com o mau feitio do chefe prepotente que diz a toda a hora que já não se fazem secretárias como antigamente e apetecer dar-lhe com o dossiê na cabeça mas nada poder fazer, voltar para casa, dar banho aos miúdos, comer a comida insossa que o marido fez, passar a ferro a ver uma qualquer série em que os outros são sempre felizes no final do episódio, ir dormir. E no outro dia: começar tudo de novo.
Tentou fazer o exercício ao contrário, e ver as coisas positivas da sua vida. Tinha dois filhos lindos, saudáveis e inteligentes. Tinha o melhor marido do mundo, que a adorava e que ela adorava. Tinha dois amantes que a faziam sentir-se uma mulher maravilhosa.
Conseguia gerir o tempo ao centésimo de segundo, de forma que se desdobrava entre todos os papéis da sua vida sem ninguém se queixar. Como o fazia não sabia. Aliás, nunca tinha pensado nisso. Era uma capacidade inata: mentir, manipular. Só agora se dava conta disso e de como isso era precisamente o motor da sua vida.
Porém, continuava sem ter a resposta à pergunta sobre o sentido da vida. E foi então que decidiu ir afastando essa questão. Até ao momento em que trincava aquela sanduíche na segunda-feira à hora de almoço. A pergunta voltou então.
De novo martelava na cabeça em cada pedaço de tempo livre. E até lhe começou a tirar a concentração no trabalho. Foi uma semana terrível. Mas lá veio a sexta-feira. Era um dia de que gostava particularmente, porque a hora de almoço era passada com o amante de quem mais gostava.
Depois de estacionar o carro à porta do prédio onde se encontravam habitualmente, olhou para o retrovisor e ajeitou o cabelo. Sorriu para o reflexo do espelho e viu uma mulher quarentona - mas feliz. E só então - de forma repentina e inexplicavelmente - compreendeu que o sentido da vida é ser feliz, sentindo-se feliz com as pequenas coisas da vida.
segunda-feira, 16 de março de 2015
Amor
Não há maior e melhor amor na vida do que o amor por um filho. Já tive
muitos homens em meio século de vida, mas nenhum se equipara ao amor pelo meu filho.
O amor por um qualquer homem só leva à perdição, à desgraça, à miséria, à ignomínia. Pelo contrário, o amor por um filho eleva-nos, torna-nos superiores e quase celestiais.
Temos a oportunidade de nos aperfeiçoarmos naquela figura e temos a ilusão de que podemos mudar o mundo com a sua educação. Pura ilusão. Mas impossível de ser afastada.
Facto é que nunca deixarei de amar o meu filho, ao passo que o amor por um homem muda de cambiante, transfigura-se e desvanesce com o tempo - e sobretudo com a convivência.
Não preciso desses amores banais para viver. São como fósforos. Existem às centenas. Acendem-se, iluminam e depois apagam-se. Mas não saberia viver sem o amor do meu filho.
Não conseguiria mais respirar se não o pudesse ver mais na vida. Ouvir a sua voz, abraçá-lo, beijá-lo. Preferia atirar-me para a morte, qual Anna Karenina. Não suportaria ficar sem o amor mais puro, verdadeiro e eterno que existe neste mundo.
Quem pensa de outro modo está enganado. Ou então teve a felicidade de encontrar um amor pleno num qualquer homem. Daqueles que se encontram uma vez de cem em cem anos.
O amor por um qualquer homem só leva à perdição, à desgraça, à miséria, à ignomínia. Pelo contrário, o amor por um filho eleva-nos, torna-nos superiores e quase celestiais.
Temos a oportunidade de nos aperfeiçoarmos naquela figura e temos a ilusão de que podemos mudar o mundo com a sua educação. Pura ilusão. Mas impossível de ser afastada.
Facto é que nunca deixarei de amar o meu filho, ao passo que o amor por um homem muda de cambiante, transfigura-se e desvanesce com o tempo - e sobretudo com a convivência.
Não preciso desses amores banais para viver. São como fósforos. Existem às centenas. Acendem-se, iluminam e depois apagam-se. Mas não saberia viver sem o amor do meu filho.
Não conseguiria mais respirar se não o pudesse ver mais na vida. Ouvir a sua voz, abraçá-lo, beijá-lo. Preferia atirar-me para a morte, qual Anna Karenina. Não suportaria ficar sem o amor mais puro, verdadeiro e eterno que existe neste mundo.
Quem pensa de outro modo está enganado. Ou então teve a felicidade de encontrar um amor pleno num qualquer homem. Daqueles que se encontram uma vez de cem em cem anos.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Guerra
A noite escura traz-me os maus pensamentos que queria esquecer. Não consigo dormir e arrasto-me pela casa como um fantasma.
Olho para a minha mulher a dormir. Passo pelo quarto dos miúdos e vejo dois anjinhos de olhos fechados. Quem me dera voltar a ser criança. Não saber o que se passa no mundo, não conhecer a miséria humana, não ter ido à guerra, não ter vivido nada do que vivi nos últimos meses.
Nunca senti tanto nojo de mim próprio como agora. Olho para as minhas mãos à luz ténue do candeeiro que ilumina a sala e só vejo sangue. Sinto que tenho as mãos sujas para sempre.
Fecho os olhos para tentar esquecer, mas é pior. Só me aparecem imagens de cenas de guerra. Cruas. Cruéis. Frias. Negras. Flashes que não consigo apagar da memória. Sobretudo os momentos em que matei pessoas.
Sim, eu matei. Eu tirei a vida a pessoas. Não eram inimigos. Eram pessoas. Tomei consciência disso de cada vez que as via tombar por minha causa.
Não sei lidar com isto. Como pode alguém ter o direito de tirar a vida de outra pessoa? Tudo me parecia bem resolvido na minha cabeça antes desta minha primeira missão na guerra. Agora sei que não fui feito para isto.
É como se a cada morte eu visse acorrer à volta do corpo toda uma família que ficou desfeita e indefesa. Eu não tinha o direito de lhe tirar a vida. Eu não tinha.
A minha mulher já me perguntou o que se passava, porque sente que eu não estou bem. Mas eu não tenho coragem de lhe confessar a verdade. Sinto vergonha só de olhar para ela. Tão pura, tão limpa, tão longe daquele mundo pérfido por onde andei.
Eu cheguei há três dias e ainda não fui capaz de ir para a cama com ela. Sinto-me sujo e sinto que não a posso manchar.
Passo as noites em branco a pensar numa solução para isto. O meu chefe acha que eu preciso de tratamento psicológico. Eu acho que preciso de sair do exército.
Não consigo mais pegar numa arma. Tenho que mudar de vida. Preciso de me afastar desse mundo. Amanhã vou falar com o meu chefe. Amanhã vou falar com a minha mulher. Amanhã vou mudar.
Olho para a minha mulher a dormir. Passo pelo quarto dos miúdos e vejo dois anjinhos de olhos fechados. Quem me dera voltar a ser criança. Não saber o que se passa no mundo, não conhecer a miséria humana, não ter ido à guerra, não ter vivido nada do que vivi nos últimos meses.
Nunca senti tanto nojo de mim próprio como agora. Olho para as minhas mãos à luz ténue do candeeiro que ilumina a sala e só vejo sangue. Sinto que tenho as mãos sujas para sempre.
Fecho os olhos para tentar esquecer, mas é pior. Só me aparecem imagens de cenas de guerra. Cruas. Cruéis. Frias. Negras. Flashes que não consigo apagar da memória. Sobretudo os momentos em que matei pessoas.
Sim, eu matei. Eu tirei a vida a pessoas. Não eram inimigos. Eram pessoas. Tomei consciência disso de cada vez que as via tombar por minha causa.
Não sei lidar com isto. Como pode alguém ter o direito de tirar a vida de outra pessoa? Tudo me parecia bem resolvido na minha cabeça antes desta minha primeira missão na guerra. Agora sei que não fui feito para isto.
É como se a cada morte eu visse acorrer à volta do corpo toda uma família que ficou desfeita e indefesa. Eu não tinha o direito de lhe tirar a vida. Eu não tinha.
A minha mulher já me perguntou o que se passava, porque sente que eu não estou bem. Mas eu não tenho coragem de lhe confessar a verdade. Sinto vergonha só de olhar para ela. Tão pura, tão limpa, tão longe daquele mundo pérfido por onde andei.
Eu cheguei há três dias e ainda não fui capaz de ir para a cama com ela. Sinto-me sujo e sinto que não a posso manchar.
Passo as noites em branco a pensar numa solução para isto. O meu chefe acha que eu preciso de tratamento psicológico. Eu acho que preciso de sair do exército.
Não consigo mais pegar numa arma. Tenho que mudar de vida. Preciso de me afastar desse mundo. Amanhã vou falar com o meu chefe. Amanhã vou falar com a minha mulher. Amanhã vou mudar.
segunda-feira, 2 de março de 2015
É complicado
Desprendo as mangas que me atam os braços. Dispo as calças que me cobrem
as pernas. Atiro com os pedaços de couro que me tapam os pés. Ficam a rebolar pela duna abaixo.
Corro pela areia molhada e fecho os olhos ao sentir o vento a bater-me no rosto e nos cabelos. Rodopio pela praia que esta manhã é só minha. A maresia fresca enche-me o peito. É como se voltasse a ser jovem. Não preciso de mais nada para me sentir bem. Melhor só: mergulhar nas ondas frias que me deixam a pele eriçada.
Abro os olhos ao vir à tona e logo regressa o pensamento da minha filha. Vim aqui para me distrair, mas é difícil. Não há dor maior neste mundo do que perder uma filha. Ela tinha 40 anos. Deixou um menino de 12 anos. Deixou uma vida por concretizar, planos por realizar, caminhos por percorrer, deixou tudo por viver.
Não devia ser permitido que um filho morresse antes dos pais. Não é natural, não é justo. Um AVC não é nome que se dê a uma morte. A falta de idas ao médico e o excesso de trabalho são culpados, mas não deviam ser razões suficientes para morrer.
A minha revolta salta-me do peito de cada vez que me lembro do seu sorriso puro, que me remete para aquele tempo em que era uma menina de sete anos com um vestido aos lacinhos amarelos e um chapéu de palha a pedir-me para lhe descascar uma maçã enquanto apontava para uma macieira na quinta do meu pai em Felgueiras.
Não posso aceitar que a morte a tenha roubado à minha vida.
As lágrimas que me escorrem pelo pescoço misturam-se com a água salgada que boia à minha volta. Quem me dera ser como esta espuma branca e não sentir nada. Não ter que sentir o coração dilacerado de cada vez que olho para o rosto amargurado do meu marido.
Sentado na sua cadeira de rodas, agarrado ao andarilho, ou virado de lado na cama, os seus olhos têm sempre a mesma mensagem. É um pai que não sabe mais onde há-de meter tanta dor. E eu queria ajudá-lo mas não sei como. É também com dificuldade que lido com a minha cruz, com este peso que me puxa para o chão de cada vez que dou um passo.
Saio da praia, pego no carro e volto para casa. Ao fundo do prédio as vizinhas olham-me com compaixão enquanto se acotovelam a mirar-me ao caminhar naquela direcção. De nada me serve a pena delas.
Uma decide continuar a conversa e dizer que a receita que a outra lhe sugeria era muito complicada. "É complicado", apontava com a sua voz fininha e impertinente. Só me apetecia dizer-lhe: "Minha senhora, nada é complicado nesta vida. Tudo se faz, tudo tem solução. Complicado é mesmo o que não tem remédio. Complicado é morrer aos 40 anos."
Engulo a minha vontade em seco. Atiro um bom dia às três e rodo a chave na porta do prédio. De repente, penso que a minha filha não gostaria de me ver assim vergada ao peso da dor. Endireito as costas, levanto a cabeça e subo as escadas. Acabo de decidir mudar após estes penosos meses de luto. Hoje vou levar o meu marido a almoçar fora. Enquanto cá estamos a vida é para ser vivida, já dizia o meu pai.
Corro pela areia molhada e fecho os olhos ao sentir o vento a bater-me no rosto e nos cabelos. Rodopio pela praia que esta manhã é só minha. A maresia fresca enche-me o peito. É como se voltasse a ser jovem. Não preciso de mais nada para me sentir bem. Melhor só: mergulhar nas ondas frias que me deixam a pele eriçada.
Abro os olhos ao vir à tona e logo regressa o pensamento da minha filha. Vim aqui para me distrair, mas é difícil. Não há dor maior neste mundo do que perder uma filha. Ela tinha 40 anos. Deixou um menino de 12 anos. Deixou uma vida por concretizar, planos por realizar, caminhos por percorrer, deixou tudo por viver.
Não devia ser permitido que um filho morresse antes dos pais. Não é natural, não é justo. Um AVC não é nome que se dê a uma morte. A falta de idas ao médico e o excesso de trabalho são culpados, mas não deviam ser razões suficientes para morrer.
A minha revolta salta-me do peito de cada vez que me lembro do seu sorriso puro, que me remete para aquele tempo em que era uma menina de sete anos com um vestido aos lacinhos amarelos e um chapéu de palha a pedir-me para lhe descascar uma maçã enquanto apontava para uma macieira na quinta do meu pai em Felgueiras.
Não posso aceitar que a morte a tenha roubado à minha vida.
As lágrimas que me escorrem pelo pescoço misturam-se com a água salgada que boia à minha volta. Quem me dera ser como esta espuma branca e não sentir nada. Não ter que sentir o coração dilacerado de cada vez que olho para o rosto amargurado do meu marido.
Sentado na sua cadeira de rodas, agarrado ao andarilho, ou virado de lado na cama, os seus olhos têm sempre a mesma mensagem. É um pai que não sabe mais onde há-de meter tanta dor. E eu queria ajudá-lo mas não sei como. É também com dificuldade que lido com a minha cruz, com este peso que me puxa para o chão de cada vez que dou um passo.
Saio da praia, pego no carro e volto para casa. Ao fundo do prédio as vizinhas olham-me com compaixão enquanto se acotovelam a mirar-me ao caminhar naquela direcção. De nada me serve a pena delas.
Uma decide continuar a conversa e dizer que a receita que a outra lhe sugeria era muito complicada. "É complicado", apontava com a sua voz fininha e impertinente. Só me apetecia dizer-lhe: "Minha senhora, nada é complicado nesta vida. Tudo se faz, tudo tem solução. Complicado é mesmo o que não tem remédio. Complicado é morrer aos 40 anos."
Engulo a minha vontade em seco. Atiro um bom dia às três e rodo a chave na porta do prédio. De repente, penso que a minha filha não gostaria de me ver assim vergada ao peso da dor. Endireito as costas, levanto a cabeça e subo as escadas. Acabo de decidir mudar após estes penosos meses de luto. Hoje vou levar o meu marido a almoçar fora. Enquanto cá estamos a vida é para ser vivida, já dizia o meu pai.
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