Já anoiteceu há muito e o frio gela-me os ossos cada vez mais. Mas as pessoas que passam por mim parecem não sentir o inverno.
Vejo bandos de adolescentes, inconscientes imberbes, que procuram umas horas de alegria e prazer entre uns charros e umas cervejas. Vejo casais de velhos de mão dada a partilhar um saco de supermercado e um bilhete de autocarro. Vejo famílias encasacadas a olhar pasmadas para as montras da avenida. E vejo muita gente sentada no quiosque a comer bolo de chocolate.
Só eu é que não como há horas. Só eu é que não tenho casaco quente para me agasalhar. Só eu é que não tenho uma família ou sequer uma velha para partilhar a minha desgraça.
Sou velho, pobre, esfarrapado e desconsolado. Sentado entre os meus cartões no passeio desta avenida chique pareço destoar de tudo. Nada tenho para oferecer à vida e ela nada tem para me dar. Já fui jovem, já fui rico, já tive família. Hoje nada tenho.
Há vinte anos um acidente tirou-me a mulher e os filhos. Fiquei inconsolável, porque senti-me culpado pela morte de quem mais amava na vida. Caí no desânimo e no álcool, comecei a deixar de trabalhar, e a minha empresa acabou por ir à falência. Tiraram-me a casa e o carro. Gastei o dinheiro que me restava para sobreviver durante uns tempos.
Acabei por vir parar à rua. E hoje gosto mesmo da Avenida da Liberdade. Ela é a minha companheira. O meu abrigo gratuito. Aqui nunca há medo e solidão. Aqui há sempre festa e companhia. Há dias em que não me apetece viver assim anestesiado como estou agora, mas não vejo alternativas.
É já meia-noite. Diz o meu velho relógio de pulso que me deu a caridade alheia. Embriagado nos meus pensamentos, nem dei pelo tempo a passar neste serão. O quiosque já fechou. Já não se vêem famílias a passear. É tempo de eu dormir. Amanhã há mais gente a passar por mim para que eu passe pelo tempo mais rapidamente.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Cérebro de plástica
As minhas mãos estão cobertas de ligaduras. Não vejo a pele que cobre os
meus dedos. Não vejo as minhas unhas. O meu corpo arde de dores.
Adormeço e quando acordo já não sinto nada. A médica que me operou manda-me para casa. Anestesiada. Mas nunca mandaram olhar-me ao espelho.
Uma operação plástica não é fácil minha querida, disse uma enfermeira com ar condescendente. Quando o meu marido me veio buscar fez um ar de compaixão. Agora que vamos no elevador e vejo a minha figura percebo porquê.
Pareço uma múmia. Só não tenho medo que ele me deixe agora porque sei que ele está focado no resultado final. Mas a minha cabeça só me pergunta por que raio fui eu concordar em fazer esta operação!
Este é o meu quarto marido. É o mais bonito de todos e mais inteligente do que os outros que morreram. É tão jovem como os meus netos. E tenho medo que ele me deixe a envelhecer na minha solidão.
Eu tinha que voltar a ser jovem e a ter uma pele bonita para o poder segurar e competir com essas escanzeladas que andam por aí a passear os corpos desnudos. Eu passo cinco horas por dia no ginásio e todas as refeições que as minhas empregadas preparam têm apenas as calorias suficientes para eu viver.
Mas agora que me submeti a estas dores e ao choque de me ver transformada numa múmia - e isto ainda agora começou porque a recuperação é longa - penso que a minha vida está toda errada.
Será que eu não seria mais feliz com um velho como eu - porque é isso que eu sou por mais que não queira aceitar -, será que um homem barrigudo e peludo não traria mais paz à minha vida?
Acabava-se a contagem de calorias, acabava-se o ginásio, acabavam-se as operações plásticas, acabavam-se os ciúmes que me consomem de cada vez que ele olha para o rabo da empregada de nariz empinado que um dia destes ainda hei-de despedir quando os encontrar juntos na cama.
Quem quero eu enganar com esta vida de aparências? Já sei, engano-me a mim, primeiro do que tudo. Vou tomar um comprimido para dormir. Ou melhor, a caixa toda.
...
Abro os olhos e vejo tudo branco. Estou de novo no hospital. Sinto-me anestesiada. Não sei por que estou aqui. A porta do quarto entreabre-se para aparecer uma enfermeira com ar de travesti a dar-me um sermão.
Já percebi. Ia morrendo, mas não morri, pois não? Era o que me apetecia gritar, mas fico em silêncio. Enfermeira bruta, já te calavas e deixavas-me em paz. Enganei-me nos comprimidos, foi só isso.
Ah, dizes que já posso tirar as ligaduras da plástica até. Está bem, mas não quero ver o espelho. E também não quero que avisem a minha família que acordei. Está tudo bem. Quero ir para casa e vou sozinha.
Umas horas depois apanho toda a gente distraída no hospital e vou-me embora.
Entro no elevador do hospital e esqueço-me de que tem um espelho. Dou um salto. Quase desmaio a olhar para o meu rosto. Quem é esta? Não sou eu, não me reconheço.
Nem quando tinha 18 anos era assim. Esta não é a minha cara. Quero as minhas rugas de volta. Entro em desespero. Não há pior abismo interior do que olhar para o espelho e ver devolvida a imagem de alguém que não conhecemos. É como se ficássemos sem chão e todas as certezas se tivessem desvanecido.
Começo a gritar em desespero, rasgo a roupa, as lágrimas escorrem até ao peito e queimam o meu coração. Chego ao rés-do-chão, saio do elevador a correr e atravesso a estrada. Só tenho pena de estragar a vida àquele condutor que me vai atropelar mas tem que ser. Neste momento não vejo outra saída para o labirinto em que estou.
Adeus mundo que me fizeste assim.
Adormeço e quando acordo já não sinto nada. A médica que me operou manda-me para casa. Anestesiada. Mas nunca mandaram olhar-me ao espelho.
Uma operação plástica não é fácil minha querida, disse uma enfermeira com ar condescendente. Quando o meu marido me veio buscar fez um ar de compaixão. Agora que vamos no elevador e vejo a minha figura percebo porquê.
Pareço uma múmia. Só não tenho medo que ele me deixe agora porque sei que ele está focado no resultado final. Mas a minha cabeça só me pergunta por que raio fui eu concordar em fazer esta operação!
Este é o meu quarto marido. É o mais bonito de todos e mais inteligente do que os outros que morreram. É tão jovem como os meus netos. E tenho medo que ele me deixe a envelhecer na minha solidão.
Eu tinha que voltar a ser jovem e a ter uma pele bonita para o poder segurar e competir com essas escanzeladas que andam por aí a passear os corpos desnudos. Eu passo cinco horas por dia no ginásio e todas as refeições que as minhas empregadas preparam têm apenas as calorias suficientes para eu viver.
Mas agora que me submeti a estas dores e ao choque de me ver transformada numa múmia - e isto ainda agora começou porque a recuperação é longa - penso que a minha vida está toda errada.
Será que eu não seria mais feliz com um velho como eu - porque é isso que eu sou por mais que não queira aceitar -, será que um homem barrigudo e peludo não traria mais paz à minha vida?
Acabava-se a contagem de calorias, acabava-se o ginásio, acabavam-se as operações plásticas, acabavam-se os ciúmes que me consomem de cada vez que ele olha para o rabo da empregada de nariz empinado que um dia destes ainda hei-de despedir quando os encontrar juntos na cama.
Quem quero eu enganar com esta vida de aparências? Já sei, engano-me a mim, primeiro do que tudo. Vou tomar um comprimido para dormir. Ou melhor, a caixa toda.
...
Abro os olhos e vejo tudo branco. Estou de novo no hospital. Sinto-me anestesiada. Não sei por que estou aqui. A porta do quarto entreabre-se para aparecer uma enfermeira com ar de travesti a dar-me um sermão.
Já percebi. Ia morrendo, mas não morri, pois não? Era o que me apetecia gritar, mas fico em silêncio. Enfermeira bruta, já te calavas e deixavas-me em paz. Enganei-me nos comprimidos, foi só isso.
Ah, dizes que já posso tirar as ligaduras da plástica até. Está bem, mas não quero ver o espelho. E também não quero que avisem a minha família que acordei. Está tudo bem. Quero ir para casa e vou sozinha.
Umas horas depois apanho toda a gente distraída no hospital e vou-me embora.
Entro no elevador do hospital e esqueço-me de que tem um espelho. Dou um salto. Quase desmaio a olhar para o meu rosto. Quem é esta? Não sou eu, não me reconheço.
Nem quando tinha 18 anos era assim. Esta não é a minha cara. Quero as minhas rugas de volta. Entro em desespero. Não há pior abismo interior do que olhar para o espelho e ver devolvida a imagem de alguém que não conhecemos. É como se ficássemos sem chão e todas as certezas se tivessem desvanecido.
Começo a gritar em desespero, rasgo a roupa, as lágrimas escorrem até ao peito e queimam o meu coração. Chego ao rés-do-chão, saio do elevador a correr e atravesso a estrada. Só tenho pena de estragar a vida àquele condutor que me vai atropelar mas tem que ser. Neste momento não vejo outra saída para o labirinto em que estou.
Adeus mundo que me fizeste assim.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
A morte
A
morte de quem gostamos e admiramos é sempre um motivo extra para
analisarmos a nossa própria vida.
Para além de tudo o que implica uma morte, para além da perda da pessoa e da oportunidade de continuar a aprender com ela, há o lado pessoal. O meu lado. O que “eu” em concreto perco com esta separação abrupta.
É um lado egoísta, é certo. É como se eu pensasse nas consequências negativas que esta morte tem para mim. Em tudo o que perco com esta morte, em vez de pensar na pessoa que morreu e na sua família.
E depois há a outra parte deste lado egoísta que é o exame de consciência, o exame da minha vida, o exame que me leva a pensar se eu estou a levar a vida para o lado correcto. Se estou a fazer tudo o que devo fazer para ser feliz e para fazer os outros felizes.
Para que um dia quando chegar a minha hora, se eu puder examinar a minha vida nessa altura, eu possa pensar que tive uma vida preenchida e feliz, e que em geral fiz em tudo o melhor que podia fazer. Não deixar nada por dizer, não deixar nada por fazer. Não me esquecer de nada, nem de ninguém.
No afã da vida diária, na correria do dia-a-dia, não sobra muito tempo para pensar. Mas é nestes momentos de morte e de solidão que melhor pomos a nossa vida em perspectiva. Nascemos na solidão e morremos na solidão. Ninguém nos acompanha.
Mas podemos em vida escolher quem mais gostamos para nos acompanhar nesta viagem e podemos garantir que essa viagem é feita da melhor forma possível. E ser impaciente, muito impaciente. Que nunca tenhamos paciência para perder tempo com coisas que não valem a pena serem valorizadas e que só tenhamos tempo para o que é mais importante.
Para além de tudo o que implica uma morte, para além da perda da pessoa e da oportunidade de continuar a aprender com ela, há o lado pessoal. O meu lado. O que “eu” em concreto perco com esta separação abrupta.
É um lado egoísta, é certo. É como se eu pensasse nas consequências negativas que esta morte tem para mim. Em tudo o que perco com esta morte, em vez de pensar na pessoa que morreu e na sua família.
E depois há a outra parte deste lado egoísta que é o exame de consciência, o exame da minha vida, o exame que me leva a pensar se eu estou a levar a vida para o lado correcto. Se estou a fazer tudo o que devo fazer para ser feliz e para fazer os outros felizes.
Para que um dia quando chegar a minha hora, se eu puder examinar a minha vida nessa altura, eu possa pensar que tive uma vida preenchida e feliz, e que em geral fiz em tudo o melhor que podia fazer. Não deixar nada por dizer, não deixar nada por fazer. Não me esquecer de nada, nem de ninguém.
No afã da vida diária, na correria do dia-a-dia, não sobra muito tempo para pensar. Mas é nestes momentos de morte e de solidão que melhor pomos a nossa vida em perspectiva. Nascemos na solidão e morremos na solidão. Ninguém nos acompanha.
Mas podemos em vida escolher quem mais gostamos para nos acompanhar nesta viagem e podemos garantir que essa viagem é feita da melhor forma possível. E ser impaciente, muito impaciente. Que nunca tenhamos paciência para perder tempo com coisas que não valem a pena serem valorizadas e que só tenhamos tempo para o que é mais importante.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Amnésia
Olho ao espelho e não sei de quem são estes olhos que me olham. Olho
para o homem que está ao meu lado e diz ser meu marido mas não o
conheço.
Não sei por que razão estou nesta cama de hospital. Socorro! Estarei a ter um pesadelo? Os rostos que me sorriem das mulheres de bata branca são de compaixão. Os olhos do homem que me segura a mão são de tristeza. Não compreendo o que se passa à minha volta. E pior do que tudo - não sei quem sou.
Toda a gente sai da sala à excepção do homem que não larga a minha mão. É alto, bem parecido, pele escura, olhos pretos, cabelo curto e grisalho. Pelas olheiras parece que não dorme há dias. Tem um ar abatido e pálido. Um arranhão sulca a cara do lado esquerdo e mais acima a cabeça tem um grande e quadrado penso branco. Os dedos também estão arranhados. Coitado, o que será que lhe aconteceu? Ele olha-me em silêncio. Parece emocionado. Eu rompo o silêncio e pergunto o que aconteceu, o que se passa.
Depois de uma hesitação, uma voz meiga e rouca que me trata com carinho diz-me que tivemos um acidente. Íamos a passear na Serra da Arrábida quando um camião fora de mão lançou a nossa carrinha para um penhasco. Eu pergunto se ia mais alguém no carro para além de nós. Ia o nosso velho cão Togo e os nossos filhos. O animal morreu. As crianças estão bem.
Sem eu perceber, já uma lágrima rolava pela minha face. A histeria apodera-se de mim. Mas como é que eu sou mãe e não me lembro? Como? Eu não sei como se chamam os meus filhos, a sua cor do cabelo e dos olhos, se estão bem ou se estão assustados. Eu não sei nada. Como é possível? Mas como saberia se nem de mim própria sei? Se nem sei quem sou? E nem sei se tudo isto que este homem está a dizer é verdade!
Ele tenta acalmar-me e abraçar-me, só que a minha revolta não o permite. Abro as palmas das mãos e bato-lhe no peito, fecho os punhos e bato na cama. O choro toma conta de mim de forma convulsiva. Tapo o rosto com as mãos como uma criança envergonhada com uma garotice que fez. A minha cabeça está confusa. Não sei o que pensar.
Finalmente deixo abraçar-me. Os dedos fortes dele afagam os meus cabelos desgrenhados e enxugam-me as lágrimas. Deixo-me abraçar de novo e assim ficamos algum tempo até que tenho uma primeira recordação ao cheirar o pescoço dele. Reconheço este cheiro. O meu coração parece saltar do peito. O meu estômago parece estar cheio de borboletas. Só pode mesmo ser o meu amor. Agora sei que este homem está mesmo a dizer a verdade. Ainda por cima a minha intuição diz-me o mesmo. Por mais difícil que seja de aceitar o que acabei de ouvir, tudo é verdade.
Acabo por lhe pedir desculpa pelo meu ataque de fúria. Compreensivo, diz-me que é normal. Parece que fui eu quem mais sofreu com o acidente. Estou internada há semanas e fiquei amnésica. Os médicos dizem que a memória voltará em breve. É preciso paciência. É preciso dar tempo ao tempo.
Esta ideia deixa-me preocupada, porque não sei como estão os meus filhos, nem quem cuida deles. Quero vê-los. Mais uma vez ele acalma-me com um tom doce e enternecido. Os miúdos podem visitar-me amanhã e se tudo correr bem até posso voltar para casa nos próximos dias. Assim espero.
Não sei por que razão estou nesta cama de hospital. Socorro! Estarei a ter um pesadelo? Os rostos que me sorriem das mulheres de bata branca são de compaixão. Os olhos do homem que me segura a mão são de tristeza. Não compreendo o que se passa à minha volta. E pior do que tudo - não sei quem sou.
Toda a gente sai da sala à excepção do homem que não larga a minha mão. É alto, bem parecido, pele escura, olhos pretos, cabelo curto e grisalho. Pelas olheiras parece que não dorme há dias. Tem um ar abatido e pálido. Um arranhão sulca a cara do lado esquerdo e mais acima a cabeça tem um grande e quadrado penso branco. Os dedos também estão arranhados. Coitado, o que será que lhe aconteceu? Ele olha-me em silêncio. Parece emocionado. Eu rompo o silêncio e pergunto o que aconteceu, o que se passa.
Depois de uma hesitação, uma voz meiga e rouca que me trata com carinho diz-me que tivemos um acidente. Íamos a passear na Serra da Arrábida quando um camião fora de mão lançou a nossa carrinha para um penhasco. Eu pergunto se ia mais alguém no carro para além de nós. Ia o nosso velho cão Togo e os nossos filhos. O animal morreu. As crianças estão bem.
Sem eu perceber, já uma lágrima rolava pela minha face. A histeria apodera-se de mim. Mas como é que eu sou mãe e não me lembro? Como? Eu não sei como se chamam os meus filhos, a sua cor do cabelo e dos olhos, se estão bem ou se estão assustados. Eu não sei nada. Como é possível? Mas como saberia se nem de mim própria sei? Se nem sei quem sou? E nem sei se tudo isto que este homem está a dizer é verdade!
Ele tenta acalmar-me e abraçar-me, só que a minha revolta não o permite. Abro as palmas das mãos e bato-lhe no peito, fecho os punhos e bato na cama. O choro toma conta de mim de forma convulsiva. Tapo o rosto com as mãos como uma criança envergonhada com uma garotice que fez. A minha cabeça está confusa. Não sei o que pensar.
Finalmente deixo abraçar-me. Os dedos fortes dele afagam os meus cabelos desgrenhados e enxugam-me as lágrimas. Deixo-me abraçar de novo e assim ficamos algum tempo até que tenho uma primeira recordação ao cheirar o pescoço dele. Reconheço este cheiro. O meu coração parece saltar do peito. O meu estômago parece estar cheio de borboletas. Só pode mesmo ser o meu amor. Agora sei que este homem está mesmo a dizer a verdade. Ainda por cima a minha intuição diz-me o mesmo. Por mais difícil que seja de aceitar o que acabei de ouvir, tudo é verdade.
Acabo por lhe pedir desculpa pelo meu ataque de fúria. Compreensivo, diz-me que é normal. Parece que fui eu quem mais sofreu com o acidente. Estou internada há semanas e fiquei amnésica. Os médicos dizem que a memória voltará em breve. É preciso paciência. É preciso dar tempo ao tempo.
Esta ideia deixa-me preocupada, porque não sei como estão os meus filhos, nem quem cuida deles. Quero vê-los. Mais uma vez ele acalma-me com um tom doce e enternecido. Os miúdos podem visitar-me amanhã e se tudo correr bem até posso voltar para casa nos próximos dias. Assim espero.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Um problema de silicone
- "Nem sempre conta o destino. Também é importante a viagem que fazemos
para lá chegar. Por que outra razão alguém percorre quilómetros no
Transiberiano ou neste caso nós poderemos fazer um cruzeiro? Não há maior descoberta interior do
que aquela que se faz a viajar. A viagem traz paz. E vais descansar uns dias do trabalho."
Dito isto, Ana cruzou os dedos grossos e carregados de anéis dourados, pousando os olhos no marido. Esperava uma resposta, mas nem fazia ideia de que o seu pensamento estava longe. João não tinha ouvido nenhum dos argumentos que a mulher usara para o convencer a uma longa viagem de barco nas férias de Verão.
Depois de onze infelizes anos de casamento já não a suportava. Gostaria de se divorciar, mas não tinha coragem. Trabalhava na empresa do pai dela, tinha um carro que lhe foi dado pelos sogros, a casa foi prenda de casamento também deles para a filha. Nada estava em nome dele. Ele próprio não tinha família e tinha sido adoptado em criança por uns vizinhos pobres dos sogros que entretanto já tinham morrido. E João já conhecia bem a mulher e a família dela a ponto de saber que ficaria sem nada se se quisesse separar dela. O pior de tudo é que iriam fazer tudo para o afastar do seu bem mais precioso: o filho de sete anos.
Por isso, João resignava-se e procurava afastar aqueles pensamentos sobre o divórcio que às vezes lhe ocorriam. E naquelas alturas em que, como agora, ela usava de todo o seu poder para o obrigar a fazer coisas de que ele não gostava - usando argumentos que ele não compreendia ou aos quais não dava valor - João só se via a amordaçar a mulher, ou a pôr-lhe uma fita cola na boca, ou ainda a usar um spray que a deixasse muda para sempre. Que bom seria não ter que ouvir aquela vozinha irritante e petulante. Eram pensamentos que o divertiam secretamente, embora em consciência os tentasse afastar e concentrar-se no que ela dizia.
Um dia, um amigo dele disse-lhe que não compreendia como é que ele não era feliz com uma mulher tão bonita e tão rica. João bem tentou explicar ao amigo que a beleza exterior e o dinheiro não são tudo. Confessou ao amigo que se sentia uma prostituta sempre que era obrigado a fazer o que não queria só porque não se conseguia impôr a uma mulher que fazia questão de lhe lembrar sempre de onde ele tinha vindo - um orfanato. Mas o amigo não compreendia, e o único conselho que lhe ocorreu para acalmar João foi que passasse a frequentar umas casas de alterne que conhecia.
João não conhecera na vida outra mulher para além de Ana e até achou que talvez fosse esse o problema. Inventou um falso jantar de negócios como argumento para se esquivar de casa à noite. O problema é que as coisas não correram como o esperado.
Assim que uma rapariga de peitos bem avantajados se pôs ao colo dele quase como veio ao mundo, João teve um ataque de ansiedade e julgou que ia morrer ali. Bastava olhar para ela para sentir que o peito dela o ia sufocar. Sentiu suores e calafrios, começou a tremer e a dizer coisas sem nexo. Só pensava que a qualquer momento as duas bolas descomunais de silicone poderiam rebentar-lhe na cara.
A rapariga percebeu que ele não estava bem e foi a correr buscar um copo de água. Lá bebeu, mas sempre que ela lhe fazia festas na cabeça ele sentia falta de ar. Muito atrapalhado, João saiu daquela casa de alterne jurando nunca mais voltar àquelas aventuras. O amigo riu-se, encolheu os ombros e respondeu simplesmente que cada um é para o que nasce.
- "João, tu estás a ouvir o que eu te estou a dizer? Estou aqui há tempos a falar do cruzeiro e tu estás para aí calado como uma múmia!"
- "Cruzeiro? Sim, Ana. Estou a ouvir tudo. Estou só preocupado com uns problemas da fábrica, mas ouvi-te. E concordo com tudo. Agora preciso é de dormir."
O que Ana ignorava é que, enquanto ela falava, João lembrou-se do episódio do bar de alterne na altura em que olhava para a camisa de noite decotada da mulher. Passou pela primeira vez pela cabeça de João que o problema tinha sido o tamanho frontal exagerado da prostituta. E foi um determinado raciocínio que levou João a concordar com a ideia do cruzeiro sem se sentir martirizado.
Talvez lá no tal barco enorme eu encontre uma mulher rica, velha - e pouco avantajada frontalmente - que me queira e me leve daqui. Quanto ao meu puto, quando a velha morrer dentro de pouco tempo, eu fico um viúvo rico volto cá e luto pelo meu filho. Que bom vai ser não ter mais de aturar esta gente sovina e mesquinha.
Revendo o seu plano mentalmente, e vendo-se já a abordar uma estrangeira enrugada mas com uma carteira recheada, João acabou por fechar os olhos e adormecer num sono tão descansado como não tinha há muitos anos.
Dito isto, Ana cruzou os dedos grossos e carregados de anéis dourados, pousando os olhos no marido. Esperava uma resposta, mas nem fazia ideia de que o seu pensamento estava longe. João não tinha ouvido nenhum dos argumentos que a mulher usara para o convencer a uma longa viagem de barco nas férias de Verão.
Depois de onze infelizes anos de casamento já não a suportava. Gostaria de se divorciar, mas não tinha coragem. Trabalhava na empresa do pai dela, tinha um carro que lhe foi dado pelos sogros, a casa foi prenda de casamento também deles para a filha. Nada estava em nome dele. Ele próprio não tinha família e tinha sido adoptado em criança por uns vizinhos pobres dos sogros que entretanto já tinham morrido. E João já conhecia bem a mulher e a família dela a ponto de saber que ficaria sem nada se se quisesse separar dela. O pior de tudo é que iriam fazer tudo para o afastar do seu bem mais precioso: o filho de sete anos.
Por isso, João resignava-se e procurava afastar aqueles pensamentos sobre o divórcio que às vezes lhe ocorriam. E naquelas alturas em que, como agora, ela usava de todo o seu poder para o obrigar a fazer coisas de que ele não gostava - usando argumentos que ele não compreendia ou aos quais não dava valor - João só se via a amordaçar a mulher, ou a pôr-lhe uma fita cola na boca, ou ainda a usar um spray que a deixasse muda para sempre. Que bom seria não ter que ouvir aquela vozinha irritante e petulante. Eram pensamentos que o divertiam secretamente, embora em consciência os tentasse afastar e concentrar-se no que ela dizia.
Um dia, um amigo dele disse-lhe que não compreendia como é que ele não era feliz com uma mulher tão bonita e tão rica. João bem tentou explicar ao amigo que a beleza exterior e o dinheiro não são tudo. Confessou ao amigo que se sentia uma prostituta sempre que era obrigado a fazer o que não queria só porque não se conseguia impôr a uma mulher que fazia questão de lhe lembrar sempre de onde ele tinha vindo - um orfanato. Mas o amigo não compreendia, e o único conselho que lhe ocorreu para acalmar João foi que passasse a frequentar umas casas de alterne que conhecia.
João não conhecera na vida outra mulher para além de Ana e até achou que talvez fosse esse o problema. Inventou um falso jantar de negócios como argumento para se esquivar de casa à noite. O problema é que as coisas não correram como o esperado.
Assim que uma rapariga de peitos bem avantajados se pôs ao colo dele quase como veio ao mundo, João teve um ataque de ansiedade e julgou que ia morrer ali. Bastava olhar para ela para sentir que o peito dela o ia sufocar. Sentiu suores e calafrios, começou a tremer e a dizer coisas sem nexo. Só pensava que a qualquer momento as duas bolas descomunais de silicone poderiam rebentar-lhe na cara.
A rapariga percebeu que ele não estava bem e foi a correr buscar um copo de água. Lá bebeu, mas sempre que ela lhe fazia festas na cabeça ele sentia falta de ar. Muito atrapalhado, João saiu daquela casa de alterne jurando nunca mais voltar àquelas aventuras. O amigo riu-se, encolheu os ombros e respondeu simplesmente que cada um é para o que nasce.
- "João, tu estás a ouvir o que eu te estou a dizer? Estou aqui há tempos a falar do cruzeiro e tu estás para aí calado como uma múmia!"
- "Cruzeiro? Sim, Ana. Estou a ouvir tudo. Estou só preocupado com uns problemas da fábrica, mas ouvi-te. E concordo com tudo. Agora preciso é de dormir."
O que Ana ignorava é que, enquanto ela falava, João lembrou-se do episódio do bar de alterne na altura em que olhava para a camisa de noite decotada da mulher. Passou pela primeira vez pela cabeça de João que o problema tinha sido o tamanho frontal exagerado da prostituta. E foi um determinado raciocínio que levou João a concordar com a ideia do cruzeiro sem se sentir martirizado.
Talvez lá no tal barco enorme eu encontre uma mulher rica, velha - e pouco avantajada frontalmente - que me queira e me leve daqui. Quanto ao meu puto, quando a velha morrer dentro de pouco tempo, eu fico um viúvo rico volto cá e luto pelo meu filho. Que bom vai ser não ter mais de aturar esta gente sovina e mesquinha.
Revendo o seu plano mentalmente, e vendo-se já a abordar uma estrangeira enrugada mas com uma carteira recheada, João acabou por fechar os olhos e adormecer num sono tão descansado como não tinha há muitos anos.
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