Nunca pensei que chegasse a este ponto. Sou puto, sim, confesso.
Prostituto, melhor dizendo. Faço isto há três anos e já não sei como
sair desta vida.
Na altura estava farto de estar desempregado. Fiz um curso superior,
estudei anos e anos graças ao sacrifício dos meus pais, mas depois não
tinha emprego. Nem como designer, nem de qualquer outra forma. Para já,
custa muito veres o teu sonho de ser designer ir por água abaixo.
Depois de tanta nega, lá te mentalizas que tens que procurar outro
emprego. Mas nem isso eu consegui.
Tentei tudo e mais alguma coisa - desde empregado de supermercado a
segurança de discoteca. Não consegui. Cheguei a um ponto em que estava
desesperado. E não queria pedir ajuda a ninguém e muito menos aos meus
pais.
Lá longe em Trás-os-Montes, achavam que eu trabalhava num
supermercado quando na verdade eu vivia de pequenos trabalhos de
freelancer, que mal me davam para comer. É que na realidade eu nem sequer
tinha subsídio de desemprego, porque nunca tinha trabalhado.
Um dia abri um jornal nas páginas dos classificados, enquanto trincava
uma sandes ao almoço. Foi o princípio desta vida que levo hoje. Comecei a
pôr anúncios em jornais. Tornei-me prostituto ao domicílio para
satisfazer os desejos de mulheres carentes.
A maioria são mulheres ricas de homens de negócios que passam a vida a
viajar. Mulheres cujos casamentos acabaram há muito, mas que querem
continuar a sentir-se vivas.
Muitas vezes nem chego a tirar a roupa. É
mais um trabalho de psicólogo. Fico horas a ouvi-las falar e a
fazer-lhes companhia.
Uma vez ia correndo mal, porque a filha e o genro
chegaram mais cedo a casa e tive que me esconder no quarto dela até que
estivessem a dormir.
O facto é que é uma vida boa. Ganho muito dinheiro e tenho um horário
flexível. Não preciso de me consumir num trabalho rotineiro, nem de
obedecer a chefes. Já comprei a minha casa, o meu carro e tenho tudo o
que preciso de comprar com dinheiro. O reverso da medalha é que estou mais sozinho do
que nunca.
A mentira afasta-nos do mundo. E a mentira que fui contando aos meus
amigos e família sobre a minha vida afastou-me de todos. Nem sequer
tenho Facebook para não correr o risco de ser descoberto.
Vivo na
solidão. Só um amigo meu é que sabe a verdade. Há dias que passo a
chorar com nojo de mim. Sinto que me vendi, que perdi a dignidade, que
há três anos havia outras hipóteses de trabalho e eu é que optei pelo
mais fácil. Mas não sei como sair deste ciclo vicioso.
Agora tenho um problema de consciência adicional. Comecei a namorar com
uma rapariga, mas não sei como lhe contar a verdade. Se souber o que eu
faço, corro o risco de ficar sem ela. Se eu não lhe contar corro o risco
de ela descobrir e também ficar sem ela. E agora? O que faço?
segunda-feira, 25 de maio de 2015
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Buraco
Não gosto de sanitas. Ponto final. Nunca gostei, nem nunca hei-de gostar
por mais anos que viva. Os buracos no chão ainda vá que não vá. Agora
aqueles monstros que não dizem ao que vão e que escondem o buraco com um
tortuoso cano são insuportáveis.
Quando eu era nova não havia nada disso. Fazias no campo, a céu aberto. Ou então no penico. Depois havia o tal buraco, invenção mais moderna, com um sistema de autoclismo e tudo. A técnica era simples: punhas os pés nos locais indicados por um rasto antiderrapante, abrias as pernas e fazias o que tinhas a fazer. Aprendi isto no dia em que fui para a escola primária. Já lá vão uns 60 anos, portanto.
Quanto a sanitas, a primeira que vi foi quando fui com os meus pais a Lisboa pela primeira vez. Fomos de comboio. Chegados a Santa Apolónia, lá fomos às retretes. A minha mãe levava-me pela mão quando eu a fiz passar a pior vergonha da vida.
Eu, do alto dos meus quatro anos, recusava-me a entrar naquele compartimento onde estava uma coisa que a minha mãe chamava de sanita. Ela explicava-me que eu só precisava de me sentar lá e fazer o que costumava fazer ao ar livre. Mas eu recusava-me. E como? Gritando, berrando a plenos pulmões, chorando.
As outras pessoas deviam pensar que a minha mãe me tinha batido ou alguma coisa do género para eu chorar assim. Mas não. Ela bateu-me foi depois. E obrigou-me a sentar-me na sanita.
Guardo essa memória traumática como se se tivesse passado hoje. O que mais me atemorizava era o que eu chamava e ainda hoje chamo de "sanita em U". Basicamente, é uma sanita das antigas, em que a parte do buraco é um vale estreito e não uma abertura arredondada.
Não sei explicar esta minha aversão por este tipo de sanitas, mas confesso que ainda hoje se mantém. Passei muitos anos em que procurava outra sanita quando numa qualquer casa de banho pública me aparecia uma sanita em U. Hoje já ultrapassei isso e consigo usá-la, mas a verdade é que continuo a sentir repulsa por este tipo de sanitas.
Um dos meus problemas quando me casei e fui instituída dona de casa foi ter que limpar a sanita, pelo menos semanalmente. Pôr lá em baixo uma esponja com a minha mão é das coisas mais tenebrosas pelas quais tive que passar.
Mais tarde deixei de o fazer e a sujidade acumulou-se. O meu marido invocou esse motivo para se divorciar de mim naquele país retrógrado em que vivíamos. Claro que ele já andava enrolado com a secretária com quem se viria a casar pelo civil. O que ele não sabia é que eu andava enrolada com o porteiro, mas isso são outras conversas que agora não interessam.
Facto, facto é que nunca soube explicar este meu problema com as sanitas. Parece tão ridículo, mas foi muito determinante durante a parte da minha vida em que me deixei dominar por ele.
Talvez seja uma coisa de vidas passadas, como diz a Célia que passa a vida a viajar para a Índia. Ou então é mesmo uma coisa inexplicável. O certo é que haverá sempre coisas mais bonitas na vida do que as sanitas.
Quando eu era nova não havia nada disso. Fazias no campo, a céu aberto. Ou então no penico. Depois havia o tal buraco, invenção mais moderna, com um sistema de autoclismo e tudo. A técnica era simples: punhas os pés nos locais indicados por um rasto antiderrapante, abrias as pernas e fazias o que tinhas a fazer. Aprendi isto no dia em que fui para a escola primária. Já lá vão uns 60 anos, portanto.
Quanto a sanitas, a primeira que vi foi quando fui com os meus pais a Lisboa pela primeira vez. Fomos de comboio. Chegados a Santa Apolónia, lá fomos às retretes. A minha mãe levava-me pela mão quando eu a fiz passar a pior vergonha da vida.
Eu, do alto dos meus quatro anos, recusava-me a entrar naquele compartimento onde estava uma coisa que a minha mãe chamava de sanita. Ela explicava-me que eu só precisava de me sentar lá e fazer o que costumava fazer ao ar livre. Mas eu recusava-me. E como? Gritando, berrando a plenos pulmões, chorando.
As outras pessoas deviam pensar que a minha mãe me tinha batido ou alguma coisa do género para eu chorar assim. Mas não. Ela bateu-me foi depois. E obrigou-me a sentar-me na sanita.
Guardo essa memória traumática como se se tivesse passado hoje. O que mais me atemorizava era o que eu chamava e ainda hoje chamo de "sanita em U". Basicamente, é uma sanita das antigas, em que a parte do buraco é um vale estreito e não uma abertura arredondada.
Não sei explicar esta minha aversão por este tipo de sanitas, mas confesso que ainda hoje se mantém. Passei muitos anos em que procurava outra sanita quando numa qualquer casa de banho pública me aparecia uma sanita em U. Hoje já ultrapassei isso e consigo usá-la, mas a verdade é que continuo a sentir repulsa por este tipo de sanitas.
Um dos meus problemas quando me casei e fui instituída dona de casa foi ter que limpar a sanita, pelo menos semanalmente. Pôr lá em baixo uma esponja com a minha mão é das coisas mais tenebrosas pelas quais tive que passar.
Mais tarde deixei de o fazer e a sujidade acumulou-se. O meu marido invocou esse motivo para se divorciar de mim naquele país retrógrado em que vivíamos. Claro que ele já andava enrolado com a secretária com quem se viria a casar pelo civil. O que ele não sabia é que eu andava enrolada com o porteiro, mas isso são outras conversas que agora não interessam.
Facto, facto é que nunca soube explicar este meu problema com as sanitas. Parece tão ridículo, mas foi muito determinante durante a parte da minha vida em que me deixei dominar por ele.
Talvez seja uma coisa de vidas passadas, como diz a Célia que passa a vida a viajar para a Índia. Ou então é mesmo uma coisa inexplicável. O certo é que haverá sempre coisas mais bonitas na vida do que as sanitas.
segunda-feira, 11 de maio de 2015
A cor dos sonhos
- De que cor são os sonhos, a que cheiram e a que sabem?
A pergunta da miúda de oito anos deixou a avó inquieta, sem saber o que responder. A neta estava à espera da resposta à frente dela.
Os olhos azuis esbugalhados, as pestanas bem abertas, o cabelo ruivo com a franja em desalinho e os deditos pautados por sardas a puxar a saia azul rodada para cima.
A miúda começava a mostrar sinais de impaciência, mas em 70 anos de vida nunca lhe tinham feito tal pergunta.
- Bem, a avó vai tentar responder. O que eu penso é que... Os sonhos têm exactamente a cor, o cheiro e o sabor que lhes quisermos dar. Não há limite para os sonhos e não devemos deixar nunca que nos limitem ou impeçam de sonhar. Sonho é progresso. Sonho é vida.
- Não sei se estou perceber, vó! Isso quer dizer que morremos se não sonharmos?
- O que quero dizer é que é muito importante termos objectivos na vida. Coisas que queremos fazer, aprender, conhecer. Se não tivermos sonhos não nos sentimos vivos. É como se a vida não tivesse valor ou não lhe déssemos o valor que realmente tem.
- Mas o que é que se sente quando se realiza um sonho? E depois o que é que acontece? Ficas sem sonhos? Ficas vazia?
A avó soltou uma gargalhada sonora. Ajeitou o cabelo grisalho na testa, tirou os óculos pretos e aclarou a voz pigarreando. A miúda começou a reclamar que queria saber qual era a graça das suas perguntas e queria respostas. De dedito em riste, mostrava desagrado com a lentidão da avó.
- Tem calma. Tu tens muitas perguntas, Ritinha. E a avó podia responder-te com muitos exemplos da minha experiência. Mas há alguns que só te posso contar quando fores mais velha.
O que posso dizer agora é que quando realizas um sonho não te sentes vazia. Pelo contrário. Sentes-te preenchida. É uma sensação fantástica. Se lutaste muito para concretizar o sonho ainda te sentes melhor, sentes-te recompensada.
Sabes finalmente nessa altura se o que sonhaste corresponde ao que é a realidade. Pode ser pior ou melhor mas é sempre uma sensação de preenchimento por concretizares algo que deu tanto trabalho a conquistar.
Não deixes nunca de sonhar. Independentemente da tua idade. Sobretudo quando fores mais velha. Não deixes nunca que te tirem a capacidade de sonhar e de lutar por aquilo em que acreditas. Se alguém te disser o contrário é porque está errado.
Hoje em dia há quem tenha os pés assentes demais na terra e não dê valor a coisas abstractas como os sonhos. Nunca deixes que ninguém te tire a força de lutar pelos sonhos, porque só assim terás a vida que te fará feliz.
A pergunta da miúda de oito anos deixou a avó inquieta, sem saber o que responder. A neta estava à espera da resposta à frente dela.
Os olhos azuis esbugalhados, as pestanas bem abertas, o cabelo ruivo com a franja em desalinho e os deditos pautados por sardas a puxar a saia azul rodada para cima.
A miúda começava a mostrar sinais de impaciência, mas em 70 anos de vida nunca lhe tinham feito tal pergunta.
- Bem, a avó vai tentar responder. O que eu penso é que... Os sonhos têm exactamente a cor, o cheiro e o sabor que lhes quisermos dar. Não há limite para os sonhos e não devemos deixar nunca que nos limitem ou impeçam de sonhar. Sonho é progresso. Sonho é vida.
- Não sei se estou perceber, vó! Isso quer dizer que morremos se não sonharmos?
- O que quero dizer é que é muito importante termos objectivos na vida. Coisas que queremos fazer, aprender, conhecer. Se não tivermos sonhos não nos sentimos vivos. É como se a vida não tivesse valor ou não lhe déssemos o valor que realmente tem.
- Mas o que é que se sente quando se realiza um sonho? E depois o que é que acontece? Ficas sem sonhos? Ficas vazia?
A avó soltou uma gargalhada sonora. Ajeitou o cabelo grisalho na testa, tirou os óculos pretos e aclarou a voz pigarreando. A miúda começou a reclamar que queria saber qual era a graça das suas perguntas e queria respostas. De dedito em riste, mostrava desagrado com a lentidão da avó.
- Tem calma. Tu tens muitas perguntas, Ritinha. E a avó podia responder-te com muitos exemplos da minha experiência. Mas há alguns que só te posso contar quando fores mais velha.
O que posso dizer agora é que quando realizas um sonho não te sentes vazia. Pelo contrário. Sentes-te preenchida. É uma sensação fantástica. Se lutaste muito para concretizar o sonho ainda te sentes melhor, sentes-te recompensada.
Sabes finalmente nessa altura se o que sonhaste corresponde ao que é a realidade. Pode ser pior ou melhor mas é sempre uma sensação de preenchimento por concretizares algo que deu tanto trabalho a conquistar.
Não deixes nunca de sonhar. Independentemente da tua idade. Sobretudo quando fores mais velha. Não deixes nunca que te tirem a capacidade de sonhar e de lutar por aquilo em que acreditas. Se alguém te disser o contrário é porque está errado.
Hoje em dia há quem tenha os pés assentes demais na terra e não dê valor a coisas abstractas como os sonhos. Nunca deixes que ninguém te tire a força de lutar pelos sonhos, porque só assim terás a vida que te fará feliz.
segunda-feira, 4 de maio de 2015
Furacão
Fecho os olhos e passam diante de mim crianças a correr. Riem, cantam e
gritam. Ouço a porta de casa a abrir e chega junto de mim o meu marido.
Pergunta-me por que estamos no jardim com este calor. Chama os miúdos e
põe-lhe os chapéus e os bonés na cabeça. Sinto a sua mão grande pousada na
minha barriga. Sorrimos.
De repente abro os olhos e está tudo vazio. Ao contrário daquela tarde de Verão de há quarenta anos.
Estava grávida do meu quinto filho. Era uma mulher feliz com o meu casamento, sem sonhar que o meu marido me traía com a minha própria irmã. Só o descobriria horas mais tarde. Foi o dia mais infeliz da minha vida.
Quando os vi juntos perdi o homem que amava com todas as minhas forças e perdi a minha irmã. Passei a ser filha única naquele instante. O choque foi tão grande que perdi também o bebé. O aborto levou-me abaixo. Bati no fundo.
Nem me quero lembrar daquela altura terrível da minha vida. Queria divorciar-me e tive que lutar contra os meus pais para o fazer. O meu querido marido, que era e é advogado, fez-me a vida negra. Fez com que eu ficasse sem nada. E conseguiu a guarda dos filhos, porque eu não tinha emprego.
A minha família passou a ser a Inês, a minha melhor amiga. Que me acolheu em casa dela. Que me ajudou a voltar ao que era. Que me apoiou no momento de procurar trabalho. Que me permitiu reencontrar-me. Após uma longa luta nos tribunais, consegui muito mais tarde reaver os meus filhos.
Hoje já não existe em mim a sede de vingança. Hoje já não existe o medo de voltar a ser enganada por quem amo. Há apenas a dor por ter perdido uma vida que estava a ser gerada dentro de mim. Essa dor nunca passará.
Se ele ou ela fosse vivo como seria? Às vezes dou por mim a imaginar o seu rosto, os seus cabelos, as suas mãos, a sua voz. Mas nunca saberei como seria. Nessas alturas não consigo evitar as lágrimas.
Passadas quatro décadas voltei finalmente aqui, à casa onde fui tão feliz e onde me tornei tão infeliz. Basta fechar os olhos para me virem à memória os sons, cheiros, imagens que fazem a minha história neste espaço.
É estranho em todos estes quarenta anos não ter tido saudades desta laranjeira ao pé da qual gostava de me sentar a ler os clássicos. Nem da cerejeira que dava frutos carnudos e saborosos todas as Primaveras. Nem de ouvir o rouxinol que cantava noite fora nas árvores do jardim. Aliás, passei a detestar tudo isso.
Sorrio ao olhar para as cravinas e para as orquídeas alinhadas no canteiro junto à relva. A vida é irónica. Quem diria que eu viria a ser uma mulher rica, dona de um império de jóias conquistado a pulso com a força do meu trabalho. Sem precisar de qualquer homem ou de qualquer família.
Não é à toa que no mundo dos negócios me chamam de furacão. Ao pensar nisto solto uma gargalhada. Acho que este está a ser o melhor dia da minha vida.
O meu ex-marido e a minha irmã presos por desviarem dinheiro do banco, perderam tudo e eu comprei tudo o que tinham. Vou dar tudo à Santa Casa da Misericórdia. Excepto esta casa.
Amanhã vou doar o recheio à Igreja e depois mando uma máquina arrasar isto tudo. Vou construir um lar de idosos aqui. Um edifício novo, moderno.
A minha velhice vai ser passada neste lugar para me rir todos os dias que me restarem ao lembrar-me da ironia da vida que os fez pagar atrás das grades por todo o mal que me fizeram.
De repente abro os olhos e está tudo vazio. Ao contrário daquela tarde de Verão de há quarenta anos.
Estava grávida do meu quinto filho. Era uma mulher feliz com o meu casamento, sem sonhar que o meu marido me traía com a minha própria irmã. Só o descobriria horas mais tarde. Foi o dia mais infeliz da minha vida.
Quando os vi juntos perdi o homem que amava com todas as minhas forças e perdi a minha irmã. Passei a ser filha única naquele instante. O choque foi tão grande que perdi também o bebé. O aborto levou-me abaixo. Bati no fundo.
Nem me quero lembrar daquela altura terrível da minha vida. Queria divorciar-me e tive que lutar contra os meus pais para o fazer. O meu querido marido, que era e é advogado, fez-me a vida negra. Fez com que eu ficasse sem nada. E conseguiu a guarda dos filhos, porque eu não tinha emprego.
A minha família passou a ser a Inês, a minha melhor amiga. Que me acolheu em casa dela. Que me ajudou a voltar ao que era. Que me apoiou no momento de procurar trabalho. Que me permitiu reencontrar-me. Após uma longa luta nos tribunais, consegui muito mais tarde reaver os meus filhos.
Hoje já não existe em mim a sede de vingança. Hoje já não existe o medo de voltar a ser enganada por quem amo. Há apenas a dor por ter perdido uma vida que estava a ser gerada dentro de mim. Essa dor nunca passará.
Se ele ou ela fosse vivo como seria? Às vezes dou por mim a imaginar o seu rosto, os seus cabelos, as suas mãos, a sua voz. Mas nunca saberei como seria. Nessas alturas não consigo evitar as lágrimas.
Passadas quatro décadas voltei finalmente aqui, à casa onde fui tão feliz e onde me tornei tão infeliz. Basta fechar os olhos para me virem à memória os sons, cheiros, imagens que fazem a minha história neste espaço.
É estranho em todos estes quarenta anos não ter tido saudades desta laranjeira ao pé da qual gostava de me sentar a ler os clássicos. Nem da cerejeira que dava frutos carnudos e saborosos todas as Primaveras. Nem de ouvir o rouxinol que cantava noite fora nas árvores do jardim. Aliás, passei a detestar tudo isso.
Sorrio ao olhar para as cravinas e para as orquídeas alinhadas no canteiro junto à relva. A vida é irónica. Quem diria que eu viria a ser uma mulher rica, dona de um império de jóias conquistado a pulso com a força do meu trabalho. Sem precisar de qualquer homem ou de qualquer família.
Não é à toa que no mundo dos negócios me chamam de furacão. Ao pensar nisto solto uma gargalhada. Acho que este está a ser o melhor dia da minha vida.
O meu ex-marido e a minha irmã presos por desviarem dinheiro do banco, perderam tudo e eu comprei tudo o que tinham. Vou dar tudo à Santa Casa da Misericórdia. Excepto esta casa.
Amanhã vou doar o recheio à Igreja e depois mando uma máquina arrasar isto tudo. Vou construir um lar de idosos aqui. Um edifício novo, moderno.
A minha velhice vai ser passada neste lugar para me rir todos os dias que me restarem ao lembrar-me da ironia da vida que os fez pagar atrás das grades por todo o mal que me fizeram.
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