O sol vaidoso de Verão invadia todas as ruas. Era meio-dia em ponto. O sino da torre da igreja não dava margem para enganos. Olhou para o relógio que a mãe lhe dera num aniversário e que agora levava sempre no bolso. Era já pequeno demais para o seu pulso.
Fechou os olhos na direção do sol e viu o sorriso da mãe por cima da bola amarela radiante. Abriu o olho esquerdo enquanto fechava o outro com força. Depois abriu o esquerdo enquanto tinha o direito fechado. Abriu os dois e só via pequenos pontos amarelos pontuados pelos lábios maternais. Se lhe prometessem o sorriso da mãe de volta, ela seria capaz de dar o sol em troca.
Sentou-se na calçada do passeio e foi assim que o namorado a encontrou.
- Amor, desculpa a demora mas a bomba aqui perto estava fechada e tive que voltar para trás para abastecer o carro na cidade! - desculpou-se Ivo com voz melosa.
- Não faz mal. O único problema é estarmos 40 minutos atrasados. Coisa pouca, portanto - atirou Raquel com um tom irónico, ao mesmo tempo que entrava na carrinha pão-de-forma.
A viagem foi feita em silêncio. Apenas aquecia o ambiente uma cassete velha que passava música dos anos 80. O cão ladrava de quando em quando na parte de trás da carrinha, como se cantasse em coro as músicas de que mais gostava.
Só quando iam perto de Odemira é que Ivo ganhou coragem para falar.
- Sei que gostas que respeite o teu silêncio, mas estamos há 200 quilómetros sem falar. Preciso de saber o que se passa contigo. Estamos a começar as férias, não estamos a ir para um funeral para estares assim. Que cara é essa? É só por causa do meu atraso?
- Não só, mas também. O tempo que me deixaste à espera fez-me lembrar o dia em que os meus pais tiveram o acidente de carro e nunca mais apareciam na escola para me buscar. Ainda por cima pus-me a fazer contas e descobri que há dois dias fez 13 anos que aconteceu o acidente. E faz hoje 13 anos que foi o funeral da minha mãe.
- Desculpa o atraso, Raquel. A sério que o problema foi mesmo a falta de combustível. Eu saí de casa a tempo de te ir buscar à hora combinada.
- Ivo, eu não preciso de justificações. Preciso de acções. Preciso que nunca mais me deixes à espera. Preciso que caminhes ao meu lado e me dês a mão. É só isso que eu preciso.
Ele olhou para ela, com aquele olhar profundo que só os apaixonados podem entender. Com toda a ternura do mundo, mas por dentro a sentir-se culpado por se ter atrasado por ter estado aos beijos com a dita melhor amiga de Raquel. A sentir-se perdido por saber que ia ser cada vez mais difícil escolher uma das duas, condição essencial para ter uma vida sem traições nem mentiras.
E foi no momento em que ele tirou a mão da alavanca das mudanças para apertar com força a mão da namorada que ouviram uma buzina. Desviaram o olhar um do outro e a última coisa que viram foi um camião a bater de frente na carrinha. Morreram de mão dada.
O cão viria a ser encontrado morto na valeta, ao lado da carrinha pão-de-forma enfaixada no camião.
Raquel pôde finalmente abraçar a mãe e Ivo não precisou de escolher entre duas mulheres. Passou a eternidade de mão dada com Raquel.
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
A gaivota e eu
Uma gaivota pairava dourada sobre as nossas cabeças. Naquelas asas havia tanto sol que a nossa vista terrena não podia alcançar. Os raios do astro-rei já não pousavam sobre a nossa pele e só se deixavam ver naqueles braços cobertos de penas e nas pontas dos prédios mais altos.
Naquele momento eu queria apenas ser aquela gaivota voando feliz pelo céu azul de fim de tarde, voando indiferente a todas as desgraças que se passavam cá em baixo.
Os meus pensamentos foram interrompidos por um dedo que se espetou nas minhas costas.
- Desculpe menina, sabia que Deus veio ao mundo para nos salvar?
Claro que eu sabia. Essa notícia era tão velha que era quase impossível não o saber. Mas se a senhora insistir em dar-me essa revista esteja certa de que vai parar àquele papelão, rematei decidida e virei a cara para ver quanto tempo ainda demorava a chegar o autocarro.
Sete longos minutos. Suspirei e voltei a pensar na gaivota. Pensei também na minha irmã que estava acamada e em fase terminal, no meu chefe que me tinha despedido duas horas antes com o argumento da crise, na minha mãe que me sorria apática na sua doença que a afasta do mundo, no meu namorado que me tinha trocado uns dias antes por um colega de trabalho.
A minha vida era feitas de coisas más. Só me apetecia fugir de tudo e de todos, mas o problema é que não podia fugir de mim própria. E a minha irmã precisava de mim. Naquele dia. Queria revelar-me as suas últimas vontades, queria dizer como seria o seu funeral. Eu é que teria que tratar de tudo.
Que crueldade, que vida tão inútil e frágil. O que faço eu aqui se não vou poder mais ouvir a sua voz, cheirar o seu perfume adocicado, pegar nas suas mãos, sentir o seu abraço quente, ficar em silêncio perante alguém durante horas e deixar apenas os olhos desabafar quando me apetecesse.
Já uma lágrima desobediente rolava pela minha face quando vi o autocarro finalmente aproximar-se. Sentei-me e abri distraidamente o jornal da manhã. Lembrei-me então de procurar trabalho nos classificados. Embora sem grande fé de encontrar alguma coisa, sempre era uma forma de manter a cabeça ocupada.
O que não esperava de todo era encontrar num dos quadradinhos o nome do meu primeiro namorado. Dono de uma churrasqueira agora, procurava uma empregada a tempo inteiro. Resolvi responder ao anúncio.
Este foi o princípio da vida feliz que tenho hoje ao lado do pai dos meus filhos e avô dos meus netos. E hoje sempre que vejo uma gaivota de asas douradas a pairar no céu lembro-me daquele dia que marcou a viragem do meu destino.
Naquele momento eu queria apenas ser aquela gaivota voando feliz pelo céu azul de fim de tarde, voando indiferente a todas as desgraças que se passavam cá em baixo.
Os meus pensamentos foram interrompidos por um dedo que se espetou nas minhas costas.
- Desculpe menina, sabia que Deus veio ao mundo para nos salvar?
Claro que eu sabia. Essa notícia era tão velha que era quase impossível não o saber. Mas se a senhora insistir em dar-me essa revista esteja certa de que vai parar àquele papelão, rematei decidida e virei a cara para ver quanto tempo ainda demorava a chegar o autocarro.
Sete longos minutos. Suspirei e voltei a pensar na gaivota. Pensei também na minha irmã que estava acamada e em fase terminal, no meu chefe que me tinha despedido duas horas antes com o argumento da crise, na minha mãe que me sorria apática na sua doença que a afasta do mundo, no meu namorado que me tinha trocado uns dias antes por um colega de trabalho.
A minha vida era feitas de coisas más. Só me apetecia fugir de tudo e de todos, mas o problema é que não podia fugir de mim própria. E a minha irmã precisava de mim. Naquele dia. Queria revelar-me as suas últimas vontades, queria dizer como seria o seu funeral. Eu é que teria que tratar de tudo.
Que crueldade, que vida tão inútil e frágil. O que faço eu aqui se não vou poder mais ouvir a sua voz, cheirar o seu perfume adocicado, pegar nas suas mãos, sentir o seu abraço quente, ficar em silêncio perante alguém durante horas e deixar apenas os olhos desabafar quando me apetecesse.
Já uma lágrima desobediente rolava pela minha face quando vi o autocarro finalmente aproximar-se. Sentei-me e abri distraidamente o jornal da manhã. Lembrei-me então de procurar trabalho nos classificados. Embora sem grande fé de encontrar alguma coisa, sempre era uma forma de manter a cabeça ocupada.
O que não esperava de todo era encontrar num dos quadradinhos o nome do meu primeiro namorado. Dono de uma churrasqueira agora, procurava uma empregada a tempo inteiro. Resolvi responder ao anúncio.
Este foi o princípio da vida feliz que tenho hoje ao lado do pai dos meus filhos e avô dos meus netos. E hoje sempre que vejo uma gaivota de asas douradas a pairar no céu lembro-me daquele dia que marcou a viragem do meu destino.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Sonhar pelos outros
Etelvina queria uma nora que soubesse bordar e coser para fazer companhia à lareira nas noites de inverno. Ajudar a cuidar da horta, limpar a casa e fazer a comida. Dar-lhe netos e criá-los. Que mais podia uma mulher querer da vida senão viver assim ao lado da sogra?
Na casa ao lado, Juventino queria um genro que soubesse pegar num tractor, lavrar a terra, rachar lenha e roçar mato. Beber um litro de vinho ao jantar, palitar os dentes, comer moelas na taberna e jogar cartas. Um genro assim era um sonho.
Um e outro eram viúvos e acreditavam que os filhos iriam casar com pessoas assim e lhes dariam netos para atenuar a solidão da velhice.
Só que aconteceu o que nenhum dos dois esperava. O filho de Etelvina e a filha de Juventino caíram de amores um pelo outro, depois de umas relações fugazes de que os pais não tinham tido conhecimento sequer. Vera e João conheciam-se desde sempre, mas só agora a paixão despertara. Mas nem um, nem outro correspondiam ao perfil de genro e nora de sonho.
Vera era engenheira e queria consolidar uma carreira antes de pensar em casar e ter filhos. João era enfermeiro e queria voltar a estudar para chegar a médico.
A paixão repentina, a relação arrebatadora em poucos meses não estavam nos planos. Nem este envolvimento estava nos planos dos pais de ambos. Viúvos e vizinhos, tinham estima um pelo outro, mas o que menos queriam era que os filhos se envolvessem. Não era isso que tinham sonhado para os filhos, simplesmente porque nem sequer sonhavam que os filhos fossem para a universidade. Sempre desejaram que tivessem um percurso como o seu, que não seguissem os estudos. E que lhes dessem netos rapidamente. Por isso, opuseram-se fortemente àquele namoro.
Etelvina e Juventino decidiram lutar juntos contra a relação dos filhos. Todos os dias juntavam-se para planear formas de sabotar o namoro. Inventavam mentiras aos filhos para denegrir a imagem de Vera aos olhos de João e vice-versa, arranjavam mil e um esquemas e até encontraram o genro e a nora perfeita para cada um, tentando atirá-los para os braços dos filhos.
Nada resultou. Quanto mais os tentavam afastar, mais eles se aproximavam. Chegou a um ponto em que Vera e João já não suportavam Etelvina e Juventino, os seus esquemas e mentiras. Em segredo arranjaram trabalho na Suíça, compraram os bilhetes e fizeram as malas. Os pais só souberam de tudo no dia da viagem.
Etelvina e Juventino perderam os filhos para sempre. Magoados com os pais, Vera e João nunca mais voltaram a Portugal. Etelvina e Juventino não chegaram a conhecer os netos, não viram João tornar-se médico e Vera dona de uma empresa de sucesso.
Apesar de tudo, Etelvina e Juventino sempre acharam que os filhos é que estavam errados e teriam que arrepender-se pelo que fizeram. E tanto se apoiaram um ao outro que acabaram por se envolver. E aos 53 anos Etelvina engravidou e Juventino voltou a ser pai.
Na casa ao lado, Juventino queria um genro que soubesse pegar num tractor, lavrar a terra, rachar lenha e roçar mato. Beber um litro de vinho ao jantar, palitar os dentes, comer moelas na taberna e jogar cartas. Um genro assim era um sonho.
Um e outro eram viúvos e acreditavam que os filhos iriam casar com pessoas assim e lhes dariam netos para atenuar a solidão da velhice.
Só que aconteceu o que nenhum dos dois esperava. O filho de Etelvina e a filha de Juventino caíram de amores um pelo outro, depois de umas relações fugazes de que os pais não tinham tido conhecimento sequer. Vera e João conheciam-se desde sempre, mas só agora a paixão despertara. Mas nem um, nem outro correspondiam ao perfil de genro e nora de sonho.
Vera era engenheira e queria consolidar uma carreira antes de pensar em casar e ter filhos. João era enfermeiro e queria voltar a estudar para chegar a médico.
A paixão repentina, a relação arrebatadora em poucos meses não estavam nos planos. Nem este envolvimento estava nos planos dos pais de ambos. Viúvos e vizinhos, tinham estima um pelo outro, mas o que menos queriam era que os filhos se envolvessem. Não era isso que tinham sonhado para os filhos, simplesmente porque nem sequer sonhavam que os filhos fossem para a universidade. Sempre desejaram que tivessem um percurso como o seu, que não seguissem os estudos. E que lhes dessem netos rapidamente. Por isso, opuseram-se fortemente àquele namoro.
Etelvina e Juventino decidiram lutar juntos contra a relação dos filhos. Todos os dias juntavam-se para planear formas de sabotar o namoro. Inventavam mentiras aos filhos para denegrir a imagem de Vera aos olhos de João e vice-versa, arranjavam mil e um esquemas e até encontraram o genro e a nora perfeita para cada um, tentando atirá-los para os braços dos filhos.
Nada resultou. Quanto mais os tentavam afastar, mais eles se aproximavam. Chegou a um ponto em que Vera e João já não suportavam Etelvina e Juventino, os seus esquemas e mentiras. Em segredo arranjaram trabalho na Suíça, compraram os bilhetes e fizeram as malas. Os pais só souberam de tudo no dia da viagem.
Etelvina e Juventino perderam os filhos para sempre. Magoados com os pais, Vera e João nunca mais voltaram a Portugal. Etelvina e Juventino não chegaram a conhecer os netos, não viram João tornar-se médico e Vera dona de uma empresa de sucesso.
Apesar de tudo, Etelvina e Juventino sempre acharam que os filhos é que estavam errados e teriam que arrepender-se pelo que fizeram. E tanto se apoiaram um ao outro que acabaram por se envolver. E aos 53 anos Etelvina engravidou e Juventino voltou a ser pai.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Embrulhada
O vento quente do estio a deslizar pelos pêlos das pernas. Não há nada melhor neste mundo. Pelo menos era o que pensava Tomé enquanto ia pela estrada fora fintando os carros.
Os calções esverdeados não viam a luz do dia desde o outono anterior e até cheiravam a môfo, mas nada disso importava. Tomé acreditava que aquela peça de roupa lhe dava poderes especiais com as mulheres, até mesmo se estivessem enrugados.
Afinal, todos os Verões arranjava namoradas giras e durante o resto do ano as raparigas não lhe ligavam. Só podia ser dos calções. Foi com eles que deu o primeiro beijo a sério, foi com eles que conquistou uma miúda que já tinha sido Miss Vindimas, foi com eles que foi eleito Mister Praia, foi com eles que passou tantos bons momentos. Tanto tempo que já tinham mudado de cor e ficado menos verdes com as lavagens.
Tomé ia agora a caminho da sua nova vida. Em breve teria o diploma de bombeiro profissional e então ninguém o pararia com as miúdas. Pelo menos assim pensava enquanto estacionava a sua scooter verde em frente à casa da miúda mais gira de Matosinhos.
Tinha combinado ir buscá-la para irem à praia, mas como sabia que os pais dela não estavam em casa decidiu ir mais cedo para tentar a sua sorte. Aqueles calções nunca falhavam. E não falharam também naquele dia.
O problema foi quando o pai dela entrou em casa e foi seguindo o rasto de roupas até ao quarto da filha, onde a encontrou enrolada com um rapaz. Os dois estavam tal como vieram ao mundo.
O problema foi quando o pai dela e Tomé viram a cara um do outro, o problema foi quando se olharam nos olhos, o problema foi quando perceberam a embrulhada em que se tinham metido.
É que ninguém dos três sabia que o pai de Tomé era também o pai da rapariga. Tinha duas famílias. Uma em Matosinhos e outra na Régua. E mal sonhava que naquele momento a sua filha estava grávida do seu próprio filho.
Os calções esverdeados não viam a luz do dia desde o outono anterior e até cheiravam a môfo, mas nada disso importava. Tomé acreditava que aquela peça de roupa lhe dava poderes especiais com as mulheres, até mesmo se estivessem enrugados.
Afinal, todos os Verões arranjava namoradas giras e durante o resto do ano as raparigas não lhe ligavam. Só podia ser dos calções. Foi com eles que deu o primeiro beijo a sério, foi com eles que conquistou uma miúda que já tinha sido Miss Vindimas, foi com eles que foi eleito Mister Praia, foi com eles que passou tantos bons momentos. Tanto tempo que já tinham mudado de cor e ficado menos verdes com as lavagens.
Tomé ia agora a caminho da sua nova vida. Em breve teria o diploma de bombeiro profissional e então ninguém o pararia com as miúdas. Pelo menos assim pensava enquanto estacionava a sua scooter verde em frente à casa da miúda mais gira de Matosinhos.
Tinha combinado ir buscá-la para irem à praia, mas como sabia que os pais dela não estavam em casa decidiu ir mais cedo para tentar a sua sorte. Aqueles calções nunca falhavam. E não falharam também naquele dia.
O problema foi quando o pai dela entrou em casa e foi seguindo o rasto de roupas até ao quarto da filha, onde a encontrou enrolada com um rapaz. Os dois estavam tal como vieram ao mundo.
O problema foi quando o pai dela e Tomé viram a cara um do outro, o problema foi quando se olharam nos olhos, o problema foi quando perceberam a embrulhada em que se tinham metido.
É que ninguém dos três sabia que o pai de Tomé era também o pai da rapariga. Tinha duas famílias. Uma em Matosinhos e outra na Régua. E mal sonhava que naquele momento a sua filha estava grávida do seu próprio filho.
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