segunda-feira, 28 de julho de 2014

Ana Desenxabida

Há pessoas que têm o dom da palavra e outras que não têm. Ana Enxabida definitivamente não tinha.

Toda a sua vida foi passada na aldeia onde nasceu, tirando uma ou outra ida a médicos no Porto ou à cidade vizinha. Quando andava na escola e na catequese era sempre posta de parte pelos colegas e professores, porque estava sempre encolhida e raramente falava, mesmo quando lhe perguntavam alguma coisa. Foi por isso que lhe começaram a chamar Enxabida. E quando uma alcunha pega numa aldeia é para toda a vida. 

Nunca passou da quarta classe e mesmo para isso teve que lá andar 15 anos. Os pais também nunca a souberam ajudar, até porque eles também não tinham grandes amizades com a expressão oral. Depois de sair da escola, Ana Enxabida foi ajudar o pai a guardar o gado, mas nem para isso se ajeitava. Ficava encolhida junto a um carvalho ou uma oliveira enquanto o cão pastor fazia o trabalho todo sozinho.

O que ninguém sabia era que ela tinha grande aptidão para as artes plásticas. A mãe sabia apenas que ela passava todo o tempo livre a olhar para desenhos coloridos que encontrava no computador, na internet ou lá o que é. E que sempre que juntava dinheiro ia à loja dos chineses nas idas à cidade vizinha. 

Um dia a mãe percebeu que ela estava no quarto com umas tintas como aquelas de pintar paredes, mas em tubos mais pequenos. Pintava uns papéis ou tecidos brancos com uns pincéis mais pequenos do que as trinchas. A única coisa que pensou dessa vez é que o melhor era deixá-la entretida. Seria menos um empecilho na cozinha. E das vezes seguintes que viu o cenário pensou o mesmo.

Um dia quando foi à cidade Ana Enxabida viu um cartaz com um desenho colorido como os que gostava de pintar e leu que um pintor de Guimarães iria estar ali dentro de duas semanas para mostrar os seus novos quadros. A caminho de casa, na camioneta de carreira, Ana Enxabida não pensou noutra coisa. Até que no dia seguinte lhe ocorreu aparecer na tal exposição com alguns dos seus quadros.

- Fauvismo! - atirou o conhecido pintor ao ver as três telas. Isto é uma obra de arte menina!

Magia ou não, ao fim de mais de 20 anos a língua dela soltou-se, endireitou as costas e apontou com ar resoluto:

- Fui eu que pintei. E tenho muitas mais em casa. Se me aceitar como discípula podemos dividir lucros de exposições que eu venha a fazer.

Dez anos depois regressou à aldeia natal para ir ao funeral da mãe. Bem vestida e de pose altiva, de braço dado com um rico marido pintor francês, ninguém mais se atreveu a chamar-lhe Enxabida. A partir daí passou a ser conhecida por lá como Ana Desenxabida.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Mariana e as redes

Mariana não gostava nada de andar de comboio. Mas desde que entrou na universidade em Coimbra, no princípio do ano, era obrigada a andar todos os dias naquelas carruagens que detestava entre a Mealhada e a cidade que dizem ser dos estudantes.

O desejo dela era poder viver perto da faculdade, só que os pais preferiam que ficasse em casa da avó a fazer-lhe companhia.

As aborrecidas viagens de comboio só ganharam um novo sentido em Janeiro quando os pais lhe mandaram de França um telemóvel de última geração como prenda de aniversário. 

Desde então já nem se importa de andar de comboio, porque o tempo é agora passado nas redes sociais, a ouvir música, ver fotos e em jogos super coloridos.

O melhor mesmo para ela é ir ao Facebook. É como entrar numa sala onde estão todos os seus amigos, saber tudo o que há de novo, contar-lhes todas as novidades, partilhar vídeos e fotos com eles. 

E depois, a qualquer momento que lhe apeteça, fechar a porta sem se despedir nem se explicar. E ficar sozinha de novo, entregue aos jogos supercoloridos ou então ao sono.

O grande problema foi o dia em que adormeceu a meio do caminho e quando chegou a Coimbra já não tinha o seu fantástico telemóvel de última geração.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A prisão

Entrou no meu mundo e nem sequer pediu licença. Chegou quando menos esperava e encontrou-me incauto.

Eu estava à espera de nada. Aos 51 anos, já nada espero da vida ao mesmo tempo que espero tudo. No fundo é como se me tentasse convencer que o melhor é não criar demasiadas expectativas quanto ao futuro para não correr o risco de a vida me desiludir, ao mesmo tempo que me mantenho aberto a tudo o que de bom a vida me possa trazer.

Sim, de bom, que o melhor é não pensar no pior para não corrermos o risco de ele se lembrar de nós e vir ter connosco. Se isto é assim nesta idade nem quero imaginar como será daqui a trinta anos.

Mas, como dizia há pouco, ela encontrou-me incauta. Eu entrei no metro e o olhar dela veio ter comigo, abanou-me. Eu sentei-me e ela insistia em abanar-me. Eu olhava para o vidro e inconscientemente procurava o reflexo dela, onde a via a virar a cabeça para me procurar. E assim fomos pela terra fora, naquele túnel escuro que parecia não ter fim e que apenas era entrecortado pelas paragens nas estações do metro.

Finalmente quando chegou à minha paragem levantei-me para sair e quando dei por mim estava encostada a ela. Ela pegou levemente na minha mão direita e acompanhou-me na saída da carruagem. 

Já do lado de fora ficámos petrificados a olhar um para o outro até o metro arrancar em direcção a outra estação. E aquele momento em que éramos só olhos um para o outro durou até que ela decidiu desatar o nosso até então eterno silêncio com uma respiração ofegante que conduziu os seus lábios até aos meus.

O conto de fadas só terminou quando ela me disse que estava a fugir à polícia por ser acusada de roubo de corações de homens desprotegidos. Foi assim que a passei a visitar todos os domingos na prisão que é o meu amor por ela.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Uma mentira contada mil vezes...

Num reino não muito distante do meu Alentejo de searas queimadas ao sol e de casas caiadas pela luz há um outro reino onde o cheiro é rei.

Para dizer a verdade nunca lá fui, mas agora que penso nisso vou pedir ao ti Firmino que me diga o caminho para lá. Foi ele que chegou um dia aqui à aldeia com essa notícia. 

O filho trabalha num parque de animais, um género de jardim zoológico que há por aí - também não me perguntem onde ao certo que não sou bom a dar indicações como já perceberam - e, numa das vezes em que foi buscar camelos ao deserto, quando vinha em Espanha tranquilamente a conduzir o camião cheio de animais foi sobressaltado por um cheiro.

Era um cheiro doce e ao mesmo tempo agressivo, viciante e possessivo. Sem se aperceber, o Manel da Rosa Matildes - que é como quem diz, o filho do ti Firmino - já tinha saído da estrada e estava a conduzir num caminho de terra batida. O cheiro é que o conduzia, ele não tinha controlo sobre o camião. 

Quando se apercebeu disso tentou encostar na berma para poder destapar a tampa do farnel e cheirar a comida que guardava para o almoço foi impedido por uma força que não lhe deixava sequer guinar o volante. E as mãos pareciam estar coladas àquela roda, tantas vezes companheira e agora diabólica. 

Como não funcionou a ideia de tentar neutralizar aquele cheiro que abria as narinas e chegava a fazer doer os pulmões, o Manel da Rosa Matildes lá se resignou a continuar pelo caminho de terra batida que começava a ser polvilhado por pétalas de rosa. Não eram umas pétalas de tamanho normal - alertou várias vezes o ti Firmino quando contou isto pela primeira vez na adega do Bartolomeu do Rómulo. As pétalas eram do tamanho de pratos, e, como se tivessem sido moldadas numa forma, eram encovadas no meio, como um prato de sopa. Vermelhas, amarelas, brancas, cor-de-laranja e até azuis, as pétalas estavam por toda a estrada já.

Aos poucos começaram a ver-se debruçadas para o caminho umas roseiras com um botões enormes, que se percebia serem as mães das pétalas espalhadas pelo chão.

Nos campos à volta trabalhavam mulheres e homens muito pequenos. Não eram anões, gosta de frisar o ti Firmino sempre que conta isto. Eram maiores do que os anões, mas mais pequenos do que a altura média normal. Vestiam-se com panos coloridos, a condizer com as roseiras. Quem se vestia de azul estava atrás da roseira azul, quem se vestia de amarelo estava atrás da roseira amarela, quem se vestia de branco estava atrás da roseira branca, e assim por diante. O Manel da Rosa Matildes não conseguiu perceber o que faziam ao certo nos campos, mas podia jurar que estavam a podar roseiras.

O camião continuou imparável por um caminho assim durante largos quilómetros de modo que o Manel da Rosa Matildes acabou por adormecer. De repente acordou sobressaltado por um cheiro ainda mais doce e agressivo e possessivo. Ato contínuo, levou o pé ao travão para imobilizar a viatura - como gosta de dizer desde que tirou a carta em Évora há dez anos - e conseguiu mesmo parar o camião.

Olhou em frente e viu uma casa apalaçada, enorme, forrada com as tais pétalas de roseiras que se enlaçavam às paredes a partir dos cantos. De dentro da porta saiu um homem alto, com uns dois metros de altura, vestido com uns panos de várias cores, as cores das roseiras. Seguiam-no uns vinte homens do tamanho dos que vira nos campos, mas vestidos com panos iguais aos do gigante.

O Manel da Rosa Matildes decidiu sair do camião e foi quando os criados do gigante o rodearam. Ele queria falar e nada lhe conseguia sair da garganta. Ele queria mexer-se e não conseguia. Eles falavam numa língua que ele não entendia e quando se moviam cheiravam a rosas secas. Ninguém o olhou nos olhos até que o gigante se aproximou e lhe falou em português com um sotaque castelhano.

- Prestaste um serviço importante à nossa comunidade. Nós precisamos mais dos camelos e do camião do que o teu zoozinho lastimável. Vamos ficar com tudo o que tens. Podes ir para casa e levar o teu farnel. Não te preocupes que não te fazemos mal e os teus camelos estão em boas mãos.

- Mas como é que vou para casa se nem sei onde estou?

- Vais adormecer daqui a nada e quando acordares já estás no teu Alentejo. Não adianta virem à procura do camião e dos camelos, porque não nos vão encontrar. O nosso reino só se deixa ver e cheirar por quem nos é útil e quando nós queremos, apesar de vivermos debaixo do vosso nariz. O cheiro é o nosso rei e as rosas as rainhas. É a única coisa que te posso revelar.

Nesta altura o Manel da Rosa Matildes sentiu as narinas a serem inundadas por um perfume forte e simultaneamente picante, sensual e vibrante. E adormeceu.

Quando acordou estava à beira de uma estrada para os lados de Mora. Teve que vir à boleia de camionistas até casa. Chegou num domingo de Páscoa, quando já ninguém acreditava que estava vivo, a não ser a Rosa Matildes. Tinha passado um mês e as polícias portuguesa e espanhola andavam a investigar o desaparecimento, mas sem grandes avanços.

Toda a gente aqui acreditou nesta história do reino das roseiras e do cheiro forte, agressivo e possessivo. Menos eu. Desde que ouvi o ti Firmino contar isto na adega do Bartolomeu do Rómulo naquele domingo de Páscoa que me cheirou logo a patranha. 

Cá para mim ele meteu-se em negócios escuros, vendeu o camião mais os camelos e foi abandonado à beira de uma estrada sem nada. E depois inventou esta história para se safar. Ninguém me tira isto da mioleira.