segunda-feira, 29 de junho de 2015

Distâncias

Os longos braços abetos transformaram-se num abraço que envolveu por completo a pequena criança. A pele luzidia e negra de ambos parecia gritar felicidade. A mulher rodopiava o filho incessantemente no ar num sorriso comum a ambos. Até que o miúdo pediu à mãe que o pusesse no chão.


Uma estação de comboios tem destas coisas. Os reencontros ou os pontos finais nas separações físicas de pessoas que se querem muito. Mas tem também o oposto. Os que partem para mais longe ou mais perto, os que vão por mais ou menos tempo.

Como o casal de idosos que entrou no comboio lavado em lágrimas, deixando do lado de fora da cidade uma família a acenar. Ou a namorada que ficou em terra a morder o lábio enquanto escreve uma mensagem de amor no telemóvel para o rapaz que vai sentado na primeira carruagem fardado de branco. 

Porque não podem estar sempre perto aqueles que amamos? Porque há distâncias físicas tão grandes a separar quem nunca se queria longe?  Há muitas respostas ou talvez nenhuma. O facto é que quando se reencontram duas pessoas que se querem bem a sensação é de que é preciso aproveitar a vida intensamente até que um comboio ou outro meio de transporte qualquer os separe de novo.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Céu estrelado



Tinha anoitecido há pouco. O céu ainda era mais claro do lado em que o sol se tinha posto. As estrelas começavam timidamente a aparecer no firmamento. As cigarras cantavam num prenúncio de noite quente. Os pirilampos começavam a semear pontos de luz amarela pelo meio dos pinheiros.


Vítor sentia-se num paraíso. Não podia estar melhor. Aliás, podia. Se a namorada se calasse um segundo. Não parava de se queixar das picadas de insectos.


Ana estava sentada ao lado, numa manta estendida no chão atapetado de agulhas de pinheiro. A mão esquerda coçava o pescoço enquanto a mão direita coçava a testa. Não parava de rogar pragas aos mosquitos e às melgas. Se soubesse que ia ser assim nunca tinha concordado em acampar com o namorado.


Era a primeira vez na vida em que não ia dormir numa cama. Uma tenda, um saco-cama, dormir no campo - eram experiências novas. E estava a detestar.


Pelo contrário, João já tinha acampado dezenas de vezes. E adorava. O que mais gostava era poder ver o céu estrelado. Adorava olhar para os planetas e constelações longe das luzes da cidade. Apontava os dedos para cima e ia desenhando as formas do que ao simples leigo parecem apenas pequenos pontos de luz no negro firmamento.


Esta era a primeira vez em que acampava com Ana. E foi a primeira vez em que detestou acampar. Passar a noite a aturar as manias e queixas dela foi um verdadeiro pesadelo.


Na altura em que teve a ideia de acamparem juntos mal sonhava que esta noite iria pôr fim à relação. Há uma música que diz que não se ama alguém que não ouve a mesma canção. João diria que não se ama alguém que em relação à vida não tem a mesma visão.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Índia

Acordei a sufocar. Na realidade não tinham passado mais de cinco minutos desde que tinha olhado para o relógio pela última vez. 

Não consigo dormir há várias noites e a única coisa que os adultos me sabem dizer é que tenho que me habituar ao calor sufocante da Índia. 

E que devo contar carneiros. Como se isso alguma vez tivesse resultado comigo nos meus 11 anos de vida.

Eu sei muito bem que o meu problema é só um: ter perdido a minha mãe. Morreu de cancro na semana passada. Não faleceu, nem partiu para as estrelas. Morreu. Tenho que o aceitar. Já sou uma menina crescida.


Mas não sei como explicar ao meu irmão de cinco anos. Nem sei como explicar a razão da nossa vinda para este país tão distante e diferente de Portugal.

O meu pai quis viajar. Diz que é uma homenagem à minha mãe, que sempre quis vir à Índia e nunca concretizou o sonho. 


Antes de morrer  ela disse-me que gostava que eu conhecesse outros países e culturas. Explicou-me que nunca somos a mesma pessoa no regresso de uma viagem. Ver coisas que nunca vimos produz um efeito inigualável na nossa mente. 

Regressamos outra pessoa. Mais rica e com uma visão mais abrangente da vida. Não sei bem o que isso quer dizer, mas espero descobrir quando voltar a Portugal.

Só sei que aqui está sempre tanto calor que não consigo dormir e acabo a pensar na minha mãe. Só sei que aqui a comida é picante e estranha. Só sei que as ruas são sujas e cheias de vacas. 


Há gente por todo o lado, num burburinho sem fim. Os rios são sujos. Mas as pessoas parecem simpáticas. 

Tenho que me habituar a este país, porque o meu pai quer passar cá um mês. Prometeu levar-me à praia e a Goa. Dizem que é parecido com Lisboa. Talvez assim eu não sinta tantas saudades da minha cidade e da minha mãe.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Noite

A noite era escura como breu. Escuridão por fora. Escuridão por dentro de mim. Tinha pegado no volante há uma meia-hora e conduzia sem destino. Só me apetecia fugir de tudo e de todos. Pena não poder fugir de mim. 


Não conseguia admitir que me tinha tornado num alcoólico, que só vivia com comprimidos e licor barato. Não conseguia admitir que pudesse ter perdido a minha família por causa disso. Primeiro foi a minha mulher que me deixou. Naquela noite acabei com a vida da minha filha ao envergonhá-la perante o noivo.

A minha vida já não tinha sentido naquela noite. Ainda por cima o meu clube tinha perdido o campeonato de futebol. Nada mais me restava. Até o emprego no banco estava em vias de perder por causa dos meus atrasos pela manhã e do meu hálito a água-ardente que incomodava os clientes.

Pensando em tudo o que o álcool estava a fazer na minha vida só me sentia perdido, porque não sabia como sair daquele beco sem saída em que me sentia.

Foi nessa altura em que conduzia sem destino pela noite escura numa estrada rural que vi uma luz muito clara que não me deixava ver o caminho. O carro parou sozinho e quando dei por mim estava a ser puxado para a rua por um extraterrestre. Levou-me para a nave. 

Lembro-me que lá dentro estava um humano que me disse para não ter medo, porque eles só queriam fazer experiências científicas comigo. Não me lembro de mais nada. Só me lembro que acordei na minha cama.

O relógio marcava oito horas. Vesti-me e fui apressadamente para o banco. Quando lá cheguei apercebi-me que tinham passado dois dias. Mas ninguém acreditava na minha história e diziam que era alucinação de bêbado. O que valeu foi que cheguei a horas e não cheirava a água-ardente nesse dia. Não sei explicar como, mas desde então não toco numa gota de álcool.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Espião

Quando me tornei espião em 1969 nunca imaginei no que me iria tornar. Esta "profissão" deu-me muitas vantagens, mas também me trouxe dissabores.


No capítulo das coisas boas conto as boas missões que fiz, que me deram satisfação pessoal e profissional. Viajei por todo o mundo, conheci pessoas fantásticas e lugares incríveis, tive experiências que não teria tido a oportunidade de ter se nunca tivesse saído da minha aldeiazinha da Beira Baixa. Conheci mulheres lindas que deixariam qualquer homem em êxtase. 

Mas a verdade é que não pude dar a felicidade que merecia a única mulher que verdadeiramente me amou em toda a minha vida - e que eu também amei apesar de durante muitos anos não me aperceber disso. A mulher com quem casei ainda antes de ser espião, a mãe dos meus quatro filhos, a avó dos meus oito netos. Quem me dera poder voltar atrás para poder valorizá-la mais.

Também negativo foi não ter visto os meus filhos e os meus netos nascer e crescer. Não ter acompanhado os primeiros passos, palavras, papas, nem sequer o primeiro dia de escola ou de faculdade. Até faltei ao casamento de dois filhos. 

Para além disso, vivi a minha vida dupla baseada num chorrilho de mentiras. Chega a um ponto em que já não se sabe o que é verdade ou não. Um espião é um mentiroso profissional. Só que, olhando agora para trás, tomo consciência de que não há verdade na minha vida. A única verdade era mesmo a minha família, mas até isso me tiraram.

Afinal, a minha mulher procurou consolo noutros homens e os dois filhos do meio são de um outro homem. Um amigo meu de infância. Portanto, a única réstia de verdade que existia na minha vida desvaneceu. Morreu. Tal como eu vou morrer quando terminar esta carta.

Não culpem a vossa mãe, porque o único culpado sou eu. Não peço o vosso perdão, mas quero apenas que saibam finalmente quem fui na realidade e o que fiz de verdade em toda a minha vida. Hoje sei que vos amo mais do que tudo - aos quatro, pois amo-vos todos por igual. Eu tinha que vos proteger e fi-lo. Mas já chega. Não suporto mais. Chegou a hora de pôr termo a todas as mentiras e engodos.

Até sempre,

O vosso pai.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Puto

Nunca pensei que chegasse a este ponto. Sou puto, sim, confesso. Prostituto, melhor dizendo. Faço isto há três anos e já não sei como sair desta vida.

Na altura estava farto de estar desempregado. Fiz um curso superior, estudei anos e anos graças ao sacrifício dos meus pais, mas depois não tinha emprego. Nem como designer, nem de qualquer outra forma. Para já, custa muito veres o teu sonho de ser designer ir por água abaixo. Depois de tanta nega, lá te mentalizas que tens que procurar outro emprego. Mas nem isso eu consegui.


Tentei tudo e mais alguma coisa - desde empregado de supermercado a segurança de discoteca. Não consegui. Cheguei a um ponto em que estava desesperado. E não queria pedir ajuda a ninguém e muito menos aos meus pais. 


Lá longe em Trás-os-Montes, achavam que eu trabalhava num supermercado quando na verdade eu vivia de pequenos trabalhos de freelancer, que mal me davam para comer. É que na realidade eu nem sequer tinha subsídio de desemprego, porque nunca tinha trabalhado.

Um dia abri um jornal nas páginas dos classificados, enquanto trincava uma sandes ao almoço. Foi o princípio desta vida que levo hoje. Comecei a pôr anúncios em jornais. Tornei-me prostituto ao domicílio para satisfazer os desejos de mulheres carentes.


A maioria são mulheres ricas de homens de negócios que passam a vida a viajar. Mulheres cujos casamentos acabaram há muito, mas que querem continuar a sentir-se vivas. 


Muitas vezes nem chego a tirar a roupa. É mais um trabalho de psicólogo. Fico horas a ouvi-las falar e a fazer-lhes companhia. 

Uma vez ia correndo mal, porque a filha e o genro chegaram mais cedo a casa e tive que me esconder no quarto dela até que estivessem a dormir.

O facto é que é uma vida boa. Ganho muito dinheiro e tenho um horário flexível. Não preciso de me consumir num trabalho rotineiro, nem de obedecer a chefes. Já comprei a minha casa, o meu carro e tenho tudo o que preciso de comprar com dinheiro. O reverso da medalha é que estou mais sozinho do que nunca.


A mentira afasta-nos do mundo. E a mentira que fui contando aos meus amigos e família sobre a minha vida afastou-me de todos. Nem sequer tenho Facebook para não correr o risco de ser descoberto. 


Vivo na solidão. Só um amigo meu é que sabe a verdade. Há dias que passo a chorar com nojo de mim. Sinto que me vendi, que perdi a dignidade, que há três anos havia outras hipóteses de trabalho e eu é que optei pelo mais fácil. Mas não sei como sair deste ciclo vicioso.

Agora tenho um problema de consciência adicional. Comecei a namorar com uma rapariga, mas não sei como lhe contar a verdade. Se souber o que eu faço, corro o risco de ficar sem ela. Se eu não lhe contar corro o risco de ela descobrir e também ficar sem ela. E agora? O que faço?

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Buraco

Não gosto de sanitas. Ponto final. Nunca gostei, nem nunca hei-de gostar por mais anos que viva. Os buracos no chão ainda vá que não vá. Agora aqueles monstros que não dizem ao que vão e que escondem o buraco com um tortuoso cano são insuportáveis.

Quando eu era nova não havia nada disso. Fazias no campo, a céu aberto. Ou então no penico. Depois havia o tal buraco, invenção mais moderna, com um sistema de autoclismo e tudo. A técnica era simples: punhas os pés nos locais indicados por um rasto antiderrapante, abrias as pernas e fazias o que tinhas a fazer. Aprendi isto no dia em que fui para a escola primária. Já lá vão uns 60 anos, portanto.


Quanto a sanitas, a primeira que vi foi quando fui com os meus pais a Lisboa pela primeira vez. Fomos de comboio. Chegados a Santa Apolónia, lá fomos às retretes. A minha mãe levava-me pela mão quando eu a fiz passar a pior vergonha da vida. 


Eu, do alto dos meus quatro anos, recusava-me a entrar naquele compartimento onde estava uma coisa que a minha mãe chamava de sanita. Ela explicava-me que eu só precisava de me sentar lá e fazer o que costumava fazer ao ar livre. Mas eu recusava-me. E como? Gritando, berrando a plenos pulmões, chorando. 

As outras pessoas deviam pensar que a minha mãe me tinha batido ou alguma coisa do género para eu chorar assim. Mas não. Ela bateu-me foi depois. E obrigou-me a sentar-me na sanita.

Guardo essa memória traumática como se se tivesse passado hoje. O que mais me atemorizava era o que eu chamava e ainda hoje chamo de "sanita em U". Basicamente, é uma sanita das antigas, em que a parte do buraco é um vale estreito e não uma abertura arredondada. 


Não sei explicar esta minha aversão por este tipo de sanitas, mas confesso que ainda hoje se mantém. Passei muitos anos em que procurava outra sanita quando numa qualquer casa de banho pública me aparecia uma sanita em U. Hoje já ultrapassei isso e consigo usá-la, mas a verdade é que continuo a sentir repulsa por este tipo de sanitas.

Um dos meus problemas quando me casei e fui instituída dona de casa foi ter que limpar a sanita, pelo menos semanalmente. Pôr lá em baixo uma esponja com a minha mão é das coisas mais tenebrosas pelas quais tive que passar. 


Mais tarde deixei de o fazer e a sujidade acumulou-se. O meu marido invocou esse motivo para se divorciar de mim naquele país retrógrado em que vivíamos. Claro que ele já andava enrolado com a secretária com quem se viria a casar pelo civil. O que ele não sabia é que eu andava enrolada com o porteiro, mas isso são outras conversas que agora não interessam.

Facto, facto é que nunca soube explicar este meu problema com as sanitas. Parece tão ridículo, mas foi muito determinante durante a parte da minha vida em que me deixei dominar por ele. 


Talvez seja uma coisa de vidas passadas, como diz a Célia que passa a vida a viajar para a Índia. Ou então é mesmo uma coisa inexplicável. O certo é que haverá sempre coisas mais bonitas na vida do que as sanitas.