segunda-feira, 16 de março de 2015

Amor

Não há maior e melhor amor na vida do que o amor por um filho. Já tive muitos homens em meio século de vida, mas nenhum se equipara ao amor pelo meu filho. 

O amor por um qualquer homem só leva à perdição, à desgraça, à miséria, à ignomínia. Pelo contrário, o amor por um filho eleva-nos, torna-nos superiores e quase celestiais. 

Temos a oportunidade de nos aperfeiçoarmos naquela figura e temos a ilusão de que podemos mudar o mundo com a sua educação. Pura ilusão. Mas impossível de ser afastada.

Facto é que nunca deixarei de amar o meu filho, ao passo que o amor por um homem muda de cambiante, transfigura-se e desvanesce com o tempo -  e sobretudo com a convivência.


Não preciso desses amores banais para viver. São como fósforos. Existem às centenas. Acendem-se, iluminam e depois apagam-se. Mas não saberia viver sem o amor do meu filho.


Não conseguiria mais respirar se não o pudesse ver mais na vida. Ouvir a sua voz, abraçá-lo, beijá-lo. Preferia atirar-me para a morte, qual Anna Karenina. Não suportaria ficar sem o amor mais puro, verdadeiro e eterno que existe neste mundo. 

Quem pensa de outro modo está enganado. Ou então teve a felicidade de encontrar um amor pleno num qualquer homem. Daqueles que se encontram uma vez de cem em cem anos.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Guerra

A noite escura traz-me os maus pensamentos que queria esquecer. Não consigo dormir e arrasto-me pela casa como um fantasma.

Olho para a minha mulher a dormir. Passo pelo quarto dos miúdos e vejo dois anjinhos de olhos fechados. Quem me dera voltar a ser criança. Não saber o que se passa no mundo, não conhecer a miséria humana, não ter ido à guerra, não ter vivido nada do que vivi nos últimos meses.


Nunca senti tanto nojo de mim próprio como agora. Olho para as minhas mãos à luz ténue do candeeiro que ilumina a sala e só vejo sangue. Sinto que tenho as mãos sujas para sempre. 


Fecho os olhos para tentar esquecer, mas é pior. Só me aparecem imagens de cenas de guerra. Cruas. Cruéis. Frias. Negras. Flashes que não consigo apagar da memória. Sobretudo os momentos em que matei pessoas. 

Sim, eu matei. Eu tirei a vida a pessoas. Não eram inimigos. Eram pessoas. Tomei consciência disso de cada vez que as via tombar por minha causa.

Não sei lidar com isto. Como pode alguém ter o direito de tirar a vida de outra pessoa? Tudo me parecia bem resolvido na minha cabeça antes desta minha primeira missão na guerra. Agora sei que não fui feito para isto. 


É como se a cada morte eu visse acorrer à volta do corpo toda uma família que ficou desfeita e indefesa. Eu não tinha o direito de lhe tirar a vida. Eu não tinha.

A minha mulher já me perguntou o que se passava, porque sente que eu não estou bem. Mas eu não tenho coragem de lhe confessar a verdade. Sinto vergonha só de olhar para ela. Tão pura, tão limpa, tão longe daquele mundo pérfido por onde andei. 


Eu cheguei há três dias e ainda não fui capaz de ir para a cama com ela. Sinto-me sujo e sinto que não a posso manchar.

Passo as noites em branco a pensar numa solução para isto. O meu chefe acha que eu preciso de tratamento psicológico. Eu acho que preciso de sair do exército. 


Não consigo mais pegar numa arma. Tenho que mudar de vida. Preciso de me afastar desse mundo. Amanhã vou falar com o meu chefe. Amanhã vou falar com a minha mulher. Amanhã vou mudar.

segunda-feira, 2 de março de 2015

É complicado

Desprendo as mangas que me atam os braços. Dispo as calças que me cobrem as pernas. Atiro com os pedaços de couro que me tapam os pés. Ficam a rebolar pela duna abaixo.

Corro pela areia molhada e fecho os olhos ao sentir o vento a bater-me no rosto e nos cabelos. Rodopio pela praia que esta manhã é só minha. A maresia fresca enche-me o peito. É como se voltasse a ser jovem. Não preciso de mais nada para me sentir bem. Melhor só: mergulhar nas ondas frias que me deixam a pele eriçada.


Abro os olhos ao vir à tona e logo regressa o pensamento da minha filha. Vim aqui para me distrair, mas é difícil. Não há dor maior neste mundo do que perder uma filha. Ela tinha 40 anos. Deixou um menino de 12 anos. Deixou uma vida por concretizar, planos por realizar, caminhos por percorrer, deixou tudo por viver.


Não devia ser permitido que um filho morresse antes dos pais. Não é natural, não é justo. Um AVC não é nome que se dê a uma morte. A falta de idas ao médico e o excesso de trabalho são culpados, mas não deviam ser razões suficientes para morrer. 


A minha revolta salta-me do peito de cada vez que me lembro do seu sorriso puro, que me remete para aquele tempo em que era uma menina de sete anos com um vestido aos lacinhos amarelos e um chapéu de palha a pedir-me para lhe descascar uma maçã enquanto apontava para uma macieira na quinta do meu pai em Felgueiras. 

Não posso aceitar que a morte a tenha roubado à minha vida.

As lágrimas que me escorrem pelo pescoço misturam-se com a água salgada que boia à minha volta. Quem me dera ser como esta espuma branca e não sentir nada. Não ter que sentir o coração dilacerado de cada vez que olho para o rosto amargurado do meu marido.


Sentado na sua cadeira de rodas, agarrado ao andarilho, ou virado de lado na cama, os seus olhos têm sempre a mesma mensagem. É um pai que não sabe mais onde há-de meter tanta dor. E eu queria ajudá-lo mas não sei como. É também com dificuldade que lido com a minha cruz, com este peso que me puxa para o chão de cada vez que dou um passo.

Saio da praia, pego no carro e volto para casa. Ao fundo do prédio as vizinhas olham-me com compaixão enquanto se acotovelam a mirar-me ao caminhar naquela direcção. De nada me serve a pena delas. 


Uma decide continuar a conversa e dizer que a receita que a outra lhe sugeria era muito complicada. "É complicado", apontava com a sua voz fininha e impertinente. Só me apetecia dizer-lhe: "Minha senhora, nada é complicado nesta vida. Tudo se faz, tudo tem solução. Complicado é mesmo o que não tem remédio. Complicado é morrer aos 40 anos."

Engulo a minha vontade em seco. Atiro um bom dia às três e rodo a chave na porta do prédio. De repente, penso que a minha filha não gostaria de me ver assim vergada ao peso da dor. Endireito as costas, levanto a cabeça e subo as escadas. Acabo de decidir mudar após estes penosos meses de luto. Hoje vou levar o meu marido a almoçar fora. Enquanto cá estamos a vida é para ser vivida, já dizia o meu pai.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Segunda-feira

Onde vão os rostos abatidos que me rodeiam nesta lata de sardinhas a que chamam de metro? Uns irão para a escola e para a faculdade, outros para o trabalho. Vai tudo ensonado e bem-cheiroso. Há uma nota de tristeza no ar. Parece que não gostam das segundas-feiras.

Para mim não há melhor dia na semana. Tudo começa à segunda-feira e todos os projectos e planos têm a esperança de serem concretizados. Tudo é possível à segunda-feira.


Gosto deste dia sobretudo porque gosto do que faço. Ser guia turística é como estar sempre de férias. A conhecer pessoas novas, a mostar-lhes a minha cidade, a passear. 


Alguém um dia disse que devíamos escolher um emprego de que gostássemos e assim não teríamos que trabalhar um único dia. Acho que é isto mesmo que resume a minha vida. 

Este trabalho faz-me sentir viva, com o sangue a correr nas veias. E o coração bate tão forte que quase salta do peito quando um estrangeiro meagradece pelo roteiro e elogia o meu trabalho no tempo que passámos juntos.

Por tudo isto é penoso olhar para a tristeza estampada nestes rostos que me rodeiam nesta carruagem que rola pelo escuro túnel debaixo do chão. 


Não sabem o que é a felicidade de fazer o que gostamos, de nos sentirmos realizados profissionalmente. Só pode ser esse o motivo para ver tantas caras fechadas à segunda-feira e tantos rostos alegres à sexta-feira.

Eles odeiam as segundas-feiras e desejariam que a vida fosse composta apenas de fins-de-semana para os preencherem com romarias aos centros comerciais e às depressivas lojas de móveis onde almoçam almôndegas sonhando que foram viajar para a Escandinávia.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A estação

Uma mulher enxuga as lágrimas com as costas da mão enrugada. Um velho acena com a bengala na direcção de uma janela que não se abre. Uma criança ao colo de um pai esperneia e berra, chamando pela mãe, e apontando para o comboio que se vai afastando pelos carris fora.

Não há lugar no mundo que assista a tantas partidas e chegadas como uma estação ferroviária. Há centenas de composições a partir e a chegar por dia. Há milhares de pessoas a embarcar e a deixar outras para trás. Algumas vão embora temporariamente, outras para sempre. Há quem não volte mais àquele local.


Sou segurança desta estação há anos. No início não gostava. Fazia-me confusão tanto frenesim, tanto barulho, tanto choro, e tanta tristeza. Mas depois reparei que aqui há também alegria, há vida, há esperança num dia melhor, há a expectativa do desconhecido, há a partilha do reencontro. Nenhum sítio é tão poético e belo como este.


Foi assim que me tornei poeta. Comecei a escrever nas horas livres, inspirado pelo barulho maquinal dos carris e pelas possibilidades de viagem que na estação se abrem. Se há uns anos me dissessem eu não acreditaria que hoje venderia tantos livros. Eu que nem era assim tão bom aluno a português na escola, eu que me tornei segurança por não ter vocação para os estudos - muito menos para as letras.


Hoje sou uma pessoa nova. Se pudesse, passava toda a minha vida ali, algures entre um vagão e um terminal. Já disse à minha mulher e aos miúdos que quando morrer quero que as minhas cinzas sejam lançadas para os carris. E assim poderei para sempre assistir às emoções das partidas e chegadas, que nos dão a certeza de que o mundo continua a girar e a avançar.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Correr por mim



O frio quer enregelar-me os ossos, mas eu não deixo. O vento quer cortar-me a pele, mas eu não permito. São seis da manhã e eu corro pela avenida como se não estivessem dois graus centígrados, como se não fosse de noite. Eu é que comando a minha vida, pelo menos neste momento.


Não consegui comandar tudo. O meu marido morreu naquele estúpido acidente de trabalho. Quem me mandou casar-me com um homem que limpa janelas de arranha-céus? E depois ter três filhos com ele?


Metida em mim nestes pensamentos deprimentes, nem dava pelos rostos das pessoas que passam por mim. Vão apressadas para o autocarro e para o metro, a caminho do trabalho provavelmente. Olham-me como se de uma extraterrestre se tratasse. Devem estar a pensar que sou doida por correr a esta hora da manhã.


Mal sabem que é a única hora do dia que é minha e só minha. Os miúdos estão a dormir ainda. A esta altura não tenho que ser mãe, não tenho que ser dona de casa, não tenho que ser empregada de mesa de restaurante. Só tenho que ser eu e usar o tempo da maneira que quero.


Comecei a correr a esta hora numa madrugada em que não consegui dormir. Foi quando fazia dez anos de casada. O primeiro aniversário sem o meu marido. Depois de vinte anos de vida partilhada, metade de mim morreu e deixou-me três pequenos pedaços dela para eu criar. Senti-me abandonada, mas tinha que continuar a viver por eles. E por ele. Pelo meu amor. Mas também por mim.


Depois dessa noite em claro, senti que tinha que viver por mim. Que procurar atividades que eu gostasse de fazer. E recordei-me como gostava de correr. Da minha infância e juventude passadas a fazer atletismo, uma paixão que abandonei para começar a trabalhar e a ter a minha independência financeira. 

Levantei-me então da cama, vesti-me, vi que os meus anjinhos estavam a dormir, e saí de casa para correr. Eram cinco e meia da manhã. 


A partir dessa madrugada passei a correr sempre por volta da mesma hora. É a minha liberdade e a minha libertação. É quando só penso em mim e ninguém me consegue roubar os meus pensamentos. O tempo é só meu. Sou só a Mafalda. Eu, eu, eu. A mulher que pensa, quer, tem desejos e sonhos, mesmo que pareçam distantes. 


Quando dou por mim estou com um sorriso de orelha a orelha. E os rostos que me olham a caminho dos transportes públicos têm estampada a estranheza de quem não compreende como se pode correr a esta hora da manhã e ainda por cima sorrir.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Falar

Às vezes penso que gostava de poder falar com as pessoas. Acho que seria muito mais útil e sentia-me mais realizada. Quem sabe até poder tocar nas pessoas, tagarelar e rir-me com elas.

Por exemplo, neste momento há duas mulheres de cerca de 70 anos a olharem especadas para mim. Entreolham-se e discutem sobre a minha utilidade. 


Uma diz que eu sou uma cabine para as pessoas se sentarem a verem-se ao espelho ou a maquilharem-se. A outra refuta a tese. Aponta para as imagens estampadas nas minhas paredes coloridas e argumenta que eu sou uma máquina de tirar fotografias. Quem me dera poder dizer-lhe que ela tem razão e agarrá-la no braço, mostrando-lhe como funciono.

Uma apercebe-se que há instruções do lado de dentro, mas pelos vistos nenhuma das duas sabe ler. Decidem interpelar uma rapariga que está a subir as escadas rolantes do metro e perguntam-lhe que máquina é esta. 


Do alto do seu metro e oitenta, dos saltos agulha e da saia lápis, ela olha para as velhotas vestidas de viúva e agarradas às malas com ar cossaco e triste.

A rapariga solta uma gargalhada que deixa as duas com um ar indignado. Ainda assim, põe um ar sério de seguida e explica-lhes que eu sou uma máquina de tirar fotografias e mostra-lhes como funciono. 

Acabam por tirar várias fotografias. Uma de cada vez, duas a duas e até as três juntas. Tiram fotos até se fartar. 

Saem daqui entre risadas a apontar para as fotos e a decidir a quem as vão oferecer. Vão as três beber um chá à pastelaria da esquina. E eu aqui continuo presa na minha solidão, sem poder falar nem beber chá alguma vez na minha vida. Vida de máquina.