Um quarto de hotel é sempre o expoente máximo da solidão
para mim. Estou sozinho entre quatro paredes. E a minha vida é feita de
solidão. Dizem que um casamento consiste numa solidão que ampara outra solidão.
Neste caso eu não consigo amparar a solidão da minha mulher.
Eu estou sempre longe de casa. O trabalho leva-me todas as semanas a cidades
diferentes, a escritórios diferentes e a quartos de hotel diferentes. Mas para
mim é tudo igual. O avião é a minha segunda casa. É onde me sinto mais amparado
e mais feliz quando estou longe da minha verdadeira casa.
Pergunta-me o espelho se sou feliz. Não sei o que responder. Enquanto trabalho
e viajo pareço estar feliz, sinto-me realizado. O problema é mesmo quando chego
ao quarto de hotel e fico a sós com a minha solidão.
A solidão mata e corrói-nos por dentro aos poucos. Leva-nos a tranquilidade, a
harmonia, a esperança, leva-nos até a fala. Em troca traz-nos o medo, a
insegurança, a intranquilidade. Ficamos ensimesmados, indiferentes aos outros,
tornamo-nos bichos-do-mato. E já não estranhamos quando nos sentimos sozinhos
no meio de uma multidão.
O meu melhor amigo diz que ninguém nos pode tirar a nossa solidão. Cabe-nos a
nós próprios lutar para sair dela, reinventarmo-nos, deixarmos os caminhos
antigos, ir ao encontro dos outros e reaprender a sorrir com a alegria de quem
vê uma coisa linda pela primeira vez. Viver cada momento como se fosse o
último, porque amanhã pode ser tarde.
Só que eu não consigo ser tão optimista. Ou pelo menos não tenho forças para
lutar contra as minhas fraquezas. Esse amigo aconselha-me muitas vezes a matar
a solidão com mulheres. Já experimentei. Mas sinto-me sozinho na mesma e ainda
por cima sinto-me sujo. Quando olho para a minha mulher sinto-me um lixo, um
cobarde, que para além de não a ajudar a criar os nossos filhos ainda anda a
viajar e a traí-la. Eu não posso fazer mais isso. Eu não quero.
A solução é aprender a viver com a minha solidão. Ainda que demore tempo. Ou
então, como me segreda a minha mãe de cada vez que a vejo, o melhor é mudar de
trabalho. Posso ganhar muito menos dinheiro mas pelo menos tenho a felicidade
de adormecer e acordar todos os dias ao lado da mulher que eu amo. De fazer
torradas pela manhã enquanto ela me agarra pela cintura. De parar uma batalha
de cereais entre os miúdos. De ver os sorrisos deles sempre que os levo à
escola. De lhes dar banho à noite. Há coisas que não têm preço. A minha mãe tem
razão. Está decidido. Amanhã vou falar com o meu chefe e vou à procura da minha
felicidade. Adeus solidão.