segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A gaivota e eu

Uma gaivota pairava dourada sobre as nossas cabeças. Naquelas asas havia tanto sol que a nossa vista terrena não podia alcançar. Os raios do astro-rei já não pousavam sobre a nossa pele e só se deixavam ver naqueles braços cobertos de penas e nas pontas dos prédios mais altos.

Naquele momento eu queria apenas ser aquela gaivota voando feliz pelo céu azul de fim de tarde, voando indiferente a todas as desgraças que se passavam cá em baixo.


 Os meus pensamentos foram interrompidos por um dedo que se espetou nas minhas costas.


 - Desculpe menina, sabia que Deus veio ao mundo para nos salvar?


 Claro que eu sabia. Essa notícia era tão velha que era quase impossível não o saber. Mas se a senhora insistir em dar-me essa revista esteja certa de que vai parar àquele papelão, rematei decidida e virei a cara para ver quanto tempo ainda demorava a chegar o autocarro.


Sete longos minutos. Suspirei e voltei a pensar na gaivota. Pensei também na minha irmã que estava acamada e em fase terminal, no meu chefe que me tinha despedido duas horas antes com o argumento da crise, na minha mãe que me sorria apática na sua doença que a afasta do mundo, no meu namorado que me tinha trocado uns dias antes por um colega de trabalho.


A minha vida era feitas de coisas más. Só me apetecia fugir de tudo e de todos, mas o problema é que não podia fugir de mim própria. E a minha irmã precisava de mim. Naquele dia. Queria revelar-me as suas últimas vontades, queria dizer como seria o seu funeral. Eu é que teria que tratar de tudo.

Que crueldade, que vida tão inútil e frágil. O que faço eu aqui se não vou poder mais ouvir a sua voz, cheirar o seu perfume adocicado, pegar nas suas mãos, sentir o seu abraço quente, ficar em silêncio perante alguém durante horas e deixar apenas os olhos desabafar quando me apetecesse.

Já uma lágrima desobediente rolava pela minha face quando vi o autocarro finalmente aproximar-se. Sentei-me e abri distraidamente o jornal da manhã. Lembrei-me então de procurar trabalho nos classificados. Embora sem grande fé de encontrar alguma coisa, sempre era uma forma de manter a cabeça ocupada.


O que não esperava de todo era encontrar num dos quadradinhos o nome do meu primeiro namorado. Dono de uma churrasqueira agora, procurava uma empregada a tempo inteiro. Resolvi responder ao anúncio.

Este foi o princípio da vida feliz que tenho hoje ao lado do pai dos meus filhos e avô dos meus netos. E hoje sempre que vejo uma gaivota de asas douradas a pairar no céu lembro-me daquele dia que marcou a viragem do meu destino.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Sonhar pelos outros

Etelvina queria uma nora que soubesse bordar e coser para fazer companhia à lareira nas noites de inverno. Ajudar a cuidar da horta, limpar a casa e fazer a comida. Dar-lhe netos e criá-los. Que mais podia uma mulher querer da vida senão viver assim ao lado da sogra?
Na casa ao lado, Juventino queria um genro que soubesse pegar num tractor, lavrar a terra, rachar lenha e roçar mato. Beber um litro de vinho ao jantar, palitar os dentes, comer moelas na taberna e jogar cartas. Um genro assim era um sonho.


Um e outro eram viúvos e acreditavam que os filhos iriam casar com pessoas assim e lhes dariam netos para atenuar a solidão da velhice.


Só que aconteceu o que nenhum dos dois esperava. O filho de Etelvina e a filha de Juventino caíram de amores um pelo outro, depois de umas relações fugazes de que os pais não tinham tido conhecimento sequer. Vera e João conheciam-se desde sempre, mas só agora a paixão despertara. Mas nem um, nem outro correspondiam ao perfil de genro e nora de sonho.


Vera era engenheira e queria consolidar uma carreira antes de pensar em casar e ter filhos. João era enfermeiro e queria voltar a estudar para chegar a médico.


A paixão repentina, a relação arrebatadora em poucos meses não estavam nos planos. Nem este envolvimento estava nos planos dos pais de ambos. Viúvos e vizinhos, tinham estima um pelo outro, mas o que menos queriam era que os filhos se envolvessem. Não era isso que tinham sonhado para os filhos, simplesmente porque nem sequer sonhavam que os filhos fossem para a universidade. Sempre desejaram que tivessem um percurso como o seu, que não seguissem os estudos. E que lhes dessem netos rapidamente. Por isso, opuseram-se fortemente àquele namoro.


Etelvina e Juventino decidiram lutar juntos contra a relação dos filhos. Todos os dias juntavam-se para planear formas de sabotar o namoro. Inventavam mentiras aos filhos para denegrir a imagem de Vera aos olhos de João e vice-versa, arranjavam mil e um esquemas e até encontraram o genro e a nora perfeita para cada um, tentando atirá-los para os braços dos filhos.


Nada resultou. Quanto mais os tentavam afastar, mais eles se aproximavam. Chegou a um ponto em que Vera e João já não suportavam Etelvina e Juventino, os seus esquemas e mentiras. Em segredo arranjaram trabalho na Suíça, compraram os bilhetes e fizeram as malas. Os pais só souberam de tudo no dia da viagem.


Etelvina e Juventino perderam os filhos para sempre. Magoados com os pais, Vera e João nunca mais voltaram a Portugal. Etelvina e Juventino não chegaram a conhecer os netos, não viram João tornar-se médico e Vera dona de uma empresa de sucesso.


Apesar de tudo, Etelvina e Juventino sempre acharam que os filhos é que estavam errados e teriam que arrepender-se pelo que fizeram. E tanto se apoiaram um ao outro que acabaram por se envolver. E aos 53 anos Etelvina engravidou e Juventino voltou a ser pai.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Embrulhada

O vento quente do estio a deslizar pelos pêlos das pernas. Não há nada melhor neste mundo. Pelo menos era o que pensava Tomé enquanto ia pela estrada fora fintando os carros.

Os calções esverdeados não viam a luz do dia desde o outono anterior e até cheiravam a môfo, mas nada disso importava. Tomé acreditava que aquela peça de roupa lhe dava poderes especiais com as mulheres, até mesmo se estivessem enrugados. 


Afinal, todos os Verões arranjava namoradas giras e durante o resto do ano as raparigas não lhe ligavam. Só podia ser dos calções. Foi com eles que deu o primeiro beijo a sério, foi com eles que conquistou uma miúda que já tinha sido Miss Vindimas, foi com eles que foi eleito Mister Praia, foi com eles que passou tantos bons momentos. Tanto tempo que já tinham mudado de cor e ficado menos verdes com as lavagens.

Tomé ia agora a caminho da sua nova vida. Em breve teria o diploma de bombeiro profissional e então ninguém o pararia com as miúdas. Pelo menos assim pensava enquanto estacionava a sua scooter verde em frente à casa da miúda mais gira de Matosinhos.


Tinha combinado ir buscá-la para irem à praia, mas como sabia que os pais dela não estavam em casa decidiu ir mais cedo para tentar a sua sorte. Aqueles calções nunca falhavam. E não falharam também naquele dia.


O problema foi quando o pai dela entrou em casa e foi seguindo o rasto de roupas até ao quarto da filha, onde a encontrou enrolada com um rapaz. Os dois estavam tal como vieram ao mundo.


O problema foi quando o pai dela e Tomé viram a cara um do outro, o problema foi quando se olharam nos olhos, o problema foi quando perceberam a embrulhada em que se tinham metido.


É que ninguém dos três sabia que o pai de Tomé era também o pai da rapariga. Tinha duas famílias. Uma em Matosinhos e outra na Régua. E mal sonhava que naquele momento a sua filha estava grávida do seu próprio filho.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Ana Desenxabida

Há pessoas que têm o dom da palavra e outras que não têm. Ana Enxabida definitivamente não tinha.

Toda a sua vida foi passada na aldeia onde nasceu, tirando uma ou outra ida a médicos no Porto ou à cidade vizinha. Quando andava na escola e na catequese era sempre posta de parte pelos colegas e professores, porque estava sempre encolhida e raramente falava, mesmo quando lhe perguntavam alguma coisa. Foi por isso que lhe começaram a chamar Enxabida. E quando uma alcunha pega numa aldeia é para toda a vida. 

Nunca passou da quarta classe e mesmo para isso teve que lá andar 15 anos. Os pais também nunca a souberam ajudar, até porque eles também não tinham grandes amizades com a expressão oral. Depois de sair da escola, Ana Enxabida foi ajudar o pai a guardar o gado, mas nem para isso se ajeitava. Ficava encolhida junto a um carvalho ou uma oliveira enquanto o cão pastor fazia o trabalho todo sozinho.

O que ninguém sabia era que ela tinha grande aptidão para as artes plásticas. A mãe sabia apenas que ela passava todo o tempo livre a olhar para desenhos coloridos que encontrava no computador, na internet ou lá o que é. E que sempre que juntava dinheiro ia à loja dos chineses nas idas à cidade vizinha. 

Um dia a mãe percebeu que ela estava no quarto com umas tintas como aquelas de pintar paredes, mas em tubos mais pequenos. Pintava uns papéis ou tecidos brancos com uns pincéis mais pequenos do que as trinchas. A única coisa que pensou dessa vez é que o melhor era deixá-la entretida. Seria menos um empecilho na cozinha. E das vezes seguintes que viu o cenário pensou o mesmo.

Um dia quando foi à cidade Ana Enxabida viu um cartaz com um desenho colorido como os que gostava de pintar e leu que um pintor de Guimarães iria estar ali dentro de duas semanas para mostrar os seus novos quadros. A caminho de casa, na camioneta de carreira, Ana Enxabida não pensou noutra coisa. Até que no dia seguinte lhe ocorreu aparecer na tal exposição com alguns dos seus quadros.

- Fauvismo! - atirou o conhecido pintor ao ver as três telas. Isto é uma obra de arte menina!

Magia ou não, ao fim de mais de 20 anos a língua dela soltou-se, endireitou as costas e apontou com ar resoluto:

- Fui eu que pintei. E tenho muitas mais em casa. Se me aceitar como discípula podemos dividir lucros de exposições que eu venha a fazer.

Dez anos depois regressou à aldeia natal para ir ao funeral da mãe. Bem vestida e de pose altiva, de braço dado com um rico marido pintor francês, ninguém mais se atreveu a chamar-lhe Enxabida. A partir daí passou a ser conhecida por lá como Ana Desenxabida.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Mariana e as redes

Mariana não gostava nada de andar de comboio. Mas desde que entrou na universidade em Coimbra, no princípio do ano, era obrigada a andar todos os dias naquelas carruagens que detestava entre a Mealhada e a cidade que dizem ser dos estudantes.

O desejo dela era poder viver perto da faculdade, só que os pais preferiam que ficasse em casa da avó a fazer-lhe companhia.

As aborrecidas viagens de comboio só ganharam um novo sentido em Janeiro quando os pais lhe mandaram de França um telemóvel de última geração como prenda de aniversário. 

Desde então já nem se importa de andar de comboio, porque o tempo é agora passado nas redes sociais, a ouvir música, ver fotos e em jogos super coloridos.

O melhor mesmo para ela é ir ao Facebook. É como entrar numa sala onde estão todos os seus amigos, saber tudo o que há de novo, contar-lhes todas as novidades, partilhar vídeos e fotos com eles. 

E depois, a qualquer momento que lhe apeteça, fechar a porta sem se despedir nem se explicar. E ficar sozinha de novo, entregue aos jogos supercoloridos ou então ao sono.

O grande problema foi o dia em que adormeceu a meio do caminho e quando chegou a Coimbra já não tinha o seu fantástico telemóvel de última geração.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A prisão

Entrou no meu mundo e nem sequer pediu licença. Chegou quando menos esperava e encontrou-me incauto.

Eu estava à espera de nada. Aos 51 anos, já nada espero da vida ao mesmo tempo que espero tudo. No fundo é como se me tentasse convencer que o melhor é não criar demasiadas expectativas quanto ao futuro para não correr o risco de a vida me desiludir, ao mesmo tempo que me mantenho aberto a tudo o que de bom a vida me possa trazer.

Sim, de bom, que o melhor é não pensar no pior para não corrermos o risco de ele se lembrar de nós e vir ter connosco. Se isto é assim nesta idade nem quero imaginar como será daqui a trinta anos.

Mas, como dizia há pouco, ela encontrou-me incauta. Eu entrei no metro e o olhar dela veio ter comigo, abanou-me. Eu sentei-me e ela insistia em abanar-me. Eu olhava para o vidro e inconscientemente procurava o reflexo dela, onde a via a virar a cabeça para me procurar. E assim fomos pela terra fora, naquele túnel escuro que parecia não ter fim e que apenas era entrecortado pelas paragens nas estações do metro.

Finalmente quando chegou à minha paragem levantei-me para sair e quando dei por mim estava encostada a ela. Ela pegou levemente na minha mão direita e acompanhou-me na saída da carruagem. 

Já do lado de fora ficámos petrificados a olhar um para o outro até o metro arrancar em direcção a outra estação. E aquele momento em que éramos só olhos um para o outro durou até que ela decidiu desatar o nosso até então eterno silêncio com uma respiração ofegante que conduziu os seus lábios até aos meus.

O conto de fadas só terminou quando ela me disse que estava a fugir à polícia por ser acusada de roubo de corações de homens desprotegidos. Foi assim que a passei a visitar todos os domingos na prisão que é o meu amor por ela.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Uma mentira contada mil vezes...

Num reino não muito distante do meu Alentejo de searas queimadas ao sol e de casas caiadas pela luz há um outro reino onde o cheiro é rei.

Para dizer a verdade nunca lá fui, mas agora que penso nisso vou pedir ao ti Firmino que me diga o caminho para lá. Foi ele que chegou um dia aqui à aldeia com essa notícia. 

O filho trabalha num parque de animais, um género de jardim zoológico que há por aí - também não me perguntem onde ao certo que não sou bom a dar indicações como já perceberam - e, numa das vezes em que foi buscar camelos ao deserto, quando vinha em Espanha tranquilamente a conduzir o camião cheio de animais foi sobressaltado por um cheiro.

Era um cheiro doce e ao mesmo tempo agressivo, viciante e possessivo. Sem se aperceber, o Manel da Rosa Matildes - que é como quem diz, o filho do ti Firmino - já tinha saído da estrada e estava a conduzir num caminho de terra batida. O cheiro é que o conduzia, ele não tinha controlo sobre o camião. 

Quando se apercebeu disso tentou encostar na berma para poder destapar a tampa do farnel e cheirar a comida que guardava para o almoço foi impedido por uma força que não lhe deixava sequer guinar o volante. E as mãos pareciam estar coladas àquela roda, tantas vezes companheira e agora diabólica. 

Como não funcionou a ideia de tentar neutralizar aquele cheiro que abria as narinas e chegava a fazer doer os pulmões, o Manel da Rosa Matildes lá se resignou a continuar pelo caminho de terra batida que começava a ser polvilhado por pétalas de rosa. Não eram umas pétalas de tamanho normal - alertou várias vezes o ti Firmino quando contou isto pela primeira vez na adega do Bartolomeu do Rómulo. As pétalas eram do tamanho de pratos, e, como se tivessem sido moldadas numa forma, eram encovadas no meio, como um prato de sopa. Vermelhas, amarelas, brancas, cor-de-laranja e até azuis, as pétalas estavam por toda a estrada já.

Aos poucos começaram a ver-se debruçadas para o caminho umas roseiras com um botões enormes, que se percebia serem as mães das pétalas espalhadas pelo chão.

Nos campos à volta trabalhavam mulheres e homens muito pequenos. Não eram anões, gosta de frisar o ti Firmino sempre que conta isto. Eram maiores do que os anões, mas mais pequenos do que a altura média normal. Vestiam-se com panos coloridos, a condizer com as roseiras. Quem se vestia de azul estava atrás da roseira azul, quem se vestia de amarelo estava atrás da roseira amarela, quem se vestia de branco estava atrás da roseira branca, e assim por diante. O Manel da Rosa Matildes não conseguiu perceber o que faziam ao certo nos campos, mas podia jurar que estavam a podar roseiras.

O camião continuou imparável por um caminho assim durante largos quilómetros de modo que o Manel da Rosa Matildes acabou por adormecer. De repente acordou sobressaltado por um cheiro ainda mais doce e agressivo e possessivo. Ato contínuo, levou o pé ao travão para imobilizar a viatura - como gosta de dizer desde que tirou a carta em Évora há dez anos - e conseguiu mesmo parar o camião.

Olhou em frente e viu uma casa apalaçada, enorme, forrada com as tais pétalas de roseiras que se enlaçavam às paredes a partir dos cantos. De dentro da porta saiu um homem alto, com uns dois metros de altura, vestido com uns panos de várias cores, as cores das roseiras. Seguiam-no uns vinte homens do tamanho dos que vira nos campos, mas vestidos com panos iguais aos do gigante.

O Manel da Rosa Matildes decidiu sair do camião e foi quando os criados do gigante o rodearam. Ele queria falar e nada lhe conseguia sair da garganta. Ele queria mexer-se e não conseguia. Eles falavam numa língua que ele não entendia e quando se moviam cheiravam a rosas secas. Ninguém o olhou nos olhos até que o gigante se aproximou e lhe falou em português com um sotaque castelhano.

- Prestaste um serviço importante à nossa comunidade. Nós precisamos mais dos camelos e do camião do que o teu zoozinho lastimável. Vamos ficar com tudo o que tens. Podes ir para casa e levar o teu farnel. Não te preocupes que não te fazemos mal e os teus camelos estão em boas mãos.

- Mas como é que vou para casa se nem sei onde estou?

- Vais adormecer daqui a nada e quando acordares já estás no teu Alentejo. Não adianta virem à procura do camião e dos camelos, porque não nos vão encontrar. O nosso reino só se deixa ver e cheirar por quem nos é útil e quando nós queremos, apesar de vivermos debaixo do vosso nariz. O cheiro é o nosso rei e as rosas as rainhas. É a única coisa que te posso revelar.

Nesta altura o Manel da Rosa Matildes sentiu as narinas a serem inundadas por um perfume forte e simultaneamente picante, sensual e vibrante. E adormeceu.

Quando acordou estava à beira de uma estrada para os lados de Mora. Teve que vir à boleia de camionistas até casa. Chegou num domingo de Páscoa, quando já ninguém acreditava que estava vivo, a não ser a Rosa Matildes. Tinha passado um mês e as polícias portuguesa e espanhola andavam a investigar o desaparecimento, mas sem grandes avanços.

Toda a gente aqui acreditou nesta história do reino das roseiras e do cheiro forte, agressivo e possessivo. Menos eu. Desde que ouvi o ti Firmino contar isto na adega do Bartolomeu do Rómulo naquele domingo de Páscoa que me cheirou logo a patranha. 

Cá para mim ele meteu-se em negócios escuros, vendeu o camião mais os camelos e foi abandonado à beira de uma estrada sem nada. E depois inventou esta história para se safar. Ninguém me tira isto da mioleira.